Netflix, via The New York Times
Netflix, via The New York Times

Escrevendo poesia para a Netflix

Poema de Ocean Vuong faz parte do roteiro do novo filme da atriz Maggie Gyllenhaal

Alexandra Alter, The New York Times

23 de dezembro de 2018 | 06h00

Em seu novo filme, The Kindergarten Teacher" (A professora do jardim de infância), Maggie Gyllenhaal interpreta uma aspirante a poeta que está frustrada com o trabalho e descobre que um menino de sua turma pode ser um pequeno gênio literário. Então, ela começa a se apropriar dos versos do garoto.

Quando Maggie estava se preparando para o papel, pensava muito sobre o tipo de poesia que escreveria sua personagem, uma professora chamada Lisa Spinelli. Imaginou que a poesia de Lisa seria meio rebuscada e clichê - talvez uns versos sobre flores e borboletas. Foi aí que ela e Sara Colangelo, escritora e diretora do filme, decidiram pedir a poetas que escrevessem alguns poemas para o filme.

Encomendar poemas não foi tarefa fácil. Os primeiros versos que elas solicitaram, da poeta Dominique Townsend, amiga de Maggie, não pareciam plausíveis. Eram muito estratificados e complexos.

"Liguei para ela e disse: 'Acho que precisamos de coisas mais convencionais, talvez um pouco menos boas'", disse Maggie.

Dominique tentou revisar os versos para ficarem piores. "Como você pode imaginar, foi um processo estranho", disse ela. "Era como se elas estivessem me dizendo: 'Adoramos seu trabalho, então será que você pode escrever por essa mulher que está morrendo por dentro e se sentindo estrangulada e é uma escritora medíocre?'. Foi um pedido esquisito: escrever um haiku ruim sobre flores".

Mas, por mais estranho que pareça, era um desafio intrigante para a poeta, e Dominique entregou a encomenda.

No filme, Lisa timidamente mostra seu haiku de flores para o marido, depois de ouvir críticas em uma oficina de poesia. Ele pega o caderno dela e lê em voz alta: "Um jardim de sonho floresce, rosa, íris, mas aqui? Um crisântemo perfura o concreto". E jura para ela que acha que é bom. "Eles não gostaram", Lisa diz a ele. "Disseram que parecia imitação de alguém".

Dominique disse que ver seus versos criticados na tela não parecia uma afronta pessoal, já que ela estava escrevendo como uma personagem, não como ela mesma.

The Kindergarten Teacher, refilmagem de um filme israelense, apresentou outros desafios. Além dos poemas de Lisa, os cineastas precisavam de versos para o menino, Jimmy - poemas que tinham de ser excepcionais e memoráveis, mas que também tinham de parecer verossímeis sob a autoria de um menino de 5 anos de idade.

Elas se concentraram no trabalho de dois poetas contemporâneos, Ocean Vuong e Kaveh Akbar. "Eles são líricos e enraizados na narrativa, então achei que seriam perfeitos para criar os poemas de Jimmy", explicou Sara Colangelo.

Os poetas ficaram entusiasmados. "Parece que não é sempre que os poetas são convidados para colocar suas obras nos filmes”, disse Maggie.

Depois de ler o roteiro, Vuong enviou uns dez poemas curtos, alguns canibalizados de obras que ele já havia escrito. Ele despiu seus versos e os reconstruiu em torno de uma imagem central. 

"O truque era conseguir fazer isso com profundidade poética, mas também ser fiel à mente de um menino de 5 anos", disse ele.

"Não é sempre que um poeta pode ver suas palavras numa tela de cinema", disse Akbar. "Ser poeta é muito solitário, é ficar de pijama em cima do caderno por 14 horas a fio, por exemplo, então é legal poder fazer algo tão colaborativo com poesia".

A colaboração entre poetas e cineastas moldou o filme. Um dos temas centrais é: por que alguns artistas são incentivados e celebrados enquanto outros são ignorados? Dominique disse que, em versões posteriores dos poemas de Lisa, conjurou a mentalidade de uma mulher cujas aspirações estavam sendo asfixiadas.

"Ela tem, sim, uma sensibilidade poética, um estado de alerta para o mundo, uma atenção que eu associo à poesia, então me interessei pelo que a impedia de encontrar sua voz e pelo que impedia as pessoas de ouvi-la", disse Dominique. "Tudo isso ficou na minha mente, juntamente com a sensação de que ela não era mesmo muito boa".

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