Ellie Smith for The New York Times
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Para a escritora Hilary Mantel, não há tempo melhor que o passado

'Wolf Hall' e 'Bring Up the Bodies', os primeiros livros de sua trilogia Thomas Cromwell, venderam milhões. Agora, ela está terminando a trilogia com 'The Mirror and the Light'

Alexandra Alter, The New York Times

22 de março de 2020 | 06h00

BUDLEIGH SALTERTON, INGLATERRA - Hilary Mantel tinha um sonho recorrente. Ela encontra um livro com algumas das informações históricas que estava procurando, mas, quando tenta lê-las, as palavras se desintegram. Os sonhos foram instrutivos, disse Mantel. “Sempre haverá alguma coisa um pouco além da sua compreensão, mas você deve tentar alcançá-la”, disse ela. “Se você pensava que o registro histórico era tudo, o sonho diz que o registro é frágil”.

Mesmo que seja romancista, Mantel se sente vinculada aos fatos. Essa abordagem deixou seu projeto mais recente, uma trilogia de quase 1,8 mil páginas sobre Thomas Cromwell, um advogado do século 16, mais complicado do que qualquer coisa que ela empreendeu em quatro décadas de escrita.

A trilogia – que começou em 2009 com Wolf Hall – traça a ascensão de Cromwell, filho de um ferreiro que chega à corte do rei Henrique VIII, e se encerra com o último livro de Mantel, The Mirror and the Light (O espelho e a luz), um relato dos últimos quatro anos da vida de Cromwell, quando ele acumula mais riqueza, influência e poder, mas perde a proteção do rei e, pouco depois, a cabeça.

Os dois primeiros livros venderam mais de cinco milhões de cópias e foram traduzidos para mais de trinta idiomas. Tanto Wolf Hall quanto sua sequência de 2012, Bring Up the Bodies (O Livro de Henrique) ganharam o Prêmio Booker, fazendo de Mantel a primeira mulher a vencê-lo duas vezes.

Em 2015, o príncipe Charles a ungiu com o título de Dame Commander da Ordem do Império Britânico, equivalente ao título de sir. Mantel nunca fez parte do establishment literário de Londres e parece preferir a companhia de seus personagens, mortos há séculos. Ela e o marido, Gerald McEwen, geólogo aposentado, moram em Budleigh Salterton, uma vila idílica na costa de Devon.

Mas ela não é nem um pouco tímida. Mantel provocou polêmica com suas opiniões heterodoxas a respeito da realeza e da política britânicas. Em 2013, os tabloides a atacaram quando ela chamou a Duquesa de Cambridge de “manequim de vitrine” sem personalidade. Nos últimos meses de escrita de The Mirror and the Light, Mantel, que agora tem 67 anos e sofreu dores crônicas por toda a vida adulta, obrigou-se a cumprir um cronograma severo. Só quando terminou é que ela percebeu o preço que o projeto havia cobrado.

Mantel disse que agora planeja se concentrar em escrever peças, um formato inteiramente novo para ela. Ela está abandonando o gênero ficção histórica porque sente que não tem mais força para encarar um grande projeto de pesquisa e porque acha que não conseguirá encontrar outra figura histórica tão interessante quanto Cromwell.

Filha de uma família católica irlandesa de Hadfield, um vilarejo de Derbyshire, Mantel era obcecada por mitos, por contos do folclore e pelo sobrenatural. Aos 18 anos, foi estudar Direito na London School of Economics, mas não teve condições de continuar. Nessa época, ela conheceu McEwen. Eles se casaram quando tinham 20 anos. Ela passou por vários empregos e começou a escrever.

Então a saúde de Mantel começou a se deteriorar. Ela pesquisou seus sintomas e se diagnosticou com endometriose. Os médicos confirmaram suas suspeitas e, aos 27 anos, ela se submeteu a uma cirurgia para remover o útero e os ovários. Ela sofreu complicações que ainda a afligem: seu peso aumentou, suas pernas incharam, ela começou a se sentir sempre exausta e estranha a si mesma.

A doença impossibilitou qualquer tipo de trabalho normal: “A condição estreitou minhas opções na vida e as direcionou para a escrita”, disse ela. Mantel era fascinada por Cromwell havia décadas. Ela juntou o máximo de evidências históricas que pôde encontrar e usou os fatos para costurar uma narrativa. Ainda que, como romancista, tenha licença para inventar, Mantel teme contradizer os fatos.

“Se tivesse começado com essa ideia de que a verdade é opcional, não conseguiria sentir nenhum prazer na escrita”, disse ela. “Sei que a história real é melhor do que qualquer coisa que eu possa inventar”. “Quando as vozes começam, é como ouvir um rádio falando ao fundo por quinze anos. Na verdade, esse rádio não desliga nunca”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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