Arden Wray / The New York Times
Arden Wray / The New York Times

Escritores indígenas estão transformando a ficção científica

Há muito sub-representados na ficção de gênero, os autores nativos americanos e das Primeiras Nações estão remodelando os mundos de outro mundo (mas ainda frequentemente eurocêntricos) da ficção científica

Alexandra Alter, The New York Times - Life/Style

31 de agosto de 2020 | 05h00

Cherie Dimaline passou a infância perto de Penetanguishene, uma aldeia da Georgian Bay in Ontario, onde ouvia da avó e das tias-avós histórias de um monstro parecido como o lobisomem chamado rogaron. As pessoas não o consideravam uma figura mítica, mas uma ameaça concreta, a personificação do perigo em um lugar em que as mulheres indígenas enfrentam um risco muito maior de violência. “Não era uma metáfora,”, ela disse.

“Elas diziam: ‘O rogaron está à solta, e tem muita fome’”. Dezenas de anos mais tarde, Dimaline, membro da nação Métis do Canadá, estava trabalhando em um romance sobre uma mulher cujo marido que havia desaparecido, volta sem qualquer lembrança dela, aparentemente sob o efeito de um feitiço.

Ela precisava de um vilão carismático, e quando o rogaron – um personagem astuto e trapaceiro nas tradições orais métis – surgiu de repente em sua mente, ela se deu conta de que a criatura nunca havia recebido o lugar que merecia na cultura popular. Aquela repentina inspiração se transformou em Empire of Wild, um romance em que se misturam horror e romance, cujos modernos personagens indígenas se defrontam com a degradação ambiental, a discriminação e a ameaça da aniquilação cultural, enquanto, ao mesmo tempo, combatem um monstro sub-reptício.

Dimaline, juntamente com Waugeshing Rice, Rebecca Roanhorse, Darcie Little Badger e Stephen Graham Jones, que foi chamado de “o Jordan Peel da literatura de horror,” são alguns dos romancistas indígenas que atualmente reformulam a ficção científica e de horror norte-americana – gêneros em que os escritores nativos foram menosprezados por muito tempo. Sua ficção se inspira frequentemente na mitologia das Primeiras Nações norte-americanas e nas tradições narrativas invertendo os estereótipos a respeito da literatura e da cultura indígena.

E as autoras estão ganhando reconhecimento em um setor de mundo literário tradicionalmente branco, masculino e eurocêntrico, arraigado na mitologia do Oeste. “Há uma forte tendência a narrar histórias indígenas”, disse Dimeline. “A única maneira de saber quem eu sou e quem é minha comunidade, e como nós sobrevivemos e nos adaptamos, é através das histórias”.

Com o aumento dos autores indígenas nestes gêneros, está ocorrendo uma explosão de romances, histórias em quadrinhos, romances gráficos e contos em que os autores mesclam à ficção científica e à fantasia narrativas indígenas, e escrevem de tudo, na esteira de realidades alternadas e do horror sobrenatural, até histórias apocalípticas sobre o colapso ambiental.

“Há muita variedade e experimentação”, segundo Grace Dillon, professora do Programa de Estudos das Nações Indígenas da Universidade Estadual de Portland, que editou Walking the Clouds, uma antologia da ficção científica indígena publicada em 2012. Tommy Orange, cujo romance There There foi finalista do Prêmio Pulitzer de 2019, disse que o constante destaque dos autores nativos na ficção de gênero era há muito merecido.

“Não é mais um outro autor nativo ao ano”, ele disse. “Considerando nós não pudemos contar as nossas histórias, as pessoas destas comunidades precisam contá-la, e contá-las dessa maneira”. Segundo alguns autores, as ambientações da ficção científica e da fantasia permitem que eles reimaginem a experiência nativa de uma maneira que não seria possível na ficção realista. Escrever narrativas futuristas e criar mundos fantásticos proporciona certa liberdade para contar histórias experimentais e inovadoras e que não carregam o peso do passado genocida e colonialista.

“Nós já sobrevivemos a um apocalipse”, afirmou Roanhorse, que descende do Pueblo Ohkay Owingeh. No novo romance de horror de Jones, The Only Good Indians, amigos que cresceram em uma reserva de Blackfeet em Montana, são obcecados por uma viagem realizada dez anos antes com a finalidade de caçar um alce.

