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Mulheres da principal liga de beisebol dos EUA encontram apoio em um grupo de WhatsApp

Grupo criado por Jen Wolf tornou-se um lugar raro na busca de orientação e compreensão para mulheres no esporte

James Wagner, The New York Times - Life/Style

29 de outubro de 2020 | 05h00

Em julho, quando Alyssa Nakken se tornou a primeira mulher na história da primeira divisão da liga a ocupar o cargo de técnica em campo, foi uma notícia espetacular no mundo do beisebol. No entanto, foi um acontecimento extraordinário para um pequeno grupo do setor: um grupo para a troca de mensagem de texto com dezenas de mulheres trabalhando no beisebol profissional.

Várias declararam que vibraram com a realização de Alyssa. Outras anunciaram que pretendiam comprar a sua camisa No. 92 do San Francisco Giants. Quando alguém compartilhou uma ilustração que a mostrava quebrando uma parede de tijolos que cercava um campo de beisebol, ela se tornou rapidamente a foto do grupo no WhatsApp.

 

“Você pode compartilhar este momento com outras pessoas, mas talvez elas não compreendam a importância que ele tem”, disse Andrea Nuñez, 27, treinadora de condicionamento e força de uma liga inferior do Los Angeles Angels. “Fazer com que as mulheres daquele grupo compartilhassem do entusiasmo foi maravilhoso”.

No entanto, esta corrente de mensagens de texto, as “Mulheres no Beisebol”, é mais do que simplesmente um lugar para comemorar as promoções. Para as 49 jovens envolvidas - todas elas trabalham em tempo integral no beisebol profissional - é um espaço raro onde encontrar apoio, discussões em grupo e compreensão.

Elas discutem suas experiências em um campo em que os homens predominam mais por sua tradição do que pelo espírito progressista. Elas falam da discriminação que encontraram. Trocam ideias sobre a evolução da jogadora ou a gestão. Conversam sobre melhorar a diversidade no esporte. Comentam o desenvolvimento de cada uma.

“Eu tenho um grupo da família com meus pais, meus irmãos e minhas cunhadas, e depois de um dia difícil ou de um dia realmente bom, é ótimo trocar mensagens com eles, disse Nakken, 30. "Este é como um outro tipo de família, se acontece alguma coisas posso compartilhar com elas, e elas entendem. Elas me entendem”.

O grupo de texto é uma criação de Jen Wolf, 33, que trabalha no Cleveland Indians. Percebendo um vácuo nos grupos de apoio para mulheres no beisebol, quando se encontrava entre um emprego e outro, Jen  começou a corrente de texto no verão de 2019 com menos de dez pessoas. As primeiras integrantes convidaram outras mulheres, que convidaram outras, e o grupo agora inclui olheiras, técnicas da liga principal e de ligas menores, coordenadoras de educação, pessoal de relações com a mídia, e assim por diante.

“Tornar-se orientadora de outras mulheres que estão entrando no jogo é fantástico”, disse Jen. “Eu não tive nada disso. Tive orientadores, mas não mulheres orientadoras”.

Não chega a surpreender, considerando que o beisebol há muito tempo é uma modalidade dominada pelos homens. No entanto, as mulheres estão cada vez mais se tornando uma presença neste esporte.

Quarenta por cento dos funcionários profissionais do escritório central da Liga Principal de Beisebol são mulheres (a maior porcentagem desde 2008) e 21 mulheres ocuparam cargos de técnicas de campo ou em organizações para o desenvolvimento das jogadoras que entraram em 2020 (em comparação com apenas três em 2017), segundo o Instituto para a Diversidade e a Ética no Esporte da Universidade da Florida Central.

No entanto, o mais recente boletim dessa instituição deu à MLB (Major League Baseball) e aos seus 30 times uma nota C em contratação por gênero. Um olhar para a distribuição dos cargos por gênero no nível de vice-presidentes mostra a razão: De cerca de 500 empregos de vice-presidente entre os 30 clubes, 95 eram de mulheres, segundo o boletim. E uma mulher ainda não conseguiu chegar a jogadora da MLB, gerente ou gerente geral.

“Eu não tinha ideia”

Foi essa falta de oportunidades nos níveis médios, em parte, que levou Jen a criar o grupo do WhatsApp.

Em 2018, ela deixou o emprego de coordenadora da liga menor e de operações internacionais dos New York Mets para procurar trabalho em algum outro lugar do setor. Mas notou que os esforços do beisebol para mulheres estavam voltados mais para os empregos de iniciantes e posições executivas. Em dezembro, nas reuniões anuais de inverno em todo da área, disse ela, nem pôde participar de um evento da MLB para mulheres porque não tinha sido empregada por nenhum time na época.

