Andrea Bruce para The New York Times
Andrea Bruce para The New York Times

Escolas da Suécia eliminam pronomes de gênero

O governo sueco criou um projeto que encoraja crianças do jardim de infância a explorar para além de papéis de gênero tradicionais

Ellen Barry, The New York Times

01 Abril 2018 | 10h15

ESTOCOLMO - Alguma coisa estava errada com os pinguins, como são chamados os alunos do jardim de infância Seafarer, em um subúrbio arborizado ao sul de Estocolmo.

Os meninos eram barulhentos e mantinham contato físico. Eles gritavam e batiam. As meninas choramingavam para serem colocadas no braço. O grupo de crianças entre um e dois anos de idade, em outras palavras, dividia-se em linhas de gênero tradicional. E nesta escola, isso não estava certo.

Seus professores tiraram os carrinhos e bonecas da sala. E colocaram os meninos para tomar conta da cozinha de brinquedo. Eles fizeram as meninas praticamente gritarem: “Não!”

Os pesquisadores podem ainda estar divididos sobre se as diferenças de gênero estão enraizadas em nosso DNA ou na cultura, mas muitas das pré-escolas financiadas pelo governo da Suécia estão fazendo o que podem para desconstruí-las. O currículo estadual recomenda que os professores e os diretores adotem seus papéis como engenheiros sociais, pedindo-lhes que neutralizem os tradicionais papéis e padrões de gênero".

Em muitos jardins de infância da Suécia, é normal que professores evitem se referir ao gênero de seus alunos. As brincadeiras são organizadas de uma maneira que evitem as crianças se classifiquem por gênero. Um pronome de gênero neutro, “hen”, foi introduzido em 2012 e foi rapidamente absorvido na cultura sueca.

Como exatamente esse método de ensino afeta as crianças ainda é incerto. Uma das poucas tentativas de avaliação do método por especialistas, publicada em 2017 na revista acadêmica Journal of Experimental Child Psychology, concluiu que alguns comportamentos desaparecem quando os alunos frequentam as chamadas pré-escolas “de gênero neutro”.

Por exemplo, as crianças nessas escolas não mostram uma forte preferência por colegas do mesmo gênero, e são menos propensas a fazer suposições baseadas em estereótipos. No entanto, os cientistas não encontraram qualquer diferença na tendência das crianças de notar gênero, sugerindo que isso possa estar sob influência genética.

Em uma recente sexta-feira no jardim de infância Seafarer, em Hammarbyhojden, Elis Sttoresund, a especialista em gênero da escola, sentou-se curvada sobre uma planilha com dois professores, revisando seus progressos em relação aos objetivos de gênero.

“Quando estamos desenhando”, disse Melissa Esteka, 31 anos, um dos professores, “vemos que as meninas - elas desenham muito - elas desenham garotas com muita maquiagem e longos cílios. É muito claro que elas são meninas. Então perguntamos, ‘garotos não têm cílios?’ E elas respondem, ‘Sabemos que não é assim na vida real’”.

Elis, 54 anos, assentiu concordando. “Elas estão tentando entender o que é ser uma menina”.

O experimento da Suécia sobre pré-escolas com neutralidade de gênero começou em 1996, em Trodje, uma pequena cidade próxima ao Mar Báltico. O homem que começou tudo isso, Ingemar Gens, era um jornalista que se interessava em antropologia e teoria de gênero. Recém-nomeado como “especialista em igualdade de oportunidades” no distrito, Gens queria derrubar a norma estoica e insensível da masculinidade sueca.

Ele começou um programa que foi chamado de estratégia de gênero compensatória em dois jardins de infância. Meninos e meninas eram separados durante parte do dia e treinados em aspectos associados ao outro gênero. Os meninos massageavam os pés uns dos outros. As meninas eram levadas para passear descalças na neve e estimuladas a abrir a janela e gritar.

