Blue Origin via The New York Times
Um lançamento-teste foi feito no início de outubro, no Texas.  Blue Origin via The New York Times

Empresa de Jeff Bezos está transportando carga científica para o espaço. E não é a Amazon

O foguete New Shepard da Blue Origin ainda não transportou turistas espaciais, mas encontrou um nicho de negócios com a Nasa e os experimentos científicos privados

Kenneth Chang, The New York Times - Life/Style

29 de outubro de 2020 | 05h00

O oeste do Texas não se parece muito com a Lua. Mas pode ser um substituto útil. Neste mês, a Blue Origin, a empresa de foguetes fundada por Jeff Bezos, o presidente-executivo da Amazon, lançou – e pousou – seu pequeno foguete e cápsula, o New Shepard, pela 13ª vez, como parte dos testes para verificar a segurança antes que qualquer passageiro suba a bordo.

Um dia, este será o principal negócio do New Shepard: levar pessoas abastadas para voar acima da altitude de 100 quilômetros, o que geralmente se considera o início do espaço sideral, onde essas pessoas experimentarão alguns minutos de gravidade zero enquanto a cápsula faz o arco da parábola.

A Blue Origin não é uma empresa nova – Bezos a fundou em 2000 – mas, durante a maior parte de sua existência, ela operou em segredo, sem gerar muitas receitas. Três anos atrás, Bezos disse que estava vendendo US $ 1 bilhão por ano em ações da Amazon para financiar a pesquisa e o desenvolvimento da Blue Origin.

E ele declarou amplas ambições para seus negócios, como competir com a SpaceX de Elon Musk no ramo do lançamento orbital, construir um módulo lunar para astronautas da Nasa e, no longo prazo, possibilitar que milhões de pessoas vivam e trabalhem no espaço.

Mas a carga do lançamento da última terça-feira, num campo de testes perto de Van Horn, Texas, mostra que a empresa está encontrando um negócio mais modesto no curto prazo: transformar o foguete e cápsula New Shepard – que são reutilizáveis – numa plataforma eficaz e lucrativa para testes de novas tecnologias e realização de experimentos científicos. “Foi fantástico”, disse Erika Wagner, diretora de vendas de carga da Blue Origin, que estava no oeste do Texas.

“Ficamos vendo o vale e o foguete subindo”. Acoplados na parte superior do impulsionador, protótipos de sensores que poderão ajudar os astronautas da Nasa a chegar com segurança à superfície lunar em alguns anos. Esses protótipos fazem parte do programa Tipping Point da Nasa, que quer impulsionar tecnologias inovadoras.

“Embora não seja idêntico a um módulo de pouso lunar, tem aquele mesmo perfil de voo de se aproximar em alta velocidade e, em seguida, acelerar o motor e fazer um pouso propulsivo”, disse Stefan Bieniawski, que lidera o lado da Blue Origin da parceria com a Nasa. “Na verdade, acho que estamos voando em velocidades um pouco mais altas do que as de aproximação da lua, então é um pequeno teste de estresse para alguns desses sensores”.

Ao contrário das missões Apollo da Nasa, que visitaram diferentes partes da Lua de 1969 a 1972, Artemis, o atual programa da agência espacial, tem o objetivo de fazer visitas repetidas perto do Polo Sul lunar, onde crateras eternamente sombreadas contêm grandes quantidades de gelo de água. Isto exigirá a habilidade de pousar perto do mesmo local seguidas vezes.

Para tanto, o Langley Research Center da Nasa em Hampton, Virginia, passou anos desenvolvendo um sistema que reflete a luz da superfície para medir a altitude e a velocidade de uma espaçonave em trajetória descendente. Essa tecnologia, chamada "lidar" – abreviação de “detecção e alcance de luz”, em inglês – é semelhante ao radar, mas precisa ser capaz de fornecer leituras mais precisas.

Um segundo sistema da Nasa a bordo do voo foi um teste do que é conhecido como navegação relativa ao terreno. Como não há satélites de GPS orbitando a Lua, a espaçonave precisa contar com sua própria inteligência para determinar sua localização exata. Nesse sistema de navegação, um computador compara as imagens tiradas por uma câmera com as armazenadas a bordo para determinar sua localização.

O sistema de navegação foi ligado perto de onde o impulsionador New Shepard atingiu seu ponto mais alto. “A navegação relativa ao terreno não fica lá parada dizendo: ‘Ei, estou vendo uma cratera’”, disse Bieniawski. “Ela, de fato, procura contrastes na paisagem. E, dessa forma, realmente não importa se está na Lua ou aqui na Terra”. A Nasa pagou US $ 1,5 milhão à Blue Origin para montar seus sistemas em dois voos do New Shepard.

