Jonathan Zizzo / The New York Times
Jonathan Zizzo / The New York Times

Ele só queria jogar beisebol, mas ajudou a unir a comunidade em tempos difíceis

Um chamado nas redes sociais para jogar bola em Dallas atraiu um grupo variado de estranhos que encontraram uma forma de escapar da turbulência da pandemia

Mike Wilson, The New York Times - Life/Style

31 de janeiro de 2021 | 05h00

DALLAS – Durante alguns dias no início de janeiro, Frank Miller caminhou pela casa com uma bola de beisebol nas mãos, treinando diferentes tipos de arremesso. Tinha lido um livro sobre a arte do arremesso e agora estava obcecado.

Ele precisava jogar imediatamente. Então, sua esposa, Alice, que é mais adepta das redes sociais, postou no aplicativo Nextdoor, que reúne grupos de vizinhos: "Meu marido de 74 anos gostaria de encontrar um parceiro para jogar beisebol. Ele era arremessador no ensino médio e na universidade e está procurando alguém para jogar beisebol." Também comentou que o marido "está em boa forma".

Em um mundo virado de cabeça para baixo, a ideia de um homem na oitava década de vida em busca de um companheiro para jogar beisebol pareceu despertar alguma coisa nas pessoas. "Meu filho tem interesse", respondeu rapidamente uma mulher. Muitas mensagens chegaram na sequência.

"Sou arremessador", disse um homem.

"Posso ser o apanhador", respondeu outro.

"Que forma maravilhosa de unir as pessoas e começar bem 2021. Isso me fez sorrir", escreveu outro vizinho.

Ao confessar a própria necessidade, Frank inesperadamente despertou o desejo dos outros. Sem saber como reagir, Alice respondeu que todos que viessem seriam bem-vindos: "Que tal nos encontrarmos às 15h de quarta-feira no Cole Park, perto das quadras de tênis?". Eles se perguntaram se alguém realmente viria.

Não que Frank fosse ficar muito triste se ninguém viesse. Ele não é um homem ansioso por algo que nunca viveu. Engenheiro civil aposentado, joga golfe e tênis, passa os verões no Michigan, pilota um Piper Archer e verifica os itens de uma longa lista de desejos. Tem um filho, uma filha, um enteado e três netos. Sua vida é invejável.

Mas, como Jim Bouton escreveu no clássico livro Ball Four, muitas pessoas passam a vida com a bola na mão e só depois percebem que, "na verdade, sempre foi o contrário".

Frank Miller se apaixonou pelo esporte no início dos anos 1960, quando era arremessador da equipe do ensino médio, em Greenville, no estado de Nova York, e, depois, na equipe da Universidade Lehigh, na Pensilvânia. Ele pode descrever com clareza cinematográfica o grand slam que fez em maio do seu primeiro ano, quando ainda era calouro – além de mostrar a bola, que ele guarda em uma caixa com a etiqueta "memorabilia".

Ele transmitiu seu entusiasmo a Alice, sua terceira esposa, que não entendia nada de beisebol quando os dois se conheceram, há dez anos. "Frank me apresentou às complexidades do jogo", disse ela, esforçando-se para não parecer que foi forçada a gostar do jogo.

Ambos ficaram surpresos com as reações ao post de Alice no Nextdoor, mas, quando pararam para pensar, acharam que aquilo fazia sentido. Entre a maldição da política ("Perdi amigos", contou Frank) e a da pandemia, as pessoas estão irritadas, assustadas e solitárias. "Acho que todo mundo quer se reconectar um pouco agora", afirmou alguns dias antes do encontro no parque.

Naquela quarta-feira, ele e Alice foram cedo para o Cole Park. Frank usava uma máscara verde limão, calças jeans, uniforme e boné dos Texas Rangers. Na bolsa preta, levava sua luva Nokona (o presente de natal de 2019, que ele mal tinha usado), quatro bolas novas, lisas como cascas de ovo, duas bolas velhas e uma luva de apanhador Hawthorne que comprou seis décadas atrás, em Montgomery Ward. Naquela manhã, ele havia usado um pouco de cola instantânea para fechar um buraco no polegar da luva.

