Heidi Younger
Heidi Younger

Especialista propõe levantamento censitário de insetos em casas

Projeto Never Home Alone procura reunir pelo menos 10 mil observações de artrópodes, que devem ser fotografados pelas pessoas

Nicola Twilley, The New York Times

01 Dezembro 2018 | 06h00

“Comecem nos parapeitos das suas janelas", aconselha Rob Dunn. “As luminárias também costumam ser cemitérios.” O Dr. Dunn, especialista em ecologia aplicada da Universidade Estadual da Carolina do Norte, está incentivando as pessoas a procurar insetos - e então, em vez de esmagá-los, fotografá-los.

O projeto Never Home Alone, de sua autoria, tem como objetivo reunir pelo menos 10 mil observações de artrópodes - insetos e seus semelhantes - de todo o mundo. Qualquer um pode participar, usando a plataforma online de identificação da natureza chamada iNaturalist; a única condição é que os insetos tenham sido observados dentro de casa.

Nas cidades mais densas do mundo, o bioma dos ambientes internos é maior que o dos ambientes externos, ao menos em termos da metragem do espaço. Mas os cientistas sabem pouquíssimo a respeito das aranhas, moscas e traças que coabitam esse espaço conosco. 

“Não faltam estudos a respeito de baratas e cupins", disse a entomologista May Berenbaum, da Universidade de Illinois. “Mas há centenas ou até milhares de habitantes do lar que trazem impacto neutro ou benéfico e a respeito dos quais não sabemos quase nada.”

Até recentemente, o próprio Dr. Dunn era culpado de ignorar as criaturas de seis pernas com as quais dividia o teto. Alguns anos atrás, ele e os colegas decidiram realizar um levantamento censitário de 50 lares em Raleigh, Carolina do Norte, incluindo o seu. “Meu palpite era que haveria quatro espécies de aranha em casa", reconheceu ele. “Quando observamos, encontramos 10 na minha casa - e essa parece ser a média.”

De fato, alguns lares em Raleigh tinham mais de 200 espécies de artrópodes no total; o Dr. Dunn e sua equipe encontraram uma multiplicidade semelhante de insetos em lares de países tão distantes quanto Suécia e Peru.

Para o Dr. Dunn, o interior doméstico pareceu subitamente mais exótico que a Amazônia. Um par de insetos observados por ele e por outros eram totalmente novos para a ciência, mas mesmo aqueles que já tinham nome se mostraram misteriosos. Na maioria dos casos, os pesquisadores não sabem do que as criaturas se alimentam ou de quais habitats elas vêm originalmente.

Ao mesmo tempo, a dimensão dessa ignorância era desanimadora. A equipe precisou de horas para fazer o levantamento de um único lar. O aplicativo iNaturalist - uma plataforma de ciência cidadã que conta com usuários em todo o mundo e a capacidade de definir a geolocalização e até identificar as espécies nas fotos graças à inteligência artificial - ofereceu uma forma de superar esse gargalo.

Em julho, o Dr. Dunn criou uma página para o projeto e pediu aos usuários mais ativos da plataforma que contribuíssem. Já em outubro, a página tinha recebido mais de 3 mil participações, representando mais de 800 espécies, de um total de mais de mil participantes em todo o mundo.

As traças, por exemplo, são pequenos insetos de cor marrom claro com grandes olhos. Não se limitam a comer livros. Seu alimento é o amido, incluindo aquele utilizado na cola usada na encadernação dos livros, mas preferem a umidade mais alta de um banheiro ou cozinha.

Alguns dos dados mais interessantes vêm dos trópicos. Uma aranha-caranguejo, apelidada assim por sua capacidade de andar para trás e para os lados, parece ser onipresente. Numa imagem memorável, vemos essa aranha de pernas finas e corpo gordo e marrom sobre uma escova de dentes, indicando seu tamanho minúsculo.

O Dr. Dunn quer analisar a distribuição global dessas espécies. Em Raleigh, por exemplo, as casas pesquisadas por ele eram habitadas por insetos do Crescente Fértil que chegaram às Américas com os colonos europeus.

Outros padrões estão emergindo, que seguem sua lógica, mas não deixam de intrigar. Os lares com bichos de estimação têm uma maior variedade de insetos; o mesmo se aplica aos lares que mantêm as janelas abertas por mais tempo.

Para um cientista que ama os insetos, a emoção envolvida no projeto Never Home Alone é óbvia. Mas, para os moradores que se mostram mais inclinados a esmagar uma mosca do que admirar a coloração de suas asas, qual é a vantagem disso?

Para começar, quando usamos inseticidas, matamos as aranhas benéficas e contribuímos para a evolução de variedades resistentes de baratas e percevejos. As aranhas são geralmente benéficas, alimentando-se de besouros, tesourinhas, moscas e mariposas, e raramente mordem.

O Dr. Dunn defende que as toleremos e, talvez, que aprendamos a valorizá-las. “Algumas dessas espécies são fascinantes", disse ele, descrevendo uma aranha que mata sua presa cuspindo nela. “O melhor que podemos fazer é respeitar as populações que nos beneficiam, e não as que nos fazem mal", disse o Dr. Dunn. “Mas, primeiro, temos que saber quem está ali.”

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