O segundo voo adicionará outro instrumento "lidar", que criará um mapa tridimensional da paisagem abaixo para identificar e evitar obstáculos. “Nosso objetivo é preparar um sistema de pouso plug-and-play com bastante precisão, que a Nasa e a indústria possam usar com base na necessidade específica de uma missão”, disse Jim Bridenstine, administrador da Nasa, em comunicado. “Este teste integrado do New Shepard nos colocará nesse caminho, dando-nos informações incomparáveis sobre como os sensores, algoritmos e computadores funcionam juntos”.

Embora não houvesse pessoas na cápsula do New Shepard para o voo, ela não estava vazia. Carregava experimentos científicos financiados pela Nasa, bem como cargas experimentais de empresas privadas. Os voos do New Shepard já transportaram mais de 100 cargas para a borda do espaço. “Ganhamos dinheiro com cada voo”, disse Bob Smith, executivo-chefe da Blue Origin. Wagner, da Blue Origin, disse que os cientistas vieram ao oeste do Texas e estavam animados para assistir ao lançamento e começar a pesquisar os resultados no mesmo dia.

“Eles estão até dando pulinhos”, disse ela. Os experimentos no voo da semana passada incluíram a segunda iteração de um projeto de Daniel Durda, cientista do Instituto de Pesquisa Southwest em Boulder, Colorado. Ele o chamou de BORE II, sendo BORE o acrônimo de Experimento da Caixa de Pedras, em inglês. “É uma caixa de pedras, literalmente”, disse Durda. Ele está tentando desenvolver um sistema que possa coletar amostras de poeira de um asteroide.

O BORE II contém um material triturado cuja composição é semelhante à de certos asteroides ricos em carbono. Durante a parte sem gravidade do voo, um dispositivo de coleta em forma de tetraedro, que Durda chama de estrela do mar, se abrirá. Ímãs montados nos triângulos externos – os braços da estrela-do-mar – devem atrair e segurar algumas das rochas trituradas. O dispositivo então se fechará, prendendo o material.

“Se você pensar bem, é um tipo de biomimética”, disse Durda. “As estrelas-do-mar se alimentam meio que expelindo o estômago e puxando de volta para coletar a comida. É mais ou menos isso que estamos fazendo aqui”. Ao testar o projeto num voo suborbital, Durda pode descobrir quanto material pode ser coletado e se o aparelho funciona sem emperrar.

“É o primeiro passo para entender como você pode incorporar um mecanismo de amostra como este numa missão de nave espacial, onde você pode despejar dezenas, muitas dezenas dessas pequenas coisas na superfície de um asteroide”, disse ele. Com os novos veículos suborbitais que voam várias vezes, o preço para se chegar ao espaço está muito mais baixo para a Nasa, bem como para cientistas acadêmicos e particulares.

A opção mais popular, disse Smith, é o que a Blue Origin chama de uma única prateleira de armazenamento. “Começa em torno de US $ 100 mil por cerca de 10 quilos e algo do tamanho de, digamos, um micro-ondas”, disse ele. “Mas também temos muitas cargas que oferecemos para estudantes, as quais chegam a US $ 8 mil”. A pesquisa suborbital também é um sinal de que a Blue Origin está se transformando num negócio lucrativo ao se preparar para vender passagens para turistas espaciais.

Ela ainda não anunciou data nem preço para esses voos. “Estamos crescendo muito nas instalações, tentando entender de verdade como administramos a iniciativa muito mais como negócio do que como uma organização de pesquisa”, disse Smith. “Também saímos de uma receita praticamente zero e começamos a fazer centenas de milhões de dólares anualmente”. A empresa enfrenta concorrência no mercado de envio de experimentos ao espaço.

A Virgin Galactic de Richard Branson, que também planeja enviar turistas espaciais em viagens suborbitais, vem fazendo experiências durante seus voos de teste. Um dos cientistas da Universidade da Flórida, por exemplo, testou tecnologias de imagem que capturam a reação das plantas – quais genes são ativados e desativados – ao estresse do voo espacial. (Os mesmos cientistas tiveram outra iteração do experimento a bordo do voo da Blue Origin na semana passada).

O avião espacial da Virgin Galactic, conhecido como SpaceShipTwo, é pilotado por dois pilotos, por isso já transportou pessoas ao espaço, mas só levará passageiros pagantes a partir do ano que vem. “O uso desses veículos para fins de pesquisa agora se transferiu para o mainstream, e a Nasa está financiando muitos trabalhos desse tipo”, disse S. Alan Stern, vice-presidente da divisão de ciência e engenharia espacial da Instituto de Pesquisa Southwest que foi selecionado pela Nasa para acompanhar sua pesquisa num futuro voo da Virgin Galactic.