A estratégia de separar meninos e meninas foi posteriormente deixada de lado em favor de uma abordagem “neutra em relação ao gênero” com a intenção de silenciar as diferenças. Ainda assim, o espírito do experimento de Gens havia se espalhado por meio do governo. Em 1998, a Suécia acrescentou uma nova linguagem ao seu currículo nacional exigindo que todas as pré-escolas “neutralizassem os tradicionais papéis e padrões de gênero” e encorajassem as crianças a explorar “fora das limitações dos papéis estereotipados de gênero”. E a adoção das práticas varia muito.

Os tradicionalistas organizaram protestos ocasionais, queixando-se de lavagem cerebral liberal. O Partido Democratas da Suécia, de extrema-direita, que ganhou cerca de 13% dos votos em 2014, prometeu reverter o ensino que "busca mudar o comportamento e a identidade de gênero de todas as crianças e jovens".

Mas as políticas de igualdade de gênero contam com o apoio dos maiores partidos da Suécia, os Social-Democratas, de centro-esquerda, e os moderados de centro-direita.

Em Trodje, a primeira leva de crianças em idade pré-escolar a frequentar jardins de infância de gênero neutro está agora na casa dos 20 anos.

Elin Gerdin, 26 anos, fez parte do primeiro grupo e disse que há momentos em que sua educação infantil ressurge para ela.

Os amigos de Elin começaram a ter bebês e postam fotos deles no Facebook, envoltos em azul ou rosa, no primeiro ato de classificação da sociedade. Ela diz a eles, sinceramente, que eles estão cometendo um erro. Isso lhe parece uma responsabilidade.

"Somos um grupo de crianças que crescerá e terá filhos, e vamos falar com eles sobre isso", disse ela. "Não é fácil mudar toda uma sociedade".

No jardim de infância Seafarer, em uma manhã recente, as crianças saíam de volumosos trajes de neve. Debaixo do seu, Otto, um robusto garoto de 3 anos, usava um vestido.

Otto prefere usar vestidos porque gosta do jeito que eles se movimentam quando ele gira, e isso não o torna incomum aqui. Até agora, ninguém na vida de Otto disse a ele que os meninos não usam vestidos, segundo sua mãe, Lena Christiansson. E ela gostaria que isso continuasse pelo maior tempo possível.

Essa expectativa se tornou cada vez mais comum, disse Elis.

Agora, os pais nos perguntam: 'O que você está fazendo em relação a gênero?'", contou Elis. Ela está disponível para confrontar os conflitos na sala de aula: quando os meninos do grupo de crianças de 3 anos se recusaram a pintar ou dançar, e o grupo ameaçou se dividir em linhas de gênero, ela foi chamada para resolver o problema e persuadir os meninos a participar de maneira igualitária.

Izabell Sandberg, que dá aula para os “pinguins” no jardim de infância Seafarer, notou uma mudança em uma menina de 2 anos cujos pais a deixaram usar meias-calças e vestidos rosa-claros. A garota se concentrou em ficar limpa. Se outra criança pegasse seus brinquedos, ela choramingava.

"Ela aceitava tudo", disse Izabell. “E eu pensei como isso era atrelado ao estereótipo de ‘menininha’. Era como se ela estivesse se desculpando por ocupar espaço”.

Até que, numa manhã recente, a mesma menina colocou um chapéu e arrumou sacolas, preparando-se para partir em uma expedição imaginária. Quando uma colega de classe tentou sair com uma de suas sacolas, ela estendeu a mão e gritou: “Não!”. Era algo que a menina e Izabell estavam praticando.

Em março, a menina tornou-se tão barulhenta que ela abafou os meninos da turma, disse Izabell. No final do dia, ela estava toda bagunçada. Segundo a professora, os pais da garota não ficaram contentes e relataram que a filha havia se tornado traquina e desafiadora em casa.

Mas Izabell tem muita experiência explicando a missão para os pais.

“Isso é o que fazemos aqui, e não vamos parar", disse ela. / Christina Anderson contribuiu com a reportagem.

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