Charlotte Kesl/The New York Times
Charlotte Kesl/The New York Times

Seria pickleball o passatempo perfeito durante a pandemia?

A apresentadora Ellen DeGeneres recentemente se declarou uma entusiasta do esporte, que mistura regras do tênis, do badminton e do pingue-pongue

Rachel Simon, The New York Times - Life/Style

23 de julho de 2020 | 11h47

Quando as ordens de distanciamento social atingiram Daytona Beach, na Flórida, em abril, os moradores do condomínio Latitude Margaritaville (uma das várias comunidades "55 e melhores" inspiradas na música de Jimmy Buffett) rapidamente reuniram os itens essenciais.

Havia máscaras, luvas e latas de comida, mas também raquetes. E bolas. E giz. Porque, embora a pandemia de coronavírus tenha colocado a vida normal em espera, nada impediria essas pessoas de jogar pickleball.

Inventado em 1965 por um deputado estadual de Washington e dois amigos, o pickleball - cujo nome vem do nome de um cocker spaniel que pertencia a um deles ou do barco a remo (pickle boat) usado pela equipe, dependendo a quem você pergunta - é uma mistura de tênis, badminton e pingue-pongue.

Para jogar, duas equipes (normalmente duas duplas) mandam a bola de um lado para outro em uma quadra pequena, separada por uma rede baixa. A primeira equipe a marcar 11 pontos, com uma diferença de pelo menos dois pontos, vence. O saque deve ser na diagonal e por baixo, a bola precisa pingar no outro lado da quadra antes de ser rebatida e os jogadores não podem acertá-la se estiverem em uma área próxima à rede, conhecida como "a cozinha" - mas esses são detalhes menores.

Por conta disso, há muito tempo esse esporte se tornou comum em salas de recreação de centros comunitários e em aulas de ginástica em escolas de ensino fundamental.

Nos últimos anos, a popularidade do passatempo aumentou. De acordo com o Relatório de Participantes do Pickleball, de 2019, da Associação da Indústria de Esportes e Fitness, há mais de 3,3 milhões de jogadores nos Estados Unidos, tornando-o um dos esportes que mais crescem no país.

E, graças à pandemia, em breve poderá haver muitos novos jogadores, ou "picklers", como gostam de se chamar os mais obsessivos. Nas entradas de garagem e coberturas de edifícios de todo o país, os jogadores estão montando quadras improvisadas, usando tinta temporária ou giz para desenhar linhas, montando redes com todo tipo de item disponível e fazendo com que todos da família participem da diversão.

A apresentadora de talk show Ellen DeGeneres disse recentemente que estava com dificuldade de andar porque estava jogado muito.

"Enquanto passamos por isso juntos e tentamos encontrar coisas para fazer em família ou em um pequeno grupo, esse é um esporte perfeito para praticar", comentou Tamara Baldanza Dekker, diretora de marketing da rede de condomínios Margaritaville, que tem quadras de pickleball em todas as unidades.

Para os pais, desesperados por novas maneiras de entreter os filhos (ou a eles mesmos), o pickleball pode ser uma dádiva divina. "É um jogo multigeracional para você brincar com seus filhos e para os avós brincarem com os netos. Agrada a todos", completou Dekker.

Annie Webb, de 55 anos, que trabalha com transcrição em St. Davids, na Pensilvânia, começou a jogar pickleball no ano passado e fica feliz em ter o esporte como opção durante o isolamento. "Encontrar outra atividade além das longas caminhadas com o cachorro, enquanto nossas quadras de tênis estão fechadas, foi bem legal."

Além de fazer você correr na quadra durante uma hora, o que já é um ótimo exercício, o pickleball, com suas raquetes leves e sua rede baixa, requer pouca habilidade ou pouco treino (embora seja jogado por profissionais em torneios semelhantes ao US Open todos os anos).

"Não há grande vantagem em bater na bola com mais força. É muito mais importante ter posicionamento e ritmo. Por conta disso, muitas pessoas acabam tendo as mesmas chances", disse Michael McLean, de 62 anos, morador do Latitude Margaritaville, que se autodenomina "um aficionado do pickleball".

Também há poucas regras de comportamento. "Não é como o tênis. Quando você vai a esses torneios, é uma festa! As pessoas interagem não apenas entre si, mas com os jogadores. É sério, mas é divertidamente sério", comentou Dekker.

Laura Gainor, de 37 anos, consultora de marketing da Associação de Pickleball dos EUA, que mora em Park Ridge, no Illinois, começou a praticar o esporte somente depois de conseguir seu emprego, mas ficou "imediatamente viciadíssima". Ela ensinou seus amigos e "pouco depois tínhamos um grupo de 40 pessoas que começou a jogar toda sexta-feira à noite".

Por causa dos fechamentos, reunir-se em uma quadra para beber e jogar um pouco de pickleball entre amigos não é uma possibilidade no momento. "A palavra-chave do pickleball é comunidade. Todos nós queremos muito jogar, mas precisamos ser pacientes", ressaltou Gainor.

Alguns jogadores regulares estão encontrando soluções alternativas para manter vivas suas competições amistosas. Em Margaritaville, muitos moradores apaixonados pelo pickleball e pelo distanciamento social usam luvas e máscara durante as partidas, cumprimentando-se com a raquete e não com as mãos, e encostando na bola o mínimo possível.

"Todo mundo entendeu que precisamos ser inteligentes, porque não queremos que nossas quadras sejam fechadas", disse Stuart Schultz, diretor de relações residenciais da comunidade em Margaritaville (e frequente parceiro de pickleball de McLean).

O fato de haver uma área de dois metros ao longo de cada lado da rede, na qual não se pode bater na bola, ajuda a manter os jogadores das equipes opostas confortavelmente separados. "É quase o jogo ideal do distanciamento social", comentou McLean.

É certo que nem mesmo as ações mais diligentes podem eliminar por completo a chance de infecção. "A bola é basicamente como uma placa de Petri, se você estiver jogando com um grande número de pessoas", observou Gainor. E, como 64% dos jogadores regulares têm 55 anos ou mais, de acordo com a Associação, a covid-19 representa um sério risco para os maiores fãs do pickleball - alguns dos quais estão ignorando as ordens governamentais de não sediar jogos com torcida, o que a deixa bastante preocupada.

O site da associação traz uma lista de dicas de segurança (além de anúncios de raquetes e outros equipamentos oficiais). "Queremos garantir que os jogadores estejam seguros, porque é um grupo tão apaixonado e é muito difícil não jogar pickleball", informou a consultora.

Para a maioria dos jogadores, jogar em casa somente com os amigos quarentenados é mais do que suficiente no momento. "Quando estou no quintal, batendo uma bola com meu marido ou com meus filhos, sinto que as coisas estão normais. Ou, pelo menos, temos a esperança de que elas voltem ao normal em breve", disse Webb.

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