Lawrence Jackson/The New York Times
Lawrence Jackson/The New York Times

Especialistas enxergam perigos para a economia global

Apesar do sólido crescimento mundial, analistas de política econômica reunidos recentemente para o Panorama Econômico Mundial, em Washington, pareceram pessimistas

Neil Irwin, The New York Times

15 Maio 2018 | 10h00

De acordo com uma série de critérios, o momento atual é muito bom para a economia global. Pela primeira vez em uma décadas, quase todas as principais regiões do planeta apresentam simultaneamente crescimento e prosperidade sólidos.

Mas alguns dos principais responsáveis pelas políticas econômicas mundiais, reunidos recentemente em Washington, pareciam pessimistas. “O bom momento atual não vai durar muito", disse Maurice Obstfeld, economista-chefe do Fundo Monetário Internacional, apresentando as mais recentes projeções da organização, que prevê uma expansão de 3,9% na economia global em 2018.

Ou, nas palavras da diretora administrativa do FMI, Christine Lagarde, “o panorama global atual é positivo, mas vemos pela frente momentos mais difíceis".

O pessimismo entre os economistas pareceu contrastar com os mercados financeiros. Apesar da turbulência nos meses mais recentes, as ações e a maioria dos demais ativos financeiros ainda apresentam preços que indicam que o crescimento deve manter o ritmo atual por algum tempo.

“Os economistas são pagos para se preocupar", disse Nathan Sheets, economista-chefe da PGIM Fixed Income. “Me parece que os mercados, por outro lado, sabem aproveitar o momento.”

Qual é a preocupação desses especialistas? Será que se trata apenas de um grupo de economistas comprovando o estereótipo segundo o qual sua área é a ciência da tragédia, ou pior, deixando que suas próprias preferências de política econômica definam os contornos de suas previsões? Será que a economia mundial corre perigo?

Temor de uma guerra comercial

Em março, o presidente Donald J. Trump publicou no Twitter que as regras comerciais são “boas e fáceis de vencer", mas os principais economistas discordam. Eles enxergam nas ameaças tarifárias de Trump o risco de uma catástrofe: um ciclo de retaliações que poderia desmontar a cadeia de fornecimento das empresas e emperrar o comércio global.

Christine Lagarde argumentou que o sistema comercial global ajudou a reduzir a pobreza e criar empregos com salários mais altos. “Mas esse sistema de regras e responsabilidade compartilhada agora corre o risco de se desfazer", disse ela.

O governo Trump ameaçou abandonar o acordo de livre comércio da América do Norte (Nafta), aplicar uma pesada tarifa nas importações de aço e alumínio, e tributar as importações chinesas em US$ 50 bilhões (ou quem sabe US$ 150 bilhões). Mas, depois disso, as autoridades americanas recuaram, negociando os termos do Nafta, oferecendo exceções para as tarifas sobre aço e alumínio e retardando a aplicação das tarifas para importações chinesas.

Desequilíbrios financeiros

Os responsáveis pela política econômica global também enxergam crescentes desequilíbrios financeiros que poderiam provocar o próximo declínio, ou agravá-lo.

Durante anos, alguns países (principalmente Alemanha, Japão e China) têm acumulado superávits em conta corrente, o que significa que exportam mais do que importam, essencialmente exportando capital para o restante do mundo. Outros, incluindo EUA e Grã-Bretanha, têm acumulado déficits em conta corrente.

Com o tempo, esses padrões podem criar uma vulnerabilidade aos choques financeiros; essa dinâmica ajudou a aprofundar a crise financeira global de 2008 e a crise da zona do euro em 2010. E o FMI calcula que o desequilíbrio vai aumentar nos próximos dois anos.

Endividamento alto, juros baixos

Em vez de usar esse período de estabilidade e prosperidade para quitar dívidas, algumas das maiores economias estão avançando na direção oposta. Os níveis de endividamento público estão aumentando nos EUA, e o endividamento privado é alto na China. Essa dependência em relação ao crédito significa que, quando chegar o próximo declínio, os governos terão uma margem menor para lidar com a crise recorrendo ao aumento dos gastos públicos.

E, com os juros ainda baixos, uma das ferramentas normais para enfrentar uma recessão teve sua utilidade limitada. O Federal Reserve (banco central americano) entrou no mais recente declínio com a taxa de juros de curto prazo em 5,25%, antes de cortá-la para quase zero já em dezembro de 2008.

Agora, essa taxa básica está entre 1,5% e 1,75%. O Banco Central Europeu tem ainda menos espaço de manobra, com juros ainda próximos do zero.

As pessoas que alcançam os cargos de principais responsáveis pelas políticas econômicas tendem a se preocupar muito com aquilo que pode dar errado, mas, sem dúvida, as boas notícias econômicas do momento são acompanhadas por alertas que devem ser ouvidos.

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