Ashley Landis/AP Photo
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O estranho, perturbador (e reconfortante) retorno dos esportes profissionais

Os esportes vêm refletindo muito da inquietante surrealidade que encontramos fora das quatro linhas

Dan Barry, The New York Times - Life/Style

21 de agosto de 2020 | 05h00

Finalmente, a gente pensava: esportes!

Depois de meses vivendo num estado de pavor paralítico, poderíamos mais uma vez encontrar distração num salto, num chute, num arremesso. Poderíamos deixar de lado nossos medos e ansiedades - nossa tristeza - para nos concentrar em questões não mais urgentes do que um homem perdendo por dois pontos pouco antes do fim do jogo.

Claro, a pandemia manteria nossa exuberante torcida sob controle. Ainda não poderíamos sentar frente a frente no estádio, cuspindo a cada lance palavras, salsichas e sabe-se lá mais o quê. Ou vaiando - pessoalmente! - o Houston Astros pela trapaça que manchou para sempre o campeonato de 2017. Ou tendo a honra de pagar US$ 11 por uma cerveja no Citi Field.

Mas pelo menos teríamos os esportes de volta, a uma distância segura. Poderíamos pegar uma gelada e nos ajeitar no sofá e nos esquecer de nós mesmos vendo na TV um jogo de extrema e maravilhosa desimportância.

Bastaria ter o talento de certos líderes para o pensamento mágico!

Esses truques da mente nos permitiriam ver o que há de cômico em toda essa distopia - o barulho pré-gravado da torcida, os bonecos de papelão no lugar das pessoas nas arquibancadas - sem pensar muito nas implicações para a saúde dos atletas, sem encanar muito com questões do tipo: será que está tudo bem mesmo?

Não há dúvida de que os esportes têm proporcionado alguma diversão desde que voltaram às nossas vidas. Aquela enterrada do Anthony Davis, do Los Angeles Lakers. Aquele tiro de três pontos de Sabrina Ionescu, do New York Liberty. Aquela tacada lá do outro bairro de Dustin Johnson. Aquele par de home runs de Aaron Judge, do New York Yankees.

Também não há dúvida de que o basquete, em particular, insiste para que não nos esqueçamos de questões ainda maiores do que o contágio. As jogadoras da WNBA dedicaram a temporada a Breonna Taylor, profissional de saúde negra que foi morta pela polícia durante a execução de um mandado de prisão preventiva em Louisville, Kentucky. E os jogadores da NBA estão vestindo camisetas com palavras de ordem. Black Lives Matter. Igualdade. Justiça. Vote.

Mesmo assim, nosso pacote de canais a cabo esportivos para o verão de 2020 está com uma programação E&P: Estranha e Perturbadora.

Lembra quando uma pomba alçou voo sobre um campo de beisebol em 2001 - assim que Randy Johnson soltou uma de suas bolas rápidas a 160 km/h? A bola encontrou o pássaro, o pássaro deixou de viver.

Ou quando Rocky, mascote do Denver Nuggets, desmaiou enquanto era baixado das vigas do estádio, naquela façanha meio exagerada em 2013? Depois ele se recuperou, mas não antes de descer, aparentemente sem vida, até o chão.

Bom, multiplique o pássaro explodindo e o mascote inconsciente por mil. Nem assim você chegará perto da alucinante estranheza do mundo dos esportes de 2020.

Para começar, o hóquei e o basquete não deveriam estar “em plena temporada” em agosto. Nem seus jogos deveriam ser jogados debaixo de uma bolha biológica (mantenha uma distância social segura da bolha biológica de ‘Malucos por Natureza’, a “comédia” de Pauly Shore de 1996).

É preciso dizer que esses eventos restritos para os candidatos aos playoffs têm seus encantos. Eles permitiram, por exemplo, que os jogos fossem disputados em estado de pureza: sem canhões lançando camisetas, sem salada de frutos do mar, sem os New York Knicks.

Em última análise, porém, os esportes muitas vezes vêm refletindo toda a inquietante surrealidade que continua sendo vivida fora das quatro linhas.

Vejamos, por exemplo, os bancos de reservas na “bolha” da Flórida onde os jogos da NBA estão sendo realizados e onde os jogadores são periodicamente testados antes de competir. Cada equipe conta com três fileiras de cadeiras separadas por um espaço considerável. Os jogadores que não estão no jogo costumam usar máscara. E têm até suas próprias estações de Gatorade para evitar o compartilhamento de bebidas.

Mas aí, com um sinal do treinador, eles entram na quadra para marcar “homem a homem”, suando e baforando em cima de seus oponentes como se fosse 2019 - velhos tempos.

Testemunhando tudo isso, virtualmente, os torcedores utilizam um certo aplicativo que possibilita que suas imagens sejam projetadas na arquibancada. Mas não há uniformidade no tamanho dessas imagens, então fica parecendo que tem uns Humpty-Dumpty torcendo ao lado de gente com proporções normais.

Quando você vê uma cena dessas, não consegue mais "des-ver".

O esforço para suspender a descrença é ainda mais difícil quando se trata de beisebol.

Alguns estádios vazios dispensam o fingimento. No Nationals Park em Washington, D.C., os telespectadores ficam diante de um fundo azul de assentos vazios com o logotipo da Delta Air Lines, como que para nos lembrar de uma época em que as pessoas realmente voavam para algum destino - em que as pessoas realmente TINHAM algum destino.

Enquanto isso, o Citi Field encheu os assentos com recortes de papelão de torcedores do New York Mets que doaram para a caridade a quantia de US$ 86. Talvez seja uma referência ao último campeonato mundial da equipe - 34 longos anos atrás - ou um sinal de que a peste deste ano também precisa ficar no passado distante.

Assistindo a uma transmissão de beisebol, você pode ser levado a pensar que nada mudou, uma ilusão alimentada, pelo menos em parte, pelo barulho da multidão que ressoa ao fundo. Mas aí vêm os momentos que dão aquele frio na espinha.

Há algumas semanas, vinte pessoas ligadas ao Miami Marlins (entre elas dezoito jogadores) e treze pessoas do St. Louis Cardinals (sete jogadores) testaram positivo para covid-19. Mais do que simplesmente interromper a agenda de uma temporada truncada, esses testes positivos levantaram uma questão extremamente desconfortável:

Será que vale a pena?

Um dia desses, o outfielder do Mets, Yoenis Cespedes, não apareceu para um jogo, uma aberração não totalmente estranha tanto a Cespedes quanto ao Mets. Primeiro veio a ridicularização. Depois veio a preocupação (será que ele está bem?). Aí veio a notícia de que ele havia optado por sair da temporada de 2020 por causa do coronavírus.

Os céticos podem revirar os olhos. Podem lembrar que Cespedes estava rebatendo apenas 0,161. Podem dizer que ele abandonou seus companheiros de equipe. Podem murmurar que, como ele ficará livre de contrato no final da temporada, isso não passa de uma jogada de negócios.

Mas também podemos erguer nossas bebidas geladas num brinde a Cespedes por tomar uma decisão que pareceu certa para ele - e, então, nos ajeitar no sofá e tentar, em vão, ficar à vontade vendo os outros jogarem bola no meio da nossa dor coletiva. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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