Os jovens, que foram apanhados caçando ilegalmente na terra reservada aos anciãos da tribo, são perseguidos por um espírito de vingança que às vezes assume a forma de uma mulher com a cabeça de alce. É uma evocação da Mulher Cerva, uma ameaçadora deusa da fertilidade, da mitologia indígena norte-americana. Entretanto, Jones se inspirou mais frequentemente em vilões de cinema como Jason, de Sexta-feira 13.

Jones, membro da tribo dos Blackfeet que viveu a infância no Texas, muitas vezes usa a estrutura do gênero do horror para analisar a desigualdade que os nativos americanos enfrentam. Ele foi atraído pela ficção em que o assassino costuma retalhar suas vítimas para enfatizar a justiça e a ordem.

“Na história destes personagens, o infrator é punido”, ele disse. “A intenção é reequilibrar o mundo, e o mundo em que vivemos não é assim”. Para os autores indígenas, escrever sobre si mesmos em narrativas de ficção científica e de fantasia, não significa apenas ganhar visibilidade com gêneros populares. Faz parte de um esforço maior para superar séculos de uma representação cultural enganosa.

“O que a maioria dos leitores conhece a respeito do povo nativo foi criado por estrangeiros, por isso não surpreende que seja enganoso”, disse Debbie Reese, que pertence ao Pueblo Nambê e fundou o site American Indian in Children’s Literature, onde analisa as representações dos povos nativos e as crenças nos livros infantis.

Embora os escritores indígenas ainda não sejam devidamente representados no mundo literário, principalmente na ficção de gênero, a sua obra está produzindo um impacto enorme. Roanhorse ganhou dois dos mais prestigiosos prêmios do gênero, o Hugo e o Nebula, por seu conto de 2017, Welcome to Your Authentic Indian Experience, e o Locus Award para o melhor primeiro romance com Trial of Lightning. Ambas as obras foram consideradas para sua adaptação cinematográfica.

O romance de Dimline, The Marrow Thieves, que se desenrola em um futuro distópico em que o povo indígena é caçado por sua medula, ganhou o prêmio Kirkus de literatura de jovens adultos e está sendo adaptado numa série de TV. Nos últimos anos, ela e Roanhorse assinaram acordos para vários livros com importantes editoras. Como ela conta, começou a escrevendo “imitações de Tolkien sobre meninos brancos de fazenda que empreendem longas viagens”, porque imaginava que era assim que a fantasia épica devia ser.

Depois de se decidir por uma mulher nativa como heroína, em 2018 lançou Trail of Lightning, o primeiro romance de uma série de quatro livros do gênero fantástico. Ambientado em uma reserva depois que uma inundação destrói a maior parte da América do Norte e volta a despertar deuses e monstros tradicionais, a série se concentra em uma mulher navajo chamada Maggie, dotada de poderes sobre-humanos que mata monstros, e apresenta figuras sagradas da mitologia navajo como Coyote e Neizghani, um dos Gêmeos Heróis. “As histórias que estou escrevendo são sobre os tradicionais deuses americanos”, disse Roanhorse.

Tem havido certa resistência a apresentar narrativas sobre ancestrais venerados como elementos de enredo na ficção popular. Alguns membros da Nação Navajo fizeram objeções ao retrato de Roanhorse sobre as crenças e os ensinamentos religiosos navajo. “Estas coisas não se destinam a entretenimento”, afirmou Jennifer Nez Denetdale, professora de Estudos Americanos na Universidade do Novo México, falando da obra de Roanhorse.

A escritora, que viveu na nação navajo do Novo México, disse que trabalhou com um consultor cultural navajo para ter a certeza de que a sua descrição era correta. Os jovens leitores navajo reagiram com entusiasmo à representação dos personagens e da cultura navajo, ela disse, bem como ao seu emprego da linguagem Diné ou navajo no diálogo.

Um dos objetivos em suas narrativas pós-apocalípticas, afirmou, é retratar um mundo em que a cultura, a língua e o povo nativo resistiram, apesar dos esforços para apagá-las ao longo dos séculos. “Eu a ambiento especificamente no futuro para poder dizer: Vejam os nativos existem”, ela disse, “e existiremos no futuro”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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