Eric Feferberg/Agence France-Presse
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Pamela Druckerman, The New York Times

26 de janeiro de 2019 | 06h00

Recentemente, eu jantava com um grupo de mulheres parisienses quando alguém mencionou o escritor francês Yann Moix. A mesa irrompeu rapidamente em discussões e denúncias. Uma mulher afirmou que Moix tinha o direito de expressar seus pontos de vista, por mais odiosos que fossem, mas outras replicaram que ele deveria calar a boca.

Moix não é neonazista nem racista. Simplesmente admitiu na edição deste mês da revista Marie Claire que não sente a menor atração por mulheres de 50 anos, e que prefere dormir com asiáticas com pouco mais de 20 anos.

"O corpo de uma mulher de 25 anos é extraordinário", explicou. "O de uma mulher com mais de 50 não é absolutamente nada de extraordinário". Apaixonar-se por uma mulher com mais de 50 estaria fora de questão. Para ele, as mulheres dessa idade são "invisíveis".

As afirmações impiedosas de Moix - feitas no contexto de seu novo romance, Rompre (Romper) - não são particularmente chocantes. Não é segredo que alguns homens mais velhos desejam mulheres mais jovens. Pesquisadores da Universidade de Michigan analisaram as mensagens de um site americano de namoro e constataram que mulheres de 18 anos eram as mais procuradas, enquanto os homens mais buscados têm em torno de 50 (exatamente a idade de Moix).

Tampouco esta é uma opinião exclusivamente masculina. As próprias mulheres em geral acham que corpos jovens são mais bonitos: na mesma edição de Marie Claire, a moda mostra modelos que mal parecem ter saído da adolescência.

E no entanto, Moix provocou uma tempestade na mídia da França e de outros países, e as mulheres, de meia-idade e outras, também passaram a criticá-lo asperamente em artigos, podcasts e nas redes sociais.

"Você não aparenta ter menos de 65", fuzilou uma delas. "Espero que fique sozinho até os 100", escreveu outra. Elas insultaram também seu talento literário, as bolsas sob seus olhos e especularam sobre as feridas de sua psique. Algumas revistas reproduziram as críticas mais espirituosas. Alguns críticos franceses chamaram a atenção para a preferência de Moix pelas asiáticas, enfatizando que provavelmente ele se baseia no pernicioso estereótipo segundo o qual elas são submissas.

Elas também apresentaram provas para replicar contra a visão que Moix tem de mulheres mais velhas, incluindo fotos de lindas atrizes de meia idade como Halle Berry. Caso uma ex-Bond Girl não redima toda uma faixa etária, mulheres comuns ofereceram-se para uma avaliação. Uma escritora francesa de 52 anos postou uma foto do seu derrière espetacularmente sarado, e outras mulheres com mais de 50 seguiram seu exemplo - centenas, segundo Moix. 

"Gostaria que as cinquentonas parassem de me enviar fotos do seu traseiro e dos seus peitos", pediu a certa altura.

O que o caso Yann Moix revela a respeito das mulheres francesas? Por que os comentários de Moix desencadearam tanta ansiedade e ultraje?

Moix, romancista, diretor de cinema e comentarista bastante conhecido, já fez várias declarações provocadoras antes. Mas, desta vez, ele pecou duplamente, por sua deselegância e pela indiscrição. Como intelectual amplamente conhecido, ele deveria posar de "sedutor" que se entretém flertando castamente com seu público. Anunciando que não dormiria com algumas delas, acabou com o clima.

Por outro lado, em um país que se pauta pela máxima "nem todas as verdades devem ser ditas", saber o que não se deve dizer - e que partes da vida esconder - são virtudes sociais fundamentais.

"O Sr. Yann Moix pode dormir com que quiser, quem se importa?", observou a humorista Agnès Hurstel,q que tem pouco mais de 20 anos, à rádio France Inter. "Desejo e pensamentos eróticos nunca são coisas politicamente corretas". O que é inaceitável, segundo ela, é que Moix falou à revista "como se estivesse no divã do psiquiatra".

Moix tentou explicar que é um prisioneiro de suas preferências e de seu medo de envelhecer. Seus relacionamentos com mulheres mais jovens costumam acabar de maneira dolorosa depois de alguns meses, condenando-o a uma perpétua adolescência. 

"Não é uma coisa invejável, é uma coisa triste", afirmou em um programa de entrevistas. O livro que acaba de lançar baseia-se em seu desespero depois de um rompimento.

Mas seus comentários apanharam as mulheres francesas em um clima de "Não nos façam prisioneiras!" e no momento em que experimentam uma nova solidariedade. O movimento #MeToo as tornou mais alertas para a discriminação que enfrentam. Elas sentem que ainda terão de tolerar um tratamento com o qual as americanas acabaram, principalmente no trabalho, e que sua situação não está mudando com a devida rapidez.

O quarto era um lugar em que as francesas se consideravam vencedoras. As pesquisas mostram que elas permanecem em geral mais sexualmente ativas depois dos 50 do que as americanas. Segundo as francesas, todos têm direito a sexo e amor, e "há beleza em todas as idades".

No entanto, envelhecer para uma mulher não é fácil. Mesmo na França, é um processo que necessita de delicadas ajustes internos para manter a ideia de permanecer bien dans votre âge - confortável com a própria idade.

Por isso há uma satisfação coletiva no fato de Moix ter sido colocado no devido lugar. Ele e Michel Houellebecq, romancista francês cujos protagonistas às vezes se revoltam pela maneira feminina de envelhecer, são "a última explosão de um poder erótico masculino cada vez menos aceitável socialmente", escreveu recentemente a jornalista Cécile Daumas no jornal Libération.

Mas embora as mulheres não queiram ser reduzidas à sua atração sexual, também querem provar que ainda a possuem. Jornais e revistas parisienses - muitos deles editados por mulheres que Moix considera invisíveis, parecem ter encontrado a oportunidade para um triunfante contra-ataque: Julia Roberts, 51, está na capa da revista Gala ("Ter 50, e daí?!", diz a manchete), e a entrevistadora de TV, Karine Le Marchand, 50, está na capa da Elle francesa ("Ela é maravilhosa, uma supermodelo e tão natural quanto uma camponesa").

Um anúncio sobre o Musée de l’Homme, o museu de antropologia de Paris, exibe os ossos de Lucy, que, segundo se calcula, teria 3,2 milhões de anos. "Uma extraordinária mulher com mais de 50", diz a legenda.

Moix insiste que ainda há esperança para ele. Quando tiver 60, as mulheres de 50 parecerão jovens para ele. Infelizmente, não tenho certeza de que alguma delas queira ficar esperando.

Pamela Druckerman é autora de Vida adulta à francesa: O que a vida e Paris me ensinaram nos últimos 40 anos.

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