Dadu Shin for The New York Times
Dadu Shin for The New York Times

Especialista critica conceituação do termo 'gênio'

Viet Thanh Nguyen recebeu uma concorrida bolsa da Fundação MacArthur, rotulada como 'bolsa dos gênios', mas questiona definições do vocábulo

Viet Thanh Nguyen, The New York Times

21 Abril 2018 | 10h00

Não faz muito tempo, recebi uma bolsa da Fundação MacArthur, às vezes chamada a "bolsa dos gênios", embora a fundação e eu mesmo discordemos. Mas receber a bolsa me fez pensar sobre o significado de "gênio" e o motivo pelo qual valorizamos seu conceito individualista, mesmo que às vezes emprestemos ao termo certa ironia.

Segundo o Oxford English Dictionary, um gênio é "uma pessoa excepcionalmente inteligente ou talentosa, ou com capacidades excepcionais em determinada área da arte, ciência, etc." Quando eu era mais jovem, mostrei possuir alguma genialidade, a começar pelo fato de que fui recusado por todas as universidades em que tentei me matricular, com a exceção de uma.

Acabei abandonando-a e consegui ingressar na Universidade da Califórnia, em Berkeley, onde, aos 19 anos, mostrei suficiente brilho intelectual para ser aceito em um curso de não ficção ministrado por Maxine Hong Kingston. Na época, ela já era famosa por causa do seu livro "The Woman Warrior" e por ter obtido o National Book Award. Tratava-se de um seminário de certo modo fechado com 14 estudantes. Diariamente eu assistia à sua master class, sentava perto da professora, e ... acabava cochilando.

É por isso que, quando vejo estudantes dormindo em minhas aulas, não os incomodo. Talvez eles sejam realmente gênios.

É provável que Maxine também seja. Embora ela nunca tenha me chamado à atenção pela minha narcolepsia, no final do semestre, ela me escreveu uma longa nota mencionando o fato de que eu parecia um tanto distante e que talvez devesse utilizar os excelentes serviços de aconselhamento da universidade.

Se eu tivesse procurado aconselhamento naquela época, quem sabe acabasse me tornando um ser humano mais ajustado. Mas preferi tornar-me um escritor. E também um acadêmico, outro rótulo para o qual aparentemente não é necessário ser um indivíduo bem ajustado.

Escrevi uma dissertação sobre literatura asiático-americana de 1896 a 1996. Tinha esperanças de um dia tornar-me um escritor, o que significaria também ser um escritor asiático-americano. Eu me via pertencendo de certo modo a esta genealogia asiático-americana, da qual também Maxine Jong Kingston faz parte.

Hoje, tornar-se um escritor asiático-americano, ou ser um escritor americano de origem asiática, exige muito trabalho e certa sorte, mas não muito gênio. O mundo literário asiático-americano está bastante consagrado, e o caminho para a publicação está aberto. Frequentem uma universidade, consigam um M.F.A. em criação literária, escrevam sobre algum tema asiático ou asiático-americano, sejam recebidos por alguma editora de Nova York ansiosa por conseguir a próxima mercadoria multicultural de sucesso, e a próxima voz dos que não têm voz, o termo que foi usado para me definir.

Isso me faz pensar - será que as pessoas que usaram este termo alguma vez conheceram um vietnamita? 

Frequentaram um restaurante vietnamita, ou mesmo uma casa vietnamita ou estiveram no Vietnã? Nós somos muito barulhentos.

Na situação atual, assim como no passado, as minorias e as comunidades marginalizadas deste e de qualquer outro país frequentemente não deixam de ter sua voz. O fato é que não são ouvidas.

É este o problema de ser definido como a voz dos que não têm voz, cuja situação excepcional está relacionada ao que chamamos de gênio. Preferiríamos lidar com uma voz solitária do que com um coro ou uma cacofonia de vozes. E ao louvar, hoje em dia, a voz dos que não têm voz, preferiríamos esquecer logo, ou nem mesmo ter conhecimento de todas as outras vozes dos que não tiveram voz que vieram antes.

Penso em Edith Maude Eaton, meio chinesa e meio branca, que adotou um pseudônimo chinês e escrevia sob o nome de Sui Sin Far. Ela advogava para imigrantes chineses e optou por ser chinesa nos primeiros anos do século 20, uma época em que ser chinês na América do Norte significava ser desprezado. Ela publicou um livro de contos, "Mrs. Spring Fragrance", e morreu ainda jovem, em 1914, na pobreza e no anonimato.

Penso em Carlos Bulosan, que migrou das Filipinas nos anos 30, na época da administração colonial dos Estados Unidos. Trabalhou como jornalista, organizou associações sindicais e se tornou um escritor celebrado em todo o país. Sua fama chegou ao ápice com o livro "America is in the Heart", em 1946. Entretanto, em 1954, suspeito de simpatizar pela doutrina comunista, foi vítima do macartismo e morreu de pneumonia, pobre e abandonado.

Penso em John Okada, que combateu na Segunda Guerra Mundial, enquanto sua família japonesa-americana estava confinada a um campo de concentração. Okada voltou da guerra, e publicou "No No Boy", em 1957, o primeiro romance que tratava da história pouco conhecida dos japoneses-americanos que resistiram à convocação. Os Estados Unidos não queriam pensar nos campos de concentração; e a comunidade nipo-americana, ansiosa por mostrar o seu patriotismo, não queria reconhecer os que se recusavam a prestar o serviço militar obrigatório. "No No Boy" imediatamente desapareceu. Okada morreu relativamente jovem, e sua viúva, desesperada por ver a rejeição sofrida pelo marido, queimou o seu segundo manuscrito.

Gostaria que as bolsas fossem retroativas. Seria preciso ser gênio para decidir escrever sobre os asiático-americanos em uma época em que não havia mercado para a literatura asiático-americana, nenhum reconhecimento para os escritores asiático-americanos, e sequer havia asiático-americanos. (Até os anos 60, nós éramos definidos coletivamente como 'orientais'.)

Pensando em escritores como Sui Sin Far, Carlos Bulosan e John Okada, fica claro que um gênio nunca é reconhecido em vida.

O nosso conceito de gênio como natureza individual se encaixa bem na fantasia predominante do Ocidente, onde um autor é considerado um solitário romântico. Embora a bolsa seja um importante reconhecimento do fato de que eu me fechei sozinho no meu quarto por milhares de horas, tentando ser um escritor, não acredito que o trabalho solitário teria conseguido algum sucesso sem a minha genealogia e as minhas comunidades. A comunidade asiático-americana, com o seu campo de estudos asiático-americanos e a sua linhagem de escritores, foi uma das mais fundamentais para mim.

Isto me faz lembrar de que uma das definições esquecidas do termo "gênio" não se refere a um indivíduo, mas a um "caráter ou espírito inconfundível" e aos seus "sentimentos, opiniões, sensações ou gostos predominantes". É neste sentido que eu reconheço e afirmo o espírito de resistência asiático-americano de um gênio".

Desde que imigrantes chineses chegaram a este país, no século 19, os asiático-americanos não deixaram de se manifestar e de falar contra a desigualdade e em favor da justiça. Esse espírito também inclui um compromisso de solidariedade. É este, para mim, o gênio que gostaria que celebrássemos com mais frequência - o compromisso de carregarmos nossas paixões de uma maneira que eleve a nós todos.

Viet Thanh Nguyen é o autor de "The Refugees" e editor de "The Displaced: Refugee Writers on Refugee Lives", a ser publicado em breve.

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