Jes Aznar para The New York Times
Jes Aznar para The New York Times

Estado Islâmico reforça ataques violentos nas Filipinas

Governo do país tenta derrubar investidas de grupo extremista islâmico, que segue recrutando combatentes

Hannah Beech e Jason Gutierrez, The New York Times

14 de março de 2019 | 06h00

BASILAN, FILIPINAS - Em todas as ilhas do sul das Filipinas, a bandeira negra do Estado Islâmico tremula ao vento nesta província da Ásia Oriental que o grupo considera sua. Homens na selva, dois oceanos além do árido local de nascimento do Estado Islâmico, carregam a marca do terror em novas batalhas. Enquanto os fiéis estavam reunidos na missa de domingo em uma catedral católica, em janeiro deste ano, duas bombas explodiram no complexo da igreja matando 23 pessoas. O EI anunciou que dois dos seus combatentes suicidas haviam causado o massacre.

Dias mais tarde, uma ilustração circulou nos grupos de bate-papo do EI, em que o presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte, aparecia ajoelhado sobre uma pilha de crânios e um militante de pé brandia uma adaga em cima dele. A legenda da foto era uma advertência: “A luta só começou”. O território do Estado Islâmico no Iraque e na Síria, outrora do tamanho da Grã-Bretanha, encolheu depois de quatro anos de bombardeios que tiveram o apoio dos americanos e de combates em terra de soldados das milícias xiita e curda.

Mas longe de estar derrotado, o movimento brotou em outra parte. E aqui, no grupo de ilhas de Mindanao, no sul das Filipinas, há muito tempo refúgio de rebeldes por causa da mata densa e do policiamento fraco, o Estado Islâmico atraiu um número considerável de militantes jihadistas. “O EI tem muito poder”, afirmou Motondan Indama, que foi uma criança combatente na ilha de Basilan, e é primo de Furuji Indama, um líder militante que prometeu fidelidade ao grupo. “Não sei por que meu primo aderiu, mas isso está acontecendo em toda parte”.

O grupo teve um grande impulso inicial com o recrutamento no sul das Filipinas, em 2016, e a circulação de um vídeo online conclamando os militantes que não podiam viajar para o seu autodenominado califado no Iraque e a Síria. Centenas de combatentes chegaram da Chechênia, da Somália e do Iêmen, informaram membros da inteligência.

No ano seguinte, os militantes que haviam jurado fidelidade ao Estado Islâmico tomaram a cidade de Marawi, em Mindanao. Quando o exército conseguiu dominá-los, cinco meses mais tarde, a maior cidade de maioria muçulmana no país estava em ruínas. Foram mortos pelo menos 900 rebeldes, inclusive combatentes estrangeiros, e também Isnilon Hapilon, o emir do Estado Islâmico para a Ásia Oriental.

Duterte declarou vitória. Mas seu triunfalismo não impediu que os leais seguidores do Estado Islâmico se reagrupassem. “O EI tem dinheiro entrando nas Filipinas, e está recrutando combatentes”, disse Rommel Banlaoi, presidente do Philippine Institute for Peace, Violence and Terrorism Research. “O EI é o problema mais complexo e crescente das Filipinas hoje; nós não devemos fazer de conta que não existe”.

Desde o atentado de 27 de janeiro, na catedral na ilha de Jolo, o exército filipino respondeu com ataques aéreos e com o envio de 10 mil soldados para Jolo, segundo o coronel Gerry Besana, um porta-voz militar. Mas enquanto a ofensiva militar se intensifica, o governo evita admitir que as Filipinas se encontram no turbilhão global do extremismo islâmico. Estes atos de violência, afirma-se frequentemente, não passam de escaramuças entre os clãs muçulmanos, ou bandidos comuns.

Uma semana depois do atentado de Jolo, a polícia declarou o caso solucionado, e acusou um grupo de militantes local, o Abu Sayyaf, o que diz pouco a respeito de quantos dos seus insurgentes se associaram ao Estado Islâmico. Há dezenas de anos, grupos de insurgentes locais como o Abu Sayyaf, que lançou uma campanha de atentados a bomba e decapitações, foram crescendo na selva na ausência da lei, e nos mares que se estendem na direção da Malásia e da Indonésia.

Nos anos 1990, depois que os filipinos voltaram dos campos de batalha no Oriente Médio, as queixas locais fundiram-se com os apelos globais pela jihad. Mais tarde, quando o Estado Islâmico construiu o seu califado no Oriente Médio, reuniu militantes das facções mais variadas nas Filipinas sob uma única bandeira, afirmou Sidney Jones, um analista em Jacarta, na Indonésia.

A ideia de que nenhum combatente estrangeiro se encontra em Basilan caiu por terra em julho de 2018, quando este se tornou o local do primeiro atentado suicida nas Filipinas. O EI assumiu a responsabilidade pelo ataque. A atração do Estado Islâmico está sempre por perto. Em uma cerimônia oficial em Basilan, onde foram concedidas casas a antigos rebeldes do Abu Sayyaf graças a um acordo de paz para conceder autonomia ao sul muçulmano, foi montado um esquema de segurança tão forte que o número dos agentes superou o dos soldados filipinos.

Jem Habing, 22, ex-combatente do Abu Sayyaf, ao qual, contou, aderiu aos 11 anos, como muitas crianças do lugar, vacilou quando perguntaram se ele voltaria a fazer parte do movimento. “Eles me convenceram de que, se eu morresse em batalha, seria recompensado no além”, afirmou. “Disseram que este era o caminho certo”.

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