Estádios vazios provam a importância de torcedores no entretenimento

Estádios vazios provam a importância de torcedores no entretenimento

A pandemia tirou das arenas sua utilidade fundamental – reunir milhares de pessoas – e acelerou um futuro estranho e apocalíptico para a mídia

Kevin Draper, The New York Times - Life/Style

13 de setembro de 2020 | 05h00

Os jogos foram embora e depois voltaram às arenas vazias nesses últimos cinco meses de pandemia do coronavírus, empurrando os torcedores cada vez mais para o escanteio dos esportes profissionais. E, no entanto, aconteceu uma coisa engraçada: pela primeira vez, o verdadeiro valor dos espectadores ao vivo ficou bastante claro. Eles não são só as centenas de dólares que gastam nos ingressos, na comida e no estacionamento.

Eles são coadjuvantes fundamentais no pano de fundo de uma proposta de entretenimento que, nos últimos anos, vem se enquadrando cada vez mais a torcedores que assistem pela televisão, pelos telefones celulares ou por outros dispositivos. Sem uma multidão lotando os eventos para torcer pessoalmente – coletivamente – os esportes profissionais não perdem apenas o entusiasmo. Perdem o sentido.

Os grand slams disputados agora têm a mesma aposta emocional que um torneio amador. Os lutadores do UFC já não ouvem nenhuma reação quando pulam para o alto da gaiola depois do nocaute, então eles nem tentam. As buzinas de um time que está tentando chegar aos playoffs só conseguem gerar uma atmosfera de carros zunindo numa rodovia distante.

“Assim como o coronavírus revelou como são mal pagos e pouco reconhecidos os empregos de pessoas como enfermeiras e funcionários de mercearias, acho que agora o vírus também está revelando o valor até então subestimado que a torcida traz para a equação esportiva”, disse Mack Hagood, professor de estudos de mídia da Universidade de Miami, em Ohio, que estudou o efeito dos torcedores do Seattle Seahawks sobre o time.

No século passado, a economia dos esportes passou de um negócio de eventos ao vivo para um negócio de mídia. A crise de saúde pública tirou dos estádios e arenas sua utilidade fundamental – reunir milhares de pessoas – e acelerou um futuro estranho e apocalíptico para a mídia: transmissões esportivas com áudio falso, fornecido por empresas de videogame, e torcedores de papelão ou virtuais nas arquibancadas.

Supondo que os torcedores voltem algum dia, a mudança de seu papel deve ser um dos efeitos duradouros da crise do coronavírus, reorientando a maneira como são vistos pelos times e ligas que lucram com sua presença. São os milhares de torcedores no estádio lotado que criam a atmosfera e contribuem para um entretenimento que vale bilhões para as ligas. Rich Luker, psicólogo social que estuda as torcidas esportivas, descreveu uma descoberta da Major League Baseball Advanced Media, o braço de mídia e tecnologia da liga de beisebol dos EUA conhecido como BAM, o qual, entre outras coisas, fornece os melhores momentos dos jogos on-line.

Quando o BAM olhou para as jogadas mais vistas a cada noite, “eles ficaram surpresos com a quantidade delas que mostrava não o que os jogadores faziam, mas o que os torcedores estavam fazendo nas arquibancadas”, disse Luker. A mãe que salva seu filho de uma bola extraviada. Dancinhas entre estranhos em lados opostos de uma arena da NBA.

Uma trombada no estilo Os Três Patetas. Os torcedores que estão em casa querem ver esses momentos tanto quanto qualquer home run incrível. “Isso legitima a experiência”, disse Travis Vogan, professor da Universidade de Iowa que estuda mídia esportiva. “Você está conectado com essas pessoas que estão mais próximas do evento”.

Os produtores de televisão esportiva se apegam a essa ideia. Eles mostram closes de pessoas atraentes nas arquibancadas, ou de torcedores com o corpo todo pintado. Eles usam vistas aéreas de um dirigível Goodyear para mostrar a casa cheia, reforçando a noção de que não há nada como estar dentro do estádio.

Os próprios eventos se transformaram em espetáculos de entretenimento, com corridas de mascotes, shows no intervalo, telões gigantescos e inúmeras atividades que pouco têm a ver com os jogos. Até mesmo um século atrás, os esportes transmitidos já incorporavam um gostinho especial para os torcedores que sintonizavam de casa, às vezes distorcendo a verdade em prol da emoção.

