Jenna Schoenefeld/The New York Times
Jenna Schoenefeld/The New York Times

Fã de futebol cria projeto que busca bons jogadores pelo mundo para a seleção que ele torce

Hugo Alvarado buscava na internet atletas que pudessem defender a seleção de El Salvador e foi contratado como olheiro em tempo integral

Andrew Das, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2021 | 05h00

SAN SALVADOR, El Salvador – Por mais de uma década, Hugo Alvarado vasculhou a internet atrás de jogadores de futebol que pudessem elevar o nível das seleções de El Salvador. Ele admite, timidamente, ser muito bom nisso.

Trabalhando em um computador doméstico na Califórnia, ele rapidamente identificou dezenas de membros da vasta diáspora de El Salvador, jogadores com nome de sonoridade salvadorenha ou pessoas com feições familiares nos times profissionais europeus, nos times da Major League Soccer, o principal campeonato norte-americano, e em programas universitários dos Estados Unidos. Em seguida, um a um, ele os rastreou. Aqueles que manifestaram interesse em jogar por El Salvador foram adicionados ao crescente banco de dados no site de Alvarado.

No entanto, havia um obstáculo: Alvarado não trabalhava para a federação de futebol de El Salvador. Não tinha autoridade para recrutar jogadores para as seleções nacionais. Era apenas um fã do esporte que queria poder torcer por times melhores. "Eu queria ver seleções mais competitivas. É por isso que faço o que faço", disse ele recentemente, mais de uma década depois do início do projeto.

No outono setentrional passado, a federação de El Salvador contratou Diego Henríquez, ex-jogador da seleção juvenil que havia jogado futebol universitário nos Estados Unidos, como seu primeiro diretor esportivo. A primeira contratação de Henríquez foi Hugo Pérez, respeitado ex-jogador e técnico de futebol dos EUA.

Inicialmente, seu objetivo era trazer jogadores melhores para a seleção juvenil de El Salvador, de onde quer que estivessem. Um ex-jogador sub-17 dos Estados Unidos, proveniente de Indiana, com pai salvadorenho. Um garoto da base do New York Red Bulls cuja mãe é salvadorenha. Um jogador profissional holandês que, na verdade, poderia jogar por quatro países e já vestia a camisa de um deles. Até mesmo o sobrinho de Pérez, ex-companheiro de Christian Pulisic no time juvenil dos EUA, enquadrou-se no projeto.

Esse tipo de estratégia de abrir os braços para acolher jogadores de fora não é inédito – a Itália, a Inglaterra, a Espanha e muitos outros países contam com jogadores nascidos no exterior – e Pérez sabe o valor disso tão bem quanto qualquer um: nascido em El Salvador, jogou mais de 70 vezes pelos Estados Unidos e representou o país nas Olimpíadas e na Copa do Mundo. E ele, como quase todo mundo no futebol salvadorenho, tinha ouvido falar do trabalho de detetive que Alvarado estava fazendo.

"Trazer talentos de diferentes partes do mundo pode ser um plano em qualquer federação. Isso faz parte da reestruturação da nossa identidade", comentou Henríquez, observando que os Estados Unidos há muito fazem isso, e o México, mais recentemente, abriu as portas para jogadores nascidos e criados nos Estados Unidos.

A ambição, porém, funciona melhor com um plano. Sob Pérez e Henríquez, El Salvador tem uma abordagem holística: treinamento e orientação de alta qualidade, melhorias na alimentação, no sono e no condicionamento físico e ênfase "no que significa representar El Salvador, vestir a camisa da seleção nacional, vir para o centro de treinamento e ser um profissional".

O retorno inicial tem sido promissor: contratados para comandar as seleções juvenis, Henríquez e Pérez também passaram a ser responsáveis pela seleção principal em abril, depois que resultados preocupantes em uma fase anterior às eliminatórias para a Copa do Mundo levaram a uma mudança de treinador. Tendo como base jogadores jovens e estreantes, El Salvador avançou, neste verão boreal, para a fase eliminatória da Copa Ouro, importante campeonato regional, e ainda deu um susto no México antes de ser eliminado nas quartas de final.

El Salvador tem poucas ilusões a respeito do trabalho que tem pela frente nas eliminatórias para a Copa do Mundo: a região só tem três vagas e meia no torneio do ano que vem, que são decididas em uma eliminatória octogonal composta por oito seleções, e poucos têm esperança de que La Selecta, como a seleção de El Salvador é conhecida, conquiste uma delas. A representação da região vai crescer, porém, quando a Copa do Mundo passar a ter 48 seleções no seu próximo ciclo. "Nosso objetivo principal é 2026. Acabamos de começar e sabemos disso", afirmou Henríquez.

Outros novos jogadores farão parte dos planos até lá, mas Alvarado também. No dia em que foi contratado em outubro passado, Henríquez disse aos repórteres que estava aberto a "qualquer pessoa que possa ajudar" a melhorar a seleção de El Salvador. Uma de suas primeiras conversas foi com o homem na Califórnia que tem o computador doméstico e um vasto conhecimento dos jogadores que poderiam estar disponíveis. Em outubro, Henríquez contratou Alvarado como o primeiro olheiro em tempo integral na história da federação.

Henríquez revelou que o plano era refinar o hobby de Alvarado e fazer com que encontrasse não todos os jogadores em potencial para La Selecta, mas alguns específicos. Em vez de um aspirador de pó, ele se tornaria essencialmente um comprador pessoal, apresentando uma lista de compras com necessidades específicas – complementando a equipe de determinada faixa etária, por exemplo, ou fornecendo opções para certa posição ou para uma função distinta. Ele e Henríquez ainda não têm certeza de quantos talentos podem estar disponíveis. "Preciso de cinco Hugo Alvarados na América do Norte", comentou Henríquez.

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