Stern disse que, ao operar o experimento por conta própria, pode ganhar experiência direta com a forma como esses materiais se comportam num asteroide. “Acho que é muito importante entender as condições de suas superfícies num nível ‘visceral’, da mesma maneira que um geólogo de campo caminha por um deserto aqui na Terra”, disse Durda. “Alcançamos esse nível de familiaridade em quase todos os outros aspectos da ciência de campo e laboratório”, disse ele. “Já passou da hora de os cientistas espaciais poderem trabalhar com o mesmo benefício de capacitação”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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Como uma turma da 2ª série dos EUA enviou um experimento científico ao espaço

Empresa de foguetes fundada por Jeff Bezos permite que escolas desenvolvam pequenos experimentos e os lancem em uma de suas naves suborbital

Kenneth Chang, The New York Times - Life/Style

29 de outubro de 2020 | 05h00

Em 2015, os alunos da turma de segunda série de Maggie Samudio na Cumberland Elementary School em West Lafayette, Indiana, estavam refletindo sobre uma questão científica um tanto incomum: se um vagalume fosse para o espaço, será que ele ainda conseguiria acender sua luz, flutuando em gravidade zero?

Samudio disse que pediria a resposta a um amigo dela, Steven Collicott, professor aeroespacial na Universidade Purdue, ali perto. “Ele dá aula sobre gravidade zero e seria a pessoa perfeita para responder à pergunta”, lembrou Samudio, por e-mail. Um dia depois, Collicott respondeu, e Samudio se surpreendeu com sua resposta: em vez de ficar refletindo, por que não construir o experimento e enviá-lo para o espaço?

Blue Origin, a empresa de foguetes fundada por Jeff Bezos, executivo-chefe da Amazon, estava planejando oferecer a possibilidade de escolas fazerem pequenos experimentos em sua nave suborbital, a New Shepard, por apenas US $ 8 mil. “Isso mudou tudo”, disse Erika Wagner, diretora de vendas da Blue Origin. “Até crianças de escolas estão mandando coisas para o espaço”.

Collicott, que mandou vários experimentos de fluxo de fluido em lançamentos da New Shepard, indicou Samudio e seus alunos para a Blue Origin. “Podemos levar uma pequena carga de 25 centímetros quadrados por 20 centímetros de altura pela metade do custo dos uniformes da equipe de futebol americano da escola”, disse Collicott.

“Então, qualquer escola de bairro que consiga bancar um time de futebol americano agora também consegue bancar voos espaciais”. A escola Cumberland não foi a única a ver o valor de pagar por um experimento a bordo do foguete New Shepard. Uma escola do Colorado enviou um pacote de sensores projetado e programado pelos alunos.

Uma escola de ensino médio do Alabama lançou um experimento para testar as flutuações de temperatura na microgravidade. E, em dezembro do ano passado, uma escola primária de Ohio enviou filhotes de água-viva. A bordo do mais recente voo, estavam 1,2 milhão de sementes de tomate, que serão distribuídas a alunos de 15 mil turmas, do jardim da infância ao ensino médio, nos Estados Unidos e no Canadá.

Seguindo a sugestão de Collicott, as crianças de Samudio na escola Cumberland começaram a trabalhar em colaboração com os alunos da Universidade Purdue. “Pelos dois anos seguintes, tive engenheiros aeronáuticos na minha sala de segundo ano, dando miniaulas sobre princípios básicos de voo e propulsão, além dos princípios básicos da química do ‘vagalume’”, disse Samudio. Em 12 de dezembro de 2017, o experimento do vagalume estava a bordo da New Shepard. Não continha nenhum vagalume de verdade. “Parece que, quando assustados, os vagalumes não acendem”, disse Collicott.

“E estávamos preocupados, achando que a propulsão poderia assustá-los. Além disso, tinha a questão de manter os vagalumes vivos e também felizes”. Então o experimento só reproduziu a química de como os vagalumes geram luz, com seringas misturando as substâncias enquanto a cápsula alcançava o topo da trajetória, quase 100 quilômetros acima do oeste do Texas.

Uma pequena câmera de vídeo registrou o que aconteceu dentro da caixa. Collicott compareceu ao lançamento e, dois dias depois, estava de volta à sala de aula de Samudio apresentando os resultados. Os vagalumes, de fato, podem brilhar no espaço. “Esse tipo de reviravolta é simplesmente incrível, o voo espacial está bem perto desses alunos”, disse Collicott.

“Tudo foi muito rápido. E bem bacana”. O experimento espacial fez parte de um projeto maior realizado pelas turmas de Samudio. Uma de suas alunas, Kayla Xu, notou com tristeza que a maioria dos estados tinha um inseto oficial, mas Indiana, não. E ela queria consertar isso. Essa iniciativa também deu certo.

Em 23 de março de 2018, o governador Eric Holcomb foi até a escola Cumberland para assinar um projeto de lei que declarava que o vagalume Say, uma espécie nativa da região, seria o inseto oficial do estado de Indiana. “Vários pais me disseram que a simples questão de perguntar aos filhos o que eles tinham feito na escola naquele dia deu origem a incríveis conversas familiares, leituras e pesquisas extras, além da contemplação de futuras buscas e objetivos pessoais”, disse Samudio. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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