Quando o beisebol começou a ser transmitido pelas ondas do rádio, no início dos anos 1920, era muito caro para as estações cobrirem os jogos em outras cidades. Então, elas recebiam informações passo a passo por telegrama, e os locutores iam pegando as informações básicas e meio que inventando o que acontecia.

Eles criavam efeitos sonoros batendo em blocos de madeira. De certa forma, o que você ouve quando está assistindo a uma transmissão esportiva moderna é fabricado de forma semelhante, produto de dezenas de microfones e da decisão do engenheiro de som que calibra seus níveis de volume. Os gritos de uma torcida pequena podem ser amplificados para fazer com que o estádio pareça lotado.

Microfones nas ombreiras dos atacantes captam os sons, como naquela vez em que o quarterback Peyton Manning gritou “Omaha” repetidamente. A torcida faz com que o jogo televisionado pareça real. “Independentemente da pandemia, uma das regras fundamentais da transmissão esportiva é criar uma atmosfera”, disse John Entz, ex-presidente de produção da Fox Sports. “Não tem nada melhor do que uma arquibancada lotada, torcendo e compondo um belo fundo de áudio natural”.

Os torcedores que não podem assistir ao jogo no estádio fazem de tudo para recriar a experiência. Assistem em bares de esportes e convidam amigos para as partidas decisivas. Vestem a camisa da equipe e falam sobre os lances no Twitter e nos grupos de mensagem de texto. E, quando estão vendo o jogo, eles se identificam com os torcedores que estão nas arquibancadas. Antes de virar presidente da ABC Sports, Roone Arledge, o pai da radiodifusão esportiva moderna, produzia jogos quase vazios da American Football League na década de 1960.

Depois que o punter chutava a bola para longe, Arledge mandava a câmera cortar diretamente para o jogador que iria agarrá-la, em vez de seguir o arco da bola de futebol no ar. Ele sabia que, se os torcedores vissem os lugares vazios, não ficariam tão imersos no jogo. Assim que as transmissões esportivas começaram a render algum dinheiro, as necessidades da produção de televisão começaram a ultrapassar as dos torcedores.

Em 1958, a NFL criou o tempo da TV, quebrando as regras do jogo para dar às emissoras um intervalo para passar comerciais. O tempo entre um touchdown e o reinício da partida também foi alongado por causa das propagandas. A experiência dos esportes ao vivo foi se degradando de outras maneiras. Os torcedores são explorados por meio de ingressos caros, preços de comida e bebida abusivos e taxas de estacionamento exorbitantes.

Os torcedores de futebol precisam pagar uma taxa – eufemisticamente chamada de “licença de assento pessoal” – pelo privilégio de pagar ainda mais para comprar ingressos para a temporada. A alternativa dos esportes sem torcida trouxe algumas inovações na apresentação, como a NBA reimaginando a aparência das quadras de basquete e a Major League Soccer usando drones para filmar os jogos. Mas a maior parte dessa inovação foi apenas incremental.

“Muitas das coisas que você está vendo no ar vêm sendo trabalhadas há muitos anos”, disse Brad Zager, chefe de produção da Fox Sports. “A coisa só acelerou”. A indústria do esporte trabalhou muito para fazer com que os jogos que vêm acontecendo nas circunstâncias mais anormais pareçam os mais normais possíveis. As arquibancadas estão cheias de bonecos e recortes de papelão, e a Fox até fez experiências com torcedores gerados por computador.

Não existem mais tomadas que mostravam a torcida e os ângulos da câmera estão mais focados nos jogadores. Empresas de videogames, como a Electronic Arts, foram recrutadas para emprestar suas bibliotecas de áudio. Em 2000, a CBS foi criticada por adicionar sons artificiais de pássaros à sua transmissão de um torneio de golfe e prometeu deixar de fazê-lo. Vinte anos depois, quase tudo é artificial.

E, por mais que os produtores tentem convencer os telespectadores de que tudo está normal, bastam alguns minutos para que o artifício se revele, inevitavelmente. Sem torcedores nas arquibancadas, é difícil achar que o jogo ainda faz sentido. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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