Um repórter da TV local tinha visto a postagem feita por Alice e esperava pelo casal em um banco do parque. Frank brincou com ele a respeito de suas prioridades. "Você sabia que tem um presidente sofrendo impeachment neste momento?", disse, rindo. De fato, naquele momento em Washington, os membros da câmara dos deputados falavam seriamente sobre inimigos nacionais e internacionais.

Um a um, entrando no parque de todas as direções, cerca de mais dez pessoas chegaram, muitas com uma luva de apanhador debaixo do braço. Um homem barbudo de 30 e poucos anos. Três meninos da equipe da North Dallas High School e o treinador que os tinha encorajado a vir. Um senhor que vestia uma camiseta com os dizeres: "Alasca – A Grande Terra". Uma mulher de 60 e poucos anos que tinha vindo só para assistir.

Os jogadores se cumprimentaram e tocaram os cotovelos. Em seguida, formaram duas filas, um de frente para o outro no espaço ensolarado entre os carvalhos. O barulho das bolas de tênis nas quadras vizinhas se juntou ao ritmo lento e constante das bolas batendo nas luvas, como as últimas pipocas que estouram no forno de micro-ondas.

Os arremessos de Frank, que tem 74 anos, estavam mais curtos que de costume, mas ele ainda conseguia jogar com uma força impressionante. Um de seus arremessos escapou da luva de um senhor, que saiu correndo atrás da bola, jogou-a cambaleante de volta para Frank e deu de ombros.

O senhor era Rich Mazzarella, de 73 anos, que cresceu em Astoria, no Queens, torcendo pelos New York Yankees e participando de uma longa lista de ligas juvenis. Ele não jogava bola havia 35 anos e – isso é muito triste, mas fatos são fatos – tinha dado suas luvas de beisebol para os netos fazia muito tempo. Teve de pedir a Frank a luva de apanhador emprestada.

Perguntaram a Mazzarella por que ele havia ido até lá. "Fonte da juventude. A oportunidade de fazer algo que nunca mais imaginei voltar a fazer na minha vida", respondeu.

Ele assumiu sua melhor pose de apanhador (com as pernas um pouco elevadas) e apanhou mais alguns arremessos de Frank. A soma da idade dos dois dá praticamente a idade do beisebol.

Pouco depois, fizeram uma pausa, com os braços trêmulos de cansaço, mas o programa tinha ganhado vida própria. A poucos metros, dois desconhecidos, apesar dos 46 anos de diferença de idade, jogavam a bola de um lado para o outro.

Chris Barber, de 26 anos, que foi incentivado pela mãe a ir ao encontro, chegou ao parque em um momento de incerteza. Está sem trabalho e à procura de emprego, com vontade de se mudar para a Califórnia para encontrar seu rumo. Seu colega de arremesso, David Boldrick, é um engenheiro mecânico de 72 anos, feliz e bem estabelecido, aproveitando os últimos momentos de sua carreira profissional.

Não é fácil imaginar outro cenário em que essas duas pessoas poderiam ter se encontrado e conversado, mas a conexão foi fácil aqui, com a trajetória da bola os unindo como uma corda.

Boldrick perguntou a Barber sobre a Califórnia: "Você já arranjou um emprego por lá?"

"Ainda não."

"Que tipo de trabalho você está procurando?"

"Não faço ideia."

Pouco depois, os dois pararam de jogar e começaram a bater papo. Barber comentou que era formado em Química. "Com isso, você consegue trabalhar com qualquer coisa", garantiu Boldrick.

Os dois jogaram por uma hora sob um sol típico de época de primavera. Por fim, com os braços doloridos e com a tarde caindo, aproximaram-se, anotaram o nome no caderninho que Frank trouxera e prometeram se encontrar novamente em breve.

Depois de se despedirem, Frank afirmou para si, mas em voz alta: "O beisebol não é lindo? É uma obra de arte!"

Era hora de ir embora. Os Miller tinham hora marcada para tomar a vacina contra o coronavírus. Frank abraçou Alice e os dois caminharam, satisfeitos por terem colocado um pouco de cola instantânea no universo.

The New York Times Licensing Group – Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times.

Tudo o que sabemos sobre:
beisebolcoronavírus

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.