Poras Chaudhary para The New York Times
Poras Chaudhary para The New York Times

Esforço global vence dolorosa infecção ocular

A batalha contra o tracoma tem produzido vitórias impressionantes, principalmente em países da Ásia e da África

Donald G. McNeil Jr., The New York Times

27 Julho 2018 | 15h15

GETA, NEPAL - Quinze anos atrás, Shiva Lal Rana caminhou 32 quilômetros até o hospital oftalmológico de Geta para pedir aos médicos que arrancassem seus cílios. A infecção bacteriana conhecida como tracoma tinha inchado e invertido suas pálpebras. Cada vez que ele piscava, os cílios arranhavam as córneas.

"A fricção machucava tanto meus olhos que eu mal podia sair para trabalhar nos campos sob o sol", contou Rana. "Eu vivia esfregando a vista".

Pior: ele temia o destino sofrido por outros que contraíram essa infecção. Os pequenos arranhões poderiam se acumular e, finalmente, cegá-lo.

Em vez de atender ao seu pedido, os médicos realizaram nele o que era na época um novo tipo de operação: abriram suas pálpebras com uma incisão, fizeram-nas recuar e as suturaram com os cílios apontando para fora novamente. E deram a ele antibióticos para combater a infecção.

"Minha visão está muito melhor agora", disse Rana, que calcula ter cerca de 65 anos. "Consigo reconhecer as pessoas. Posso trabalhar".

Seu triunfo pessoal é paralelo ao de seu país. Em maio, a Organização Mundial da Saúde declarou que o Nepal tinha eliminado o tracoma enquanto problema de saúde pública, o sexto país a fazê-lo. Em junho, Gana se tornou o sétimo.

Discretamente, à sombra de lutas contra doenças mais conhecidas como ebola, aids e malária, os 20 anos de batalha contra o tracoma estão produzindo vitórias impressionantes.

Especialistas dizem que esses sucessos mostram a importância da defesa e prática de medidas básicas de saúde pública, em vez de esperar por uma cura milagrosa ou uma nova vacina. Boa parte do programa foi financiada com recursos da americana Pfizer, uma gigante do setor dos medicamentos, por fundações americanas e pelos contribuintes dos Estados Unidos.

O tracoma é a principal causa mundial da cegueira decorrente de doenças infecciosas (a catarata resulta em cegueira, mas não é contagiosa). Aproximadamente 190 milhões de pessoas em 41 países estão em situação de risco, calcula a OMS.

Cerca de 1,2 milhão de pessoas ficaram completamente cegas por causa da doença, e um número aproximadamente duas vezes maior teve perda parcial da visão. Algo em torno de 7 milhões têm pálpebras que se voltam para dentro e precisam da operação realizada em Rana em cerca de 20 minutos, e aproximadamente 21 milhões têm pálpebras infectadas que ainda podem ser curadas sem cirurgia.

Uma campanha global para eliminar o tracoma teve início 20 anos atrás. Desde então, Camboja, Laos, México, Marrocos e Amã eliminaram as infecções enquanto problema de saúde pública, bem como Gana e Nepal. China, Gâmbia, Irã, Iraque e Myanmar dizem ter alcançado esse resultado, mas não buscaram a certificação da OMS. A maioria dos países ricos eliminou a doença anteriormente.

Nesse caso, eliminar significa que menos de 5% das crianças do país apresentam sintomas, e menos de um a cada mil habitantes tem perda de visão decorrente de arranhões nos globos oculares.

O Nepal ainda recebe novos casos de tracoma todos os anos, vindos da Índia, país vizinho. Muitos nepaleses cruzam a fronteira com frequência enquanto trabalhadores sazonais.

A bactéria responsável, Chlamydia trachomatis, pode ser transmitida de uma pessoa para outra pelo compartilhamento de toalhas, por exemplo. Mas, nas áreas rurais, é mais comum que seja transmitida por moscas que rastejam sobre o rosto de crianças para se alimentar da secreção de olhos e narizes, voltando para as fezes humanas para colocar seus ovos.

As vítimas costumam ser infectadas ainda bebês, mas os danos permanentes aos olhos demoram décadas para se acumular e costumam ser percebidos quando o hospedeiro chega aos 30 anos. Para romper esse ciclo, a OMS recomenda uma estratégia de quatro vetores: cirurgia para os casos avançados; doses anuais de antibióticos para todos nas áreas mais atingidas; ensinar as mães a lavar o rosto dos filhos com frequência; e o uso de latrinas fechadas, que reduz a população de moscas.

Em muitos países pobres, os boatos, a oposição dos curandeiros e a força do hábito podem acabar com os esforços para acabar com o tracoma. Na Tanzânia, cerca de 20% de todos os pacientes que precisam de cirurgia nos olhos recusam o procedimento por causa de um boato persistente segundo o qual a cicatrização levaria seis meses. Na verdade, as ataduras são retiradas após 24 horas.

Em Kaluwapur, vilarejo de agricultores ao norte de Geta, Bilando Rana, 63 anos (nenhum parentesco com Rana), teve as pálpebras restauradas cinco anos atrás em um dos "campos oftalmológicos" preparados pelo hospital numa escola da região.

"Durante três meses, não pude trabalhar nos campos", disse ela. "Eu sabia que tinha algo que nosso curandeiro não sabia curar".

Os nepaleses aceitaram os banheiros externos fechados, um feito considerável se pensarmos que moradores rurais têm dificuldade em mudar seus hábitos pessoais. Bilando disse que sua família fez um buraco para uma latrina externa fechada oito anos atrás, depois que autoridades locais incentivaram os aldeões a fazê-lo.

Indagada se teve dificuldade em deixar de usar os campos, Bilando comentou a respeito da latrina: "É confortável o bastante. Além disso, tinha que andar até longe, e estou ficando velha".

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