Gianni Cipriano para The New York Times
Gianni Cipriano para The New York Times

Esculturas submarinas protegem os peixes na Toscana

Um plano engenhoso para ajudar a recuperação de um ecossistema esgotado

Jason Horowitz, The New York Times

03 de outubro de 2019 | 06h00

TALAMONE, Itália -- Quando o navio “Sirena” levou os passageiros de volta ao porto, Paolo Fanciulli  parou. “Embaixo do farol”, ele disse, apontando para um ponto vago no mar. “As esculturas estão lá”.

A cerca de oito metros abaixo da superfície, cardumes de peixes visitam um museu de quatro blocos de mármore retirados da pedreira preferida de Michelangelo e esculpidos por artistas aclamados.

Mais ao norte, outras 20 esculturas de mármore desempenham uma tarefa diferente - como sentinelas contra a traineira ilegal que esvaziou a vida marinha de Talamone.

E em um campo próximo, outros 18 blocos de mármore esculpidos aguardavam que Fanciulli, 58, achasse o dinheiro para baixá-los na água.

“Pense um pouco, daqui a 100, 200 anos, eles encontrarão todas estas esculturas”, disse Fanciulli, chamado Paolo Pescador por todos na vizinhança.

O seu projeto “Casa dos Peixes” está inserido em uma ação ambientalista, em parte uma iniciativa artística, e em parte a proposta de criação de um legado duradouro.

Ele afirmou: “O maior museu do mundo para salvar o mar” trará turistas para a sua cidade natal e colocará no mapa o lugarejo de Talamone, com uma população fixa de cerca de 125 moradores.

Nos meses de verão, a população aumenta consideravelmente com as multidões de turistas elegantes. Ultimamente, ônibus lotados de chineses fazem fila no porto para pegar as balsas até a vizinha Ilha de Elba.

Há dezenas de anos, Fanciulli e a sua primeira esposa abriram uma loja de peixes. Mas tiveram de abandonar o ramo porque a quantidade de peixes no mar declinou. Ele atribuiu o declínio à pesca ilegal de arrasto e liderou um bloqueio do porto vizinho de pesca comercial.

A sua iniciativa para proteger o mar chamou a atenção da mídia. Mas a pesca ilegal - que utiliza pesadas redes que varrem o leito marinho e acaba com toda a vegetação marinha - não parou.

Em 2006, com algum apoio do governo, ele financiou o seu projeto de proteção das águas locais colocando uma barreira de blocos de concreto ao redor do leito marinho. Mas isto não foi suficiente para Fanciulli.

“Eu tinha sonhos. Queria  colocar obras de arte lá em baixo”, afirmou.

Os seus sonhos de arte submarina realizaram-se quando o proprietário de uma pedreira de Carrara doou 100 blocos de mármore para o projeto.

Fanciulli convidou então escultores para trabalhar o mármore. Da artista britânica Emily Young é a escultura do rosto de um “Guardião chorando” de 10 toneladas, que foi baixado na água em 2015. Desde então, os corais e as plantas vivas cobriram as esculturas e trouxeram de volta os peixes.

Recentemente, Fanciulli recebeu turistas a bordo do seu barco. Por 80 euros, ou cerca de US$ 88, por pessoa, eles partiram para uma expedição de “turismo de pesca” na costa da Toscana.

Então pôde ensinar as lições que aprendeu em seus quatro casamentos (“Os peixes são como as mulheres, às vezes a água está cheia deles e às vezes está vazia”), e compartilhar as opiniões sobre os aristocratas do lugar (“incrivelmente barato”). Distribuiu ainda álbuns de fotos documentando as suas maiores façanhas de pescador, e pastas repletas de recortes de jornais.

“Este sou eu”, disse a um passageiro, indicando uma fotografia em um artigo de revista com o titulo “O corajoso homem e o mar”.

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