Benjamin Noorman The New York Times
Benjamin Noorman The New York Times

Essa empresa familiar dos EUA guarda um segredo atômico

Desde a pandemia, a Plaxall passou a produzir protetores faciais médicos. Não é a primeira vez que a empresa familiar cumpre seu dever patriótico

Kaya Laterman, The New York Times - Life/Style

23 de setembro de 2020 | 05h00

É raro, hoje em dia, ser um pequeno industrial bem-sucedido na cidade de Nova York. E talvez ainda mais raro uma empresa familiar adequar suas operações repetidas vezes em momentos de emergência nacional - inclusive participar de um misterioso contrato militar, que redefiniu a guerra moderna.

A Plaxall, uma companhia de embalagens de plástico familiar, opera em uma fábrica em uma parte industrial da cidade de Long Island, Queens, há 70 anos. Comumente, ela produz contêineres para lixo médico, bandejas para sobremesa e embalagens de perfumes e de bebidas alcoólicas que reproduzem a forma dos fascos. Mas durante a escassez de equipamentos de proteção pessoal, a Plaxall passou a produzir escudos faciais para uso médico. Desde abril, foram 100 mil.

“Ao longo dos anos, muitas pessoas nos perguntaram por que continuávamos com a indústria na cidade de Nova York”, contou Matthew Quigley, um dos três primos que administram a Plaxall. Quando a crise de saúde pública eclodiu, ele disse que pensaram: “Talvez este seja o motivo pelo qual aguentamos por tanto tempo. Este é o nosso momento, mais uma vez”.

Quigley referia-se ao fato de que seu avô, um engenheiro chamado Louis Pfohl, o fundador da Plaxall, era conhecido por aplicar suas habilidades de maneira única, principalmente durante as emergências nacionais, algumas mais clandestinas do que outras. Durante a Segunda Guerra Mundial, Pfohl tinha uma empresa de design industrial em Manhattan, chamada Design Center Inc.

O governo federal o procurou para produzir réplicas de plástico de aviões americanos, alemães, russos e japoneses para que pessoas civis e militares tivessem mais chance de identificá-los durante as incursões aéreas. Ele fazia também globos de plástico que os pilotos de combate usariam para fazer gráficos da rota durante o treinamento. Os membros da família não têm ideia de quantos aviões de plástico o avô fez, ou para quem foram distribuídos.

Mas muitos deles lembram que brincavam com os aviões quando eram crianças em Forest Hill, Queens, disse Tony Pfohl, um dos três primos da Plaxall. As esferas de plástico fabricadas por pressão que eram usadas pelos pilotos provavelmente tornaram-se protótipos de enfeites natalinos.

Depois da Guerra, os enfeites dourados e prateados que pareciam globos para treinamento de voo podiam ser vistos na árvore de Natal do Rockefeller Center dos anos 1940 aos 1960, disse Paula Kirby, outra prima e diretora da companhia. Como muitas outras pequenas companhias da cidade, a Design Center Inc. foi muito importante na época da guerra no esforço industrial do país, disse Kenneth Jackson, professor de história e ciências sociais da Columbia University.

Enquanto o Estaleiro Naval da Marinha no Brooklyn e os estaleiros Todd em Red Hook construíam e reparavam navios, muitos outros bens eram fabricados por pequenas indústrias, como a Brooks Brothers, cujos funcionários costuraram milhares de uniformes para o Exército e a Pfizer, que intensificou a sua produção de penicilina, contou Jackson, também autor do livro WWII & NYC.) “É notável que uma pequena fábrica de plásticos tenha sobrevivido na cidade todo este tempo e tenha condições de contribuir ainda”, afirmou Jackson.

E preciso notar que parte do sucesso da Plaxall é a sua carteira diversificada. Ao chegar a Long Island City, em 1950, Louis Pfohl começou a investir em imóveis locais. As propriedades da família agora incluem perto de 929 mil metros quadrados. (A família também obteria ganhos financeiros significativos se a Amazon decidisse construir sua próxima sede em Queens Oeste) Antes de morrer, em 1986, Louis Pfohl que era também um observador de aviões, participou de um último ato no final da guerra.

E este, segundo os primos da Plaxall, envolveu certa intriga. No verão de 1944, Pfohl recebeu um telefonema de alguém no governo, convidando-o a ir a Buffalo, estado de Nova York. Lá, ele se reuniu ao redor de uma mesa enorme com “gente do Exército e cientistas”, contou ao jornal The New York Herald Tribune, em agosto de 1945.

A reunião foi revelada mais tarde como um encontro sigiloso para o Projeto Manhattan, a iniciativa do governo que levou à construção da primeira bomba atômica do mundo. Quigley lembrou ter ouvido dizer de “dois homens de terno” que visitaram o avô. Este teria falado que não poderia fazer o que eles queriam por não dispor do maquinário adequado. “Dias mais tarde, estes dois enormes tornos apareceram na porta da fábrica”, lembra Quigley.

Recentemente, os primos da Plaxall encontraram cartas e telegramas dos arquivos da companhia, que são guardados na maior parte em um velho escritório empoeirado depois da passarela, acima da oficina da fábrica. Alguns documentos destacam as dimensões do globo de treinamento do piloto. Muitos outros são da Fredric Flader Inc; uma empresa de engenharia de Buffalo, contratada para trabalhar no Projeto Manhattan, e que por sua vez contratou Louis Pfohl como subempreiteiro.

Uma carta era acompanhada por um esboço do item que Pfohl foi encarregado de fazer para o projeto supersecreto: um cone piramidal de cinco lados. Um telegrama de Fredric Flader posteriormente pedia discrição a Pfohl: “Conversa inconsequente e especulações ociosas de pessoas, hoje ou anteriormente relacionadas ao projeto, põem em risco a segurança da nação e deverão ser evitadas”.

Os tornos que apareceram na porta de Pfohl estão armazenados na oficina de máquinas do porão, e nos fazem voltar a outra era. Entre as aparas de metal no piso de blocos de madeira (para absorver as vibrações e abafar o barulho de ferramentas de metal que caem), os funcionários continuam encontrando peças e máquinas de décadas atrás, que hoje ajudam a fabricar modernos produtos de plástico. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

The New York Times Licensing Group - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.