Tom Brenner/The New York Times
Tom Brenner/The New York Times

As freiras que compravam e vendiam escravos

Religiosas dos EUA começam a confrontar a cumplicidade com a escravidão, mas há ainda um longo caminho cheio de arrependimentos

Rachel L. Swarns, The New York Times

11 de agosto de 2019 | 06h00

A Escola Preparatória Georgetown Visitation, uma das mais antigas escolas femininas do catolicismo romano nos Estados Unidos, celebra há anos suas fundadoras: um grupo de determinadas freiras católicas que defendiam o ensino gratuito para os pobres no início dos anos 1800.

As irmãs, que criaram a academia de elite em Washington, também administravam “uma escola dominical, grátis para qualquer jovem interessada em aprender - incluindo as escravas, em uma época em que as escolas públicas eram praticamente inexistentes e ensinar os escravos a ler era ilegal", de acordo com uma história oficial que se manteve por anos publicada no site da escola.

Mas, quando uma nova historiadora da escola começou a investigar os registros do convento alguns anos atrás, ela não encontrou evidências das aulas das freiras às crianças escravas. Em vez disso, encontrou documentos revelando que as irmãs foram donas de pelo menos 107 escravos, entre homens, mulheres e crianças. E venderam dúzias dessas pessoas para quitar dívidas e ajudar no financiamento da expansão da escola e da construção de uma nova capela.

“Não resta mais nada a fazer além de livrar-se da família de negros", escreveu Agnes Brent, madre superiora do convento, em 1821 ao aprovar a venda de um casal e seus dois filhos. A mulher, grávida, teria o terceiro bebê dias depois.

Faz anos que analiso registros de igrejas e tamanha crueldade casual por parte dos líderes da fé ainda me surpreende. Sou uma jornalista negra e católica. Mas cresci sem nada saber a respeito das freiras que compravam e vendiam seres humanos.

Minhas reportagens a respeito da Universidade Georgetown, em Washington, que lucrou com a venda de mais de 200 escravos, ajudou a chamar a atenção para os elos das universidades com a escravidão. Mas a escravidão também ajudou a promover o crescimento de muitas instituições contemporâneas, incluindo algumas igrejas e organizações religiosas. Os historiadores dizem que quase todas as ordens de freiras católicas estabelecidas nos Estados Unidos até o fim da década de 1820 eram donas de escravos.

Hoje, muitas freiras católicas são entusiasmadas defensoras da justiça social, e algumas chegam a desenvolver modelos que podem servir como mapas para outras instituições que lutam para se redimir da participação no sistema escravocrata americano.

As irmãs da Georgetown Visitation e funcionários da escola organizaram debates com estudantes, professores e ex-alunos, incluindo uma prece em abril que lembrou os escravizados “cujo sacrifício involuntário garantiu o crescimento dessa escola". Publicaram um relatório online a respeito dos escravos mantidos pelo convento - um artigo da historiadora da escola também foi publicado no semestre passado na U.S. Catholic Historian - e seus registros ligados à escravidão foram digitalizados, tornando-os disponíveis para o público.

As Religiosas do Sagrado Coração, que eram donas de aproximadamente 150 escravos na Louisiana e no Missouri, rastrearam dezenas de descendentes dessas pessoas, convidando-as para uma cerimônia de homenagem aos antepassados em Grand Coteau, Louisiana. Na cerimônia, realizada no primeiro semestre, as freiras apresentaram um monumento aos escravos no cemitério da paróquia, e uma placa comemorativa na antiga senzala. Anunciaram também um fundo que oferecerá bolsas de estudos para alunas americanas negras na sua escola católica, construída em parte com mão de obra escrava.

“Não era apenas uma questão de olhar para o passado", disse a irmã Carolyn Osiek, arquivista provincial da Sociedade do Sagrado Coração nos EUA e Canadá. “Tratava-se de pensar no que fazer com tudo isso agora” (As Religiosas do Sagrado Coração são integrantes da Sociedade do Sagrado Coração). 

A irmã Osiek descreveu a mensagem entregue pela líder provincial da ordem aos descendentes dos escravos: “Durante muito tempo nós não os reconhecemos, e sentimos muito por isso".

Alguns descendentes não quiseram participar, considerando a experiência demasiadamente dolorosa. E algumas freiras se mostraram pouco à vontade diante da decisão de desenterrar o passado.

“Muitas comunidades estão agora muito interessadas em lidar com as questões do racismo, mas o fato é que sua própria história é problemática", disse a historiadora Margaret Susan Thompson, que examinou as freiras católicas e a questão racial nos EUA. “Estão começando a confrontar o próprio racismo, e sua própria cumplicidade com o racismo do passado, mas é um caminho muito longo a percorrer.”

A irmã Irma L. Dillard, americana negra e integrante das Religiosas do Sagrado Coração, disse que algumas das freiras brancas se mostravam relutantes em revisitar essa história porque temiam “serem vistas como racistas".

Ela elogiou as medidas adotadas pela sua ordem, mas espera que mais seja feito. Gostaria que a história do envolvimento na escravidão fosse incluída no currículo das escolas da ordem, mas poucas reconheceram publicamente suas origens, disse ela, acrescentando, “Passamos uma borracha na nossa história".

