Ivan Pisarenko/Agence France-Presse - Getty Images
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Esfriamento do crescimento global deixa abertas feridas da crise de 2008

Há menos de um ano, principais economias do mundo cresciam, mas, hoje, o cenário mudou

Peter S. Goodman, The New York Times

10 Dezembro 2018 | 06h00

LONDRES - Há apenas alguns meses, as perspectivas mundiais pareciam promissoras. Pela primeira vez desde a crise financeira global, as principais economias estavam crescendo. Isto acabou. A economia global se enfraqueceu, e a maioria dos países continua às voltas com os prejuízos da última crise. Muitas nações  estão atoladas na estagnação ou rumando para ela. A queda dos preços do petróleo e das encomendas para as indústrias refletem a redução da demanda de bens. As companhias afirmam que os lucros poderão decepcionar, provocando vendas frenéticas nos mercados de ações, o que aprofundará a crise.

As economias da Alemanha e do Japão encolheram nos últimos meses. E a China registrou uma redução maior do que o previsto do seu ritmo de crescimento. As razões desta reviravolta estão tanto na elevação das taxas de juros pelos bancos centrais quanto na guerra comercial deflagrada pelo presidente Donald Trump. A possibilidade de que a saída da Grã-Bretanha da União Europeia possa prejudicar o comércio do outro lado do Canal da Mancha também desencorajou os investimentos.

Nada disso constitui uma emergência, nem mesmo uma queda acentuada da atividade comercial. A Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) concluiu recentemente que a economia global terá uma expansão de 3,5% no próximo ano, em comparação a 3.7%, este ano. Entretanto, ao declarar que “a expansão global atingiu o seu pico”, a OCDE concluiu efetivamente que a situação atual é tão boa quanto possível antes da próxima pausa ou crise. Embora a desaceleração pareça mínima, ela tem potencial para intensificar o ressentimento difuso que incomoda muitas sociedades, contribuindo para ampliar o apoio aos populistas com impulsos autocráticos.

“Isto só exacerbará as tensões que levaram aos problemas socioeconômicos e políticos vistos nos Estados Unidos e em partes da Europa”, disse Thomas A. Bernes, economista do Center for International Governance Innovation, uma instituição de pesquisa do Canadá.

Na Grécia, Espanha e Itália, o desemprego dos jovens permanece acima dos 30%. Na Grã-Bretanha, o trabalhador comum não vê um aumento do salário acima da inflação, em mais de dez anos. “Somos uma geração perdida”, afirmou Swati Dhingra, economista da London School of Economics. “Já havia uma estagnação dos salários e da produtividade. A guerra comercial exacerbou tudo isto”.

O maior risco para o crescimento global parece ser o fato de que a guerra comercial está funcionando, pelo menos em parte, conforme planejado. Trump impôs tarifas sobre cerca de 250 bilhões de dólares de exportações chinesas. O que pouco influiu nas práticas econômicas da China. Mas tornou-se um obstáculo para o mastodonte industrial chinês. Em setembro, o uso das ferrovias para o transporte de carga, os empréstimos bancários e o consumo de eletricidade na China aumentaram cerca de 9% em comparação ao ano anterior, abaixo dos 11% registrados em janeiro.

Considerando que a China é a segunda maior economia mundial, as consequências desta ondulação propagam-se significativamente, contribuindo para explicar a queda acentuada das encomendas às indústrias na Alemanha. Por outro lado, os produtores agrícolas americanos sofreram com a perda de vendas quando a China impôs taxas sobre as importações dos Estados Unidos.

Elevando os juros, a Reserva Federal dos Estados Unidos (o Banco Central) agiu de acordo com a convicção aceita de que o excesso de dinheiro fácil disponível por um período excessivo tende a criar problemas, do aumento dos preços às estripulias financeiras. Entretanto, a elevação dos juros acabará limitando o crescimento econômico americano.

Juros mais altos nos EUA também levaram os investidores a abandonarem as economias em desenvolvimento em favor de oportunidades mais seguras nos Estados Unidos. Isto favoreceu o surgimento de crises na Turquia e na Argentina, desvalorizando, ao mesmo tempo, as moedas e reduzindo as perspectivas de crescimento na Índia e na África do Sul, entre outros países.

O Banco Central Europeu também andou retirando o dinheiro barato que usara para atacar a crise, reduzindo gradativamente as compras de títulos. Isto encareceu o crédito em todo o continente, privando as empresas do capital necessário para financiar a própria expansão. E calou o discurso outrora esperançoso segundo o qual a Europa finalmente transcendera o torpor da última década.

“É um pouco como olhar uma ave muito pesada tentando levantar voo”, observou Peter Dixon, economista do Commerzbank AG em Londres. “Ela avança capengando até o final da pista e começa a decolar sem nunca ganhar altitude”. Pode-se dizer que o mesmo acontece com a economia global. Ela nunca teve realmente impulso suficiente para gerar um número impressionante de empregos, ou aumentos salariais consideráveis para as pessoas comuns. E agora, apesar de tudo isto, já vivemos tempos mais magros.

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