Ulet Ifansasti para The New York Times
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Contra avanço do EI, Indonésia adota programa de 'desradicalização infantil'

'Há milhares de crianças vulneráveis que foram doutrinadas por pais extremistas', diz Khairul Ghazali, que passou cinco anos preso por crimes relacionados ao terrorismo

Hannah Beech e Muktita Suhartono, The New York Times

24 de outubro de 2019 | 06h00

MEDAN, INDONÉSIA - Ais gosta de dançar. Ela tem covinhas encantadoras. Mas seus pais não queriam que a filha dançasse. Também não queriam que ela cantasse. Eles queriam que ela morresse com eles pela sua causa. No ano passado, quando tinha sete anos, Ais subiu em uma moto e ficou espremida entre a mãe e o irmão. Eles carregavam um pacote que, segundo Ais, era arroz de coco enrolado em folhas de bananeira. Seu pai e outro irmão estavam com outro pacote na sua motocicleta.

Dirigiram a toda velocidade contra um posto policial na cidade indonésia de Surabaya, onde vivem pessoas de vários credos. Os pacotes eram bombas, e explodiram no portão da delegacia. Catapultada da moto pela violência da explosão, Ais levantou do chão como um fantasma. Todos os outros membros da família morreram. Nenhum dos presentes foi atingido. O Estado Islâmico assumiu a responsabilidade pelo atentado.

Ais, que identificamos pelo apelido, agora faz parte de um programa de desradicalização para crianças mantido pelo Ministério de Assuntos Sociais da Indonésia. Em um complexo arborizado da capital, Jacarta, ela dança ao som de uma música cantada por Taylor Swift, lê o Alcorão e brinca com jogos que aumentam a confiança.

Entre os seus colegas de escola há filhos de outros terroristas suicidas, e de pessoas que pretendiam aderir ao EI na Síria. Os esforços da Indonésia, onde vive a maior população muçulmana do mundo, para limpar a sua sociedade deste extremismo de cunho religioso, estão sendo observados atentamente pela comunidade de combate ao terrorismo.

Embora a maioria dos indonésios siga uma forma moderada de Islamismo, uma série de atentados abalou a nação, inclusive, em 2016, a primeira da região reivindicada pelo Estado Islâmico. Centenas de indonésios foram para a Síria para combatem pelo EI. Em maio, sete homens que haviam retornado foram presos, segundo a polícia, por fazerem parte de um complô com o objetivo de usar o Wi-Fi para detonar artefatos explosivos.

Os riscos não se limitam àqueles que regressam. Indonésios que nunca saíram da região também estão sendo influenciados pelo EI. Há milhares de crianças vulneráveis que foram doutrinadas por pais extremistas, afirma Khairul Ghazali, que passou cerca de cinco anos na cadeia por crimes relacionados ao terrorismo. Ele disse que renunciou à violência na prisão, e agora tem uma escola islâmica na cidade de Medan, na ilha de Sumatra, inspirada ema sua experiência de ex-extremista para desradicalizar os filhos de militantes.

“Nós ensinamos que o Islã é uma religião pacífica e que a jihad quer construir e não destruir”, explicou Khairul. Apesar da escala do problema no país, apenas 100 crianças participam dos programas de desradicalização formal na Indonésia, segundo Khairul. A sua madrasta, a única na Indonésia que recebe considerável apoio oficial para o trabalho de desradicalização, pode ensinar apenas 25 crianças parentes de militantes de cada vez, e somente até o secundário.

O governo proporciona um mínimo de seguimento a esta iniciativa. “As crianças não são acompanhadas e monitoradas quando saem daqui”, disse Alto Labetubun, analista do terrorismo. Os pais de cerca da metade dos alunos que estão sob os cuidados de Khairul, foram mortos em conflitos armados com a polícia de combate ao terrorismo. “É natural que as crianças queiram vingar a morte dos pais”, ele disse. “Elas foram ensinadas a odiar o Estado indonésio porque é contrário ao califado”.

Quando Ais e seis outras crianças chegaram à escola de Surabaya, não queriam ouvir música e não queriam desenhar imagens de coisas vivas, porque acreditavam que isto era contrário ao Islã, disseram os assistentes sociais. Elas ficaram horrorizados com a dança.

Mas recentemente, as crianças trabalharam em exercícios destinados à criação de equipes. Durante a aula de árabe, eles se contorciam. E passaram a desenhar a figura humana que antes consideravam tabu. Dentro em breve, estes filhos de terroristas suicidas terão de deixar o programa. Não se sabe para onde irão.

“Passamos o tempo todo trabalhando com eles, mas se regressarem ao lugar onde viviam antes, o radicalismo voltará muito rapidamente nos seus corações,“disse Sri Musfiah, uma assistente social sênior. “Isto me preocupa”. A maioria dos filhos dos cerca de mil cidadãos que foram condenados por crimes relacionados ao terrorismo na Indonésia sequer tem a chance de se beneficiar desta iniciativa para a sua educação e moderação.

Na madrasa de Khairul, em Medan, um dia, alguns meninos expuseram suas opiniões. Dan concordou com os colegas que a Indonésia devia ser um Estado islâmico. E as igrejas que em Medan estão ao lado das mesquitas? Dan, que também é identificado por um apelido, deu uma risadinha. Suas mãos imitaram o choque de uma explosão, ele formou uma palavra, “Bomba”. E parou de rir. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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