Trata-se de uma história que parece esquecida pelo público, mesmo entre os três milhões de católicos negros que correspondem a cerca de 3% dos católicos americanos. 

Durante a infância em Nova York, eu morava a poucos quarteirões de um convento. As freiras ensinaram minha mãe, minhas tias, tios e irmãs. A igreja que conhecíamos recebia imigrantes italianos e irlandeses, e um punhado de famílias negras. Nunca imaginamos que suas ordens religiosas teriam elos com a escravidão.

Nas primeiras décadas da república americana, a Igreja Católica se estabeleceu no sul do país. Não era incomum que padres e freiras tivessem crescido em famílias de escravocratas, e muitos outros dependiam da mão de obra escrava, dizem os historiadores. Quando as mulheres entravam para os conventos, algumas traziam consigo as propriedades humanas. As escolas de algumas ordens aceitavam escravos como pagamento pelo ensino.

Mary Ewens, autora de “The Role of the Nun in Nineteenth-Century America", descobriu que sete das oito primeiras ordens de freiras católicas estabelecidas nos EUA eram donas de escravos já nos anos 1820. Em um estudo mais recente, Joseph G. Mannard revelou que a oitava ordem também estava envolvida, ao menos por algum tempo.

Algumas freiras manifestaram sua repugnância pela escravidão, enquanto outras descreveram sua relutância em vender as pessoas que lhes pertenciam. As carmelitas de Baltimore, em Maryland, cuidavam de alguns escravos quando estes adoeciam. As Irmãs de Caridade de Nazaré, no Kentucky, permaneceram tão ligadas aos ex-escravos que muitos voltaram com as famílias para celebrar o centenário em 1912.

Mas o Dr. Mannard e outros pesquisadores descobriram que as necessidades financeiras das freiras - e a atração da mão de obra não remunerada - costumavam sobrepujar qualquer relutância em traficar seres humanos.

“Apesar da repugnância que sinto diante da ideia de ter escravos negros, talvez sejamos obrigadas a comprar alguns deles", escreveu Rose Philippine Duchesne, fundadora da Sociedade do Sagrado Coração nos Estados Unidos, em 1822. Um ano mais tarde, as irmãs do Sagrado Coração compraram seu primeiro escravo.

Em 1830, as irmãs carmelitas citaram preocupações com a necessidade de cuidar do “descarte de nossos pobres servos” para explicar a relutância em deixar a propriedade rural no interior de Maryland e vir para Baltimore. Mas, depois de saberem que a venda ajudaria a quitar suas dívidas e a conservar a propriedade rural, elas venderam pelo menos 30 pessoas, disse o Dr. Mannard.

Quase uma década mais tarde, as Irmãs de Caridade de São José, em Emmitsburg, Maryland, fundadas por Elizabeth Ann Seton, primeira santa nascida nos EUA, seguiram a orientação da superior na hierarquia religiosa, segundo a qual elas poderiam vender seus “meninos amarelos” com lucro de 10% a 12% “sem cometer nenhuma injustiça".

As Irmãs de Caridade de Nazaré, em Kentucky, que eram donas de 30 pessoas na época do fim da escravidão, estiveram entre as primeiras freiras a buscar a reparação. Elas se uniram a duas outras ordens para realizar uma missa em 2000 durante a qual apresentaram um pedido formal de desculpas pelo envolvimento com a escravidão. Em 2012, ergueram um monumento em um cemitério onde muitos dos escravos foram enterrados.

Roslyn Chenier, americana negra e consultora de software em Atlanta, ficou sabendo que seus antepassados pertenceram às Religiosas do Sagrado Coração quando foi procurada pela irmã Maureen J. Chicoine, que tinha pesquisado a história da ordem e identificado dezenas de descendentes.

“Eu fiquei pasma, sem palavras", disse Roslyn, que participou da cerimônia organizada pelas freiras em setembro do ano passado. “Foram muitas emoções.” Roslyn desistiu de praticar o catolicismo muitos anos atrás, mas alguns de seus parentes mantêm a devoção. Saber que seus ancestrais pertenceram a freiras foi uma surpresa, mas não abalou sua fé no catolicismo, disse ela.

Isso não surpreende o reverendo Gregory C. Chisholm, padre negro que comanda a paróquia de St. Charles Borromeo, Resurrection and All Saints, no Harlem. Ele já se envolveu em alguns debates abordando os escravos mantidos pelo catolicismo, que costumam ser dolorosos, disse ele, mas poucos negros ficam surpresos ao saber do racismo entre o clero. Os mais velhos ainda lembram dos dias dos bancos separados e igrejas segregadas, disse ele.

“Tudo isso revela as formas com que a religião fracassou conosco", disse o padre Chisholm, que se diz estimulado pelos esforços recentes da igreja para reconhecer o próprio passado. “É duro. É difícil. Mas é bom. É uma forma de renovação da nossa igreja, e é isso que precisa acontecer. Ela precisa de renovação.”/ TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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