Então se deu conta de que as mulheres precisavam de ajuda nesta parte ardilosa de suas carreiras - os trampolins para a administração média - não apenas nas posições mais elevadas ou nas inferiores.

“A Liga Principal de Beisebol se esforçou muito para atrair mulheres e minorias neste jogo, mas não há muito apoio para as que já estão no jogo”, afirmou. “E eu tinha muitas amigas ou colegas mulheres, pares, que talvez tiveram uma experiência negativa com um clube ou algo assim, e depois decidiram não trabalhar mais no ramo do beisebol”.

Por isso, depois que Jen foi contratada, em fevereiro de 2019, pelos Indians, ela criou o grupo de WhatsApp para mulheres para que elas pudessem conversar, desabafar e se assistir mutuamente fora dos poucos programas formais que existiam.

O grupo está limitado a mulheres que têm empregos em tempo integral na área do beisebol. Mas se alguma estiver de licença ou tiver sido dispensada, uma ocorrência mais comum na pandemia, ela disse, não terá de sair do grupo.

Na realidade, acrescentou, cada mulher agregada se torna administradora do grupo do WhatsApp para que, por sua vez, possa convidar outras.

“Tudo isto foi um trabalho de base e do boca a boca”, acrescentou. “Por isso, se alguma não entrou, não terá sido nada pessoal. Talvez eu não tivesse o seu número”.

O grupo de mensagens inclui, entre outras: duas outras orientadoras da liga inferior contratadas antes desta temporada, Rachel Balkovec, do New York Yankees, e Rachel Folden, do Chicago Cubs; Eve Rosenbaum, diretora do Baltimore Orioles de desenvolvimento de beisebol; Melissa Lambert, diretora assistente de ciências do comportamento do Kansas City Royals; e Karla Espinoza, olheira para o Tampa Bay Rays no México.

Nuñez foi convidada a entrar no grupo no inverno por sua colega Andrea La Pointe, assistente de operações de uma liga menor para os Angels, e achou a experiência muito importante porque ela não tinha uma rede deste tipo antes.

“Eu não tinha ideia de que havia tantas mulheres”, afirmou. “Obviamente, não são suficientes, mas eu não sabia que eram tantas em relação aos números que temos agora. A outra única posição ocupada por mulheres, que eu vi, foi talvez a de treinadora de atletismo”.

Mas alguns obstáculos persistem

O momento de transição para o grupo, e para as mulheres no esporte em geral, ocorreu um ano atrás. Durante uma comemoração depois que os Houston Astros conseguiram participar das Séries Mundiais, Brandon Taubman, o assistente do gerente geral do time, gritou para um grupo de repórteres mulheres no clube: “Graças a Deus temos Osuna”, e acrescentou um palavrão.

Taubman referia-se a Roberto Osuna, jogador comprado pelos Astros em 2018 enquanto cumpria uma suspensão de 75 jogos por acusações de violência doméstica. Três dias depois que um artigo da revista Sports Illustrated publicou a explosão de Taubman, os Astros o demitiram. O grupo pegou fogo.

“Nós estávamos acostumadas a falar mais sobre o que as mulheres enfrentam em geral, em vez desse incidente específico, de modo que ninguém que pudesse ou não estar envolvido se sentisse obrigado a falar especificamente a este respeito, disse Jen. Ela sabia que outras mulheres do grupo poderiam ter conhecido ou trabalhado com Taubman.

Em geral, Jen - expressando os sentimentos de Melissa e Andrea - disse que a sua experiência de trabalho no beisebol foi extraordinariamente positiva.

Se não fosse, eu não estaria ainda aqui”, acrescentou. “Agora, não é algo perfeito. Pode melhorar”.

No início de sua carreira, Jen ficou pasma quando conheceu Kim Ng, que trabalha como assistente de gerente geral com os Los Angeles Dodgers e Yankees, e atualmente é vice-presidente sênior de MLB para operações com beisebol. Mais tarde, ela conheceu Raquel Ferreira e Jean Afterman, gerentes gerais assistentes dos Boston Red Sox e Yankees.

Encontrar bons exemplos para mulheres no beisebol era parte da razão pela qual Jen começou a corrente de mensagens de texto. Embora ela diga que espera ansiosamente o dia em que as mulheres no beisebol serão conhecidas por seus méritos, e não pelo gênero, Jen quer que jovens ou mulheres ouçam a história de Melissa e a vejam de uniforme no campo.

“Essas mulheres são incríveis, mas eu gostaria que fossem muitas mais”, afirmou. “Há muito tempos são sempre as mesmas. Precisamos de muitas outras”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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