Yasunori Matsui
Yasunori Matsui

Escultor leva 'momento americano' à Bienal de Veneza

O artista plástico Martin Puryear fala sobre significado étnico de nascer nos EUA em momentos de forte divisão política nos país

Holland Cotter, The New York Times

12 de maio de 2019 | 06h00

"O momento me pegou sendo tanto cidadão quanto artista", disse o escultor Martin Puryear, que representará oficialmente os Estados Unidos com uma exposição solo na 58.ª Bienal de Veneza. Não deve ser fácil arcar com essa responsabilidade em um "momento americano" tão tenso, com o país dividido pela política. Mas quem acompanhou os 50 anos de sua carreira sabe que ele está à altura do desafio.

Puryear, 77 anos, é amplamente considerado um dos escultores mais distintos dos EUA. Frequentemente, sua obra parece abstrata, embora esteja repleta de referências a elementos do mundo real. E ainda que se recuse a produzir significados prontos, ela sugere muitos sentidos - culturais, emocionais e políticos. 

"Ensor, Bruegel, Goya", disse o artista em seu estúdio no estado de Nova York no mês passado, dias antes de partir para Veneza. "São pessoas que observavam de maneira bastante casual o mundo em que viviam. Tento fazer o mesmo, ou assim espero".

Nascido em 1941, Puryear, que é negro, cresceu em Washington na época da segregação. O pai trabalhava nos correios e a mãe era professora. Os pais o levavam a museus - National Gallery of Art, Phillips Collection, Smithsonian National Museum of Natural History - e, para ele, a fronteira entre arte, etnologia e ciência parece vaga: Paul Klee, caiaques de esquimós e espécimes ornitológicos parecem habitar um mesmo espectro.

Depois de se formar pela Universidade Católica dos EUA em Washington, 1963, ele entrou para o Corpo da Paz, ensinando ciências e idiomas em Serra Leoa, e estudou com ceramistas, cesteiros e gravuristas da região.

Como ele disse ao historiador da arte Richard J. Powell, "para a maioria dos americanos negros, o elo com o Continente Original é um vazio, apagado pela etapa intermediária do comércio de escravos. Assim, a oportunidade de viver na África Ocidental e vivenciar em primeira mão uma cultura tribal foi algo de valor incalculável".

Do ponto de vista existencial, a estadia inspirou nele uma identidade de cidadão do mundo, vivendo lá ou cá, mas pertencendo a toda parte. Do ponto de vista político, deu a ele uma nova perspectiva em relação ao próprio país.

Puryear se considera um americano que tem dúvidas a respeito do significado étnico de ser americano. E esse é o artista que encontramos nas obras que ele enviou à bienal.

"Swallowed Sun (Monstrance and Volute)" é imensa. Projetada por Puryear em colaboração com o escritório de arquitetura Tod Williams Billie Tsien, consiste em duas partes. A primeira é uma malha de madeira perfurada branca que se estende pelo pátio frontal do pavilhão, ocultando parcialmente o que há além dela. A segunda é um tubo preto retorcido inspirado em um detalhe de uma coluna grega, mas semelhante a uma serpente. Com a "cauda" enrolada no chão do pátio, o tubo se estende para cima e cobre a abertura circular da tela com sua "boca". Do ponto de vista estrutural, o tubo é o ponto de apoio da tela; do ponto de vista simbólico, está devorando sua luz.

A batalha entre luz e escuridão continua do lado de dentro com "A Column for Sally Hemings". É provável que os construtores do pavilhão não soubessem quem era Sally Hemings, escrava negra americana que pertenceu a Thomas Jefferson e teve cinco filhos com ele. Puryear a apresenta de maneira chocante, em um monumento composto por uma coluna clássica cortada no alto por uma estaca de ferro, da qual pende um grilhão.

Outra obra, "Tabernacle", tem a forma de um quepe militar, com quase dois metros de altura, do tipo usado por soldados de ambos os lados da guerra Civil Americana. Com seu notável volume, o primeiro estímulo nos leva a reparar na superfície. Mas, olhando por um buraco na coroa, vemo-nos mirando em um canhão prestes a disparar. A bala do canhão é espelhada, e nela vemos nosso rosto refletido, como combatentes, voluntários ou não, em um presente político que às vezes é chamado de nova guerra civil.

"Não quero que o momento atual passe a ser considerado normal", disse Puryear. "Temos de encontrar uma forma de sair dessa". Em Veneza, ele vai mergulhar nessa busca. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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