Emilio Parra Doiztua/The New York Times
Emilio Parra Doiztua/The New York Times

Muitos dos lugares sagrados para o flamenco na Espanha não devem sobreviver ao coronavírus

Diversos estabelecimentos permaneceram fechados mesmo com o abrandamento das restrições impostas pela pandemia. O que coloca em risco um elemento da formação de muitas carreiras de artistas do gênero

Raphael Minder, The New York Times - Life/Style

26 de abril de 2021 | 05h00

MADRI - Muitas vezes eles se localizam em espaços escuros semelhantes a cavernas, com um palco entre as mesas e cadeiras dos frequentadores. Estes pequenos clubes noturnos, chamados tablaos, funcionaram como trampolins de gerações de artistas do flamenco na Espanha que ali lançaram suas carreiras profissionais, mais ou menos como muitos músicos de jazz que inicialmente chamaram a atenção do público nos clubes de cidades como Nova Orleans.

Mas este cenário íntimo, em que os espectadores se acotovelavam nas proximidades do palco, fez com que muitos tablaos não tivessem a possibilidade de reabrir, mesmo depois que a Espanha encerrou as restrições mais rigorosas contra a pandemia de coronavírus durante o lockdown do último verão. A situação deu origem a uma luta pela sobrevivência para estas estimadas instituições que constituem o cerne de uma forma de arte nacional.

Segundo Juan Manuel del Rey, presidente da associação nacional de tablaos, se o governo não entrar com maior apoio financeiro, “caminharemos para a extinção”.

“Não se pode funcionar economicamente quando se tem quase mais empregados e artistas do que espectadores”, afirmou.

Embora muitos teatros da Espanha tenham reaberto desde o verão passado com a capacidade de público reduzida, o distanciamento social e outras normas, esta estratégia tem sido inviável para os tablaos do ponto de vista financeiro. Desde o início da pandemia, 34 dos 93 tablaos da associação nacional fecharam as portas definitivamente, disse del Rey.

O seu desaparecimento se deu no momento em que o flamenco desfrutava, nos últimos anos, de um dos seus momentos mais brilhantes, em parte graças ao boom do turismo na Espanha. Antes da pandemia, os visitantes estrangeiros lotavam os tablaos com a finalidade de descobrir uma tradição espanhola que faz parte da lista de Patrimônio Cultural Imaterial da UNESCO. Depois de sete anos de crescimento, o número de turistas estrangeiros na Espanha caiu para 19 milhões de pessoas no ano passado, queda frente aos quase 84 milhões em 2019.

No ano passado, o governo espanhol deu a um grupo de tablaos uma verba de 232 mil euros (cerca de US$ 275 mil), como parte de mais de 2 milhões de euros que destinou ao apoio do setor do flamenco durante a pandemia - medida que o Ministério da Cultura descreveu em um e-mail como “um esforço extraordinário”. Mas os diretores dos tablaos afirmam que a série de recentes fechamentos destes locais mostra que o apoio foi pequeno demais, tardio demais.

 

Nos últimos anos, os tablaos ofereceram trabalho para 95% dos artistas de flamenco da Espanha, segundo del Rey. E muitos artistas afirmam que eles valorizam os benefícios criativos do trabalho em ambientes informais onde podem testar novas ideias diante de um público, enquanto trabalham com vistas em uma produção maior.

Apresentar-se em um tablao “é algo realmente único, porque é o lugar que me permite reconectar-me com os meus sentimentos mais íntimos e compartilhar as emoções diretamente com o público”, afirmou em uma entrevista Jesús Carmona, 35, que no ano passado venceu o prestigioso prêmio nacional de dança da Espanha.

“Por outro lado, me dá a sensação de voltar para casa”, prosseguiu Carmona, que desde que dançou pela primeira vez em um tablao, aos 10 anos de idade, levou o flamenco para vários entre os maiores palcos do mundo. “De certo modo, eu cresci dançando em tablaos; por outro lado, acredito que jamais deveríamos dar as costas às pessoas e aos lugares que contribuíram para o nosso progresso”.

Este mês, ele dançou diante de um público de apenas 32 pessoas no Corral de la Moreria, um dos clubes mais famosos de Madri. O diretor do local é del Rey, presidente da associação nacional; o clube foi fundado por seu pai nos anos 30, quando os tablaos começaram a florescer em Madri e em outras partes da Espanha.

Embora ele hospedasse esse único espetáculo para Carmona, manteve o estabelecimento fechado desde março do ano passado. Del Rey limitou o público para a apresentação a 25% das 120 pessoas que o tablao comportava antes da pandemia, quando também costumava realizar duas apresentações por noite.

Alguns visitantes de outros países conseguiram entrar nos tablaos que enfrentam problemas apesar das restrições da pandemia.

Em Las Tablas, Sabina Reiter, uma estudante alemã, assistiu no começo de abril ao seu primeiro espetáculo de flamenco com uma amiga inglesa. “Adoro todos os tipos de música e dança. Me parece um milagre não só poder desfrutar de uma noite com minha amiga em Madri, mas também descobrir o flamenco de perto e não apenas pela televisão,” disse Sabina.

Entretanto, a realidade da pandemia foi inescapável para muitos tablaos em todo o país, como o famoso Palacio del Flamenco de Barcelona, que recentemente fechou as portas em caráter permanente.

Em Madri, o centenário Villa Rosa - cujas paredes coloridas apareceram em filmes de Pedro Almodóvar e de outros diretores espanhóis - no mês passado realizou uma apresentação final ao ar livre, juntamente com um comício de protesto, depois do qual os participantes depositaram flores e velas na entrada do local.

Estas perdas significam que a Espanha corre o risco de perder a “universidade do flamenco”, lamentou Rosana de Aza, produtora de espetáculos de flamenco, que dirigia tablaos em Sevilha e Madri. “Os tablaos são realmente os lugares onde os nossos artistas puderam pôr em prática tudo o que aprenderam e transformar a sua paixão em  uma profissão”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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