Julio Manuel Vidal Encinas, via The New York Times
Julio Manuel Vidal Encinas, via The New York Times

Esqueletos contam a pré-história da Península Ibérica

Material genético de povos antigos revela ondas de imigração ao longo de 35 mil anos

Carl Zimmer, The New York Times

25 de março de 2019 | 06h00

Durante milhares de anos, a Península Ibérica - atualmente lar de Espanha e Portugal - serviu como encruzilhada. Fenícios do Oriente Próximo construíram portos comerciais 3 mil anos atrás, e os romanos conquistaram a região mais ou menos em 200 a.C. Exércitos muçulmanos do Norte da África assumiram o controle no século 8º. Três séculos depois, começaram a perder território para estados cristãos.

Além de registros históricos e escavações arqueológicas, os pesquisadores agora estão extraindo material genético que não corresponde somente à história conhecida da Ibéria, mas também à sua pré-história.

"Queríamos encontrar uma continuidade entre as populações antigas e modernas", disse o geneticista Iñigo Olalde, da Faculdade de Medicina de Harvard, e autor de um estudo publicado na revista Science analisando o DNA de 271 habitantes ibéricos antigos.

Nos últimos anos, os cientistas criaram cronologias semelhantes para continentes inteiros com base em amostras de DNA. Agora, os pesquisadores estão se concentrando em regiões menores.

O perfil genético ibérico mudou como resposta a acontecimentos importantes, como a conquista romana. Os pesquisadores encontraram também evidências de imigrações anteriores e até então desconhecidas.

A mais antiga amostra conhecida de DNA humano encontrada na Ibéria vem de um esqueleto de 19 mil anos atrás encontrado no norte da Espanha. Os ossos pertenciam a um caçador-coletor da Era do Gelo. Olalde e seus colegas do Instituto Max Planck, na Alemanha, descobriram que os caçadores-coletores ibéricos são descendentes de dois grupos distintos de antigos caçadores-coletores europeus.

Um desses grupos remonta a 35 mil anos atrás, descoberto graças a um esqueleto descoberto num sítio da Bélgica chamado Goyet. O povo de Goyet se espalhou pela Europa, mas foi substituído em boa parte do continente ao fim da Era do Gelo. Os primeiros sinais do segundo grupo surgem 14 mil anos atrás, observados no DNA de um esqueleto encontrado em um sítio italiano chamado Villabruna.

Mas os novos estudos mostram que, na Ibéria, os povos de Goyet e Villabruna coexistiram. Os caçadores-coletores encontrados ali apresentavam uma mistura de traços de ambos os povos.

Cerca de 7.500 anos atrás, pessoas vindas originalmente da Anatólia chegaram trazendo animais domesticados e gêneros cultivados. Noventa por cento do DNA dos esqueletos posteriores são derivados dos agricultores da Anatólia.

Outra onda chegou cerca de 4.500 anos atrás. Alguns séculos depois, nômades da região que hoje é a Rússia chegaram à Europa Oriental com cavalos e carroças. Eles se espalharam pelo continente, abandonando o estilo de vida nômade e casando-se com agricultores europeus. Quando chegaram à Ibéria, espalharam-se muito. Entre os ibéricos da Idade do Bronze, aproximadamente 40% de sua ancestralidade remetiam aos recém-chegados.

Cerca de 2.800 anos atrás, os ibéricos da Idade do Ferro tinham parte de sua ancestralidade ligada a povos vindos do norte e do centro da Europa. Os cientistas encontraram também um crescente número de esqueletos de ascendência norte-africana da Idade do Ferro.

A ascendência norte-africana se torna mais comum com a chegada dos romanos. A península era parte de um império que sobrevivia do comércio. Ao mesmo tempo, povos do sul da Europa e do Oriente Próximo começaram a deixar sua marca. Após a queda de Roma, os esqueletos da era muçulmana mostram cada vez mais a ascendência norte-africana e subsaariana.

Tudo isso nos traz ao presente. Em fevereiro, Clare Bycroft, da Universidade de Oxford, e sua equipe reuniram os espanhóis em cinco grupos genéticos. Em um mapa, esses grupos formam cinco faixas seguindo de norte a sul.

No auge do governo muçulmano, alguns pequenos estados cristãos sobreviviam no litoral norte da Espanha. Conforme os muçulmanos perderam poder, esses estados expandiram suas fronteiras ao sul, processo iniciado aproximadamente 900 anos atrás.

Até agora, grandes períodos de tempo separavam os estudos genéticos dos povos contemporâneos e do DNA de povos da antiguidade e pré-história. Agora, em lugares como a Ibéria, as lacunas vão sendo preenchidas, criando uma cronologia genética contínua.

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