Sara Krulwich/The New York Times
Sara Krulwich/The New York Times

Espetáculos da Broadway apostam em questões sociais

A nova temporada do teatro nova-iorquino conta com astros do cinema e da TV em peças sobre gênero, raça, sexualidade, política e polícia

Michael Paulson, The New York Times

25 de outubro de 2018 | 06h00

A Broadway está recuperando o fôlego depois dos seus grandes sucessos.

Foi na temporada passada; os amantes do teatro lamentaram quando os musicais com suas grandes encenações desceram na Times Square, tomando conta do espaço, do dinheiro e das atenções que outrora estavam disponíveis para uma boa peça à moda antiga.

Em uma reviravolta que ninguém na Broadway esperava, a temporada atual tem uma profusão de dramas - obras ambiciosas, desafiadoras, arriscadas, em sua maioria novas e principalmente de autores americanos.

Vinte peças já foram anunciadas para a temporada - que irá até o fim de maio do próximo ano, com algumas outras - sobre gênero, raça, sexualidade, política e polícia. Três peças falam de jornalismo, uma de Hillary Clinton, e uma sobre sinuca.

A safra de produções da temporada passada incluiu comédias leves e espetáculos solo. Os críticos ficaram preocupados. “A nova peça tradicional da Broadway visando o lucro está desaparecendo quase com certeza, como o dodo”, escreveu Peter Marks do “Washington Post”.

Nick Scandalios, vice-presidente executivo da Nederlander Organization, que administra nove teatros da Broadway, reconheceu: “Parecia algo agourento. Mas este ano não”.

Astros do cinema e da televisão se preparam para mostrar suas habilidades no palco: Lucas Hedges, Daniel Radliffe, Mercedes Ruehl, e Kerry Washington já estão nas antestreias; ainda virão Annette Bening, Bryan Cranston, Jeff Daniels, Adam Driver, Ethan Hawke, Glenda Jackson, Nathan Lane, John Lithgow e Keri Russell.

Esta vibração é em parte o resultado de uma mudança estrutural de longo prazo na Broadway. Os musicais podem prometer grandes retornos, mas as organizações sem fins lucrativos, sempre mais abertas do que os produtores comerciais para a apresentação de peças, agora controlam seis dos 41 teatros, o maior número de todos os tempos. Sete das 20 peças desta temporada estão sendo exibidas por organizações sem fins lucrativos.

“Ninguém quer ver o teatro da Broadway desaparecer”, disse Tom Greenwald, o diretor de criação da SpotCo, uma agência de marketing, disse: “A cidade toda se dá conta de que a importância de termos peças é uma parte inequívoca de toda temporada”.

As nove novas peças americanas já programadas para esta estação parecem refletir este momento em que os artistas - e o público, assim esperam os produtores - estão ansiosos por defrontar-se com as questões que perturbam a nação.

“American Son” está ambientada em uma delegacia da Florida, e acompanha um casal inter-racial que acaba de se separar preocupado  com o filho adolescente, de raça mista, que desapareceu.

Outra nova peça americana da temporada, “The Lifespan of a Fact”, é um olhar oportuno para diferentes interpretações da verdade, neste caso do colaborador de uma revista e investigador de fatos. A peça tem como ator principal Daniel Radcliffe, o astro dos oito filmes de “Harry Potter”, com Cherry Jones e Bobby Cannavale, ambos atrações para os amantes do teatro.

Em uma época em que as notícias falsas se tornaram um meme, “Lifespan” é uma das três que tratam do tema do jornalismo - as outras são uma adaptação de “Network”, que satirizava a indústria da televisão em 1976, e “Ink”, sobre um dos primeiros capítulos da carreira de Rupert Murdoch.

Uma nova adaptação de “To Kill a Mockingbird” (O sol é para todos), neste fim de ano, trata da questão de raça nos Estados Unidos. “Torch Song”, atualmente em antestreia, e o próximo “Choir Boy” falam dos desafios encontrados por homens gays em diferentes épocas.

“Não por acaso todas estas peças estão acontecendo agora”, disse Richie Jackson, o produtor de “Torch Song”. “Ela fala da reação dos artistas ao que está acontecendo na cultura”.

“Network”, peça high-tech, impregnada de forte energia, tem um titulo reconhecível e escalou notáveis da televisão (Bryan Cranston, Tony Goldwyn e Tatiana Maslany) para atrair grandes públicos.

“Há um público muito inteligente, faminto, à procura de grandes noites no teatro”, disse o produtor David Binder.

Os espetáculos sem fins de lucro estão sendo fundamentais na diversificação desta temporada, quando todas as peças apresentadas por produtores comerciais são de escritores brancos, e nenhuma de mulheres.

“Straight White Men”, de Young Jean Lee, foi a primeira peça de uma mulher asiática-americana apresentada na Broadway. O Manhattan Theater Club mostra “Choir Boy”, a estreia na Broadway de Tarell Alvin McCraney, um importante dramaturgo afro-americano vencedor de um Oscar pelo filme “Moonlight: Sob a luz do luar”.

As fronteiras entre as produções comerciais e as não-comerciais não são muito claras. Sonia Friedman, uma poderosa líder da indústria em Londres e veterana responsável pela transferência de numerosos espetáculos para Novas York, ajudou a trazer “Ink” para o Manhattan Theater Club.

“Quero que ‘Ink’ seja visto aqui porque é um trabalho realmente muito bom”, disse Sonia. O Manhattan Theater Club “estava ansioso por apresentá-lo, e teria sido insensato dizer não. Você precisa fazer escolhas, e a nossa escolha foi ‘Vamos levar esta peça’”.

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