Mathias Scold / The New York Times
Mathias Scold / The New York Times

Espião norueguês Frode Berg está solto (e furioso)

'Fui pressionado pelo serviço de inteligência militar na Noruega', revelou Berg ao sair da prisão em novembro

Anton Troianovski, The New York Times

03 de janeiro de 2020 | 06h00

KIRKENES, TURQUIA – Frode Berg diz que nunca quis ser espião. O agente secreto norueguês, de cabelos prateados, tinha 60 anos quando um conhecido o recrutou, em 2015, para trabalhar para a inteligência militar da Noruega. Nos dois anos seguintes, Berg foi courier – e remetia somas de dinheiro relativamente pequenas além de cartões de memória criptografados para uma mulher em Moscou.

Então, numa manhã de dezembro de 2017, quando ele estava na capital russa, foi levado por agentes do país. Passou dois anos em uma prisão na Rússia, onde, na sua opinião, foi bem tratado. Agora, finalmente livre, Berg está furioso – mas não com os russos. “Fui pressionado pelo serviço de inteligência militar na Noruega”, disse o ex-inspetor da fronteira norueguesa com a Rússia, ao ser solto em novembro. “Confiei que não me mandariam em alguma missão perigosa na Rússia. Mas eles me mandaram.”

A história de Berg é um exemplo das tensões que estão surgindo com a intensificação da caça aos segredos do Kremlin por alguns países ocidentais. A prisão do agente também abalou sua cidade natal, Kirkenes, comunidade perto de um fiorde na Noruega,  com fortes laços econômicos com a Rússia.

As pessoas temem que Berg, que passou dezenas de anos promovendo a cooperação na fronteira, tenha quebrado a confiança que estes esforços deveriam ajudar a criar. E estão revoltadas pelo fato de a Noruega –aliada da OTAN colada na Rússia nesta região do Ártico estrategicamente importante – ter pedido à Inteligência a ajuda dos seus próprios cidadãos.

“Queremos promover esta região como um ambiente de cooperação, derrubando muros e construindo pontes”, afirmou Marit Jacobsen, vice-diretora da Secretaria de Barents para a Noruega, que financia os projetos de cooperação com a Rússia. “Podemos lidar com um Frode Berg, mas não com muitos como ele."

Em 2015, um político local lhe pediu um favor, lembra Berg. Ele se importaria de levar 3 mil euros em dinheiro, cerca de US$ 3.300, a um endereço em Moscou na sua próxima viagem à Rússia? Era um segredo do conhecimento de todos que este político trabalhava para o serviço secreto militar da Noruega. Berg confiava nele e concordou.

O agente afirmou que quis sair na primavera de 2017. Mas tentado pela possibilidade de uma viagem paga a Moscou, toda iluminada na época do Natal, aceitou uma última missão. No dia 5 de dezembro de 2017, homens em trajes civis levaram Berg para a sede da agência de espionagem russa – o Serviço de Segurança Federal.

Ao se dar conta de que sua única chance de liberdade era uma condenação rápida e uma troca de espiões, Berg admitiu, meses mais tarde, que trabalhara como courier – chocando os que o defendiam, que estavam convencidos de sua inocência.

De regresso ao solo pátrio, Berg contou a jornalistas noruegueses que o Serviço Federal de Segurança mencionara outras pessoas que supostamente teriam trabalhado para a Inteligência norueguesa. O comentário chocou Rune Rafaelsen, o prefeito de Kirkenes.

Rafaelsen disse que “preferira não olhar para trás” e indagar se os seus vizinhos eram espiões. Outros estão menos certos disso. A desconfiança, afirmaram, se tornou inevitável. “Eles que recrutem seus agentes em outro lugar”, comentou Willy Bangsund, um técnico de luta livre que contou ter recusado as solicitações de cooperação da inteligência norueguesa.

Agentes noruegueses, segundo Bangsund, tornaram-se super zelosos para recrutar gente do lugar a fim de obter informações sobre a Rússia, pondo em risco os esforços visando aprofundar os laços com o vizinho.

Poucas pessoas em Kirkenes elogiaram Berg por assumir uma missão de alto risco em nome da segurança nacional. Ao contrário, elas disseram que agora os noruegueses talvez despertem suspeitas quando viajam para a Rússia. 

Uma comissão parlamentar está investigando possíveis crimes no caso de Berg, embora o governo não tenha confirmado publicamente vínculos entre ele e o serviço de inteligência militar. “Por 70 anos, a Noruega buscou uma aproximação equilibrada, pragmática e transparente de dissuasão e dialogo em relação à Rússia”, explicou o secretário da Defesa, Tone Skogen.

Berg declarou que não se orgulha de suas missões clandestinas e dos dois anos de prisão na Rússia a serviço do seu país. “Não está em mim ser ‘spion’ ”, argumentou Berg, usando o termo em norueguês. “Herói? Não me sinto nada disso”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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