Miranda Barnes / The New York Times
Miranda Barnes / The New York Times

O que uma propriedade presidencial nos EUA tem a dizer sobre a escravidão

Resgate ancestral da família de James Monroe, quinto presidente dos EUA, revela outros laços familiares e o legado de desigualdades raciais

Audra D.S. Burch, The New York Times

11 de agosto de 2019 | 06h00

CHARLOTTESVILLE, VIRGÍNIA - São inúmeros os Monroes que lembram de um dia terem perguntado ao pai ou ao avô se eram parentes do quinto presidente da nação, James Monroe. O aviso na entrada da propriedade na plantação de Monroe, hoje um museu, faz parte da infância destas pessoas, no caminho entre Charlottesville e a pequena comunidade predominantemente afro-americana que chamaram Monroetown.

Ada Monroe Saylor, de 79, passeava no Chevrolet do pai, no início dos anos 50, quando ele confirmou as suspeitas da criança. George Monroe Jr., primo de Ada, passou grande parte da meninice na casa construída por seu trisavô, Edward Monroe, cujos pais teriam sido escravos do presidente, e foram alguns dos primeiros a receber o seu sobrenome. Para escravos cuja herança africana havia sido há muito roubada ou perdida, não se tratava de algo incomum.

Monroe, 45, tinha cerca de 8 anos quando fez a pergunta ao pai, depois de um passeio pela plantação conhecida como Highland. “Eu vi aquele aviso na entrada a minha vida toda”, lembrou. “Perguntei a meu pai se nós éramos os mesmos Monroes, e ele falou que sim, mas não disse muito mais do que isso. Nós não falávamos destas coisas. Estava subentendido que a nossa relação com o presidente não era pelo sangue, mas por causa da escravidão”.

Durante sete gerações, os membros da comunidade de descendentes de Monroetown viveram a cerca de 15 quilômetros de Highland, entretanto, até três anos atrás, nunca houve uma conversa entre eles e o museu. Agora, eles estão colaborando para mudar a maneira como a escravidão é apresentada por lá.

Em 2017, Martin Violette, pesquisador e guia de Highland, foi visitar a igreja Middle Oak Baptist, de Monroetown. Violette - e Miranda Burnett, outra guia de Highland - estavam decididos a descobrir o que aconteceu com homens, mulheres e crianças escravos vendidos por Monroe ao proprietário de umas plantações na Flórida, há cerca de 200 anos.

Após o serviço religioso, Violette se aproximou de um grupo de mulheres afro-americanas e perguntou a respeito dos Monroes. “O Sr. veio para o lugar certo”, uma delas respondeu. “Todas nós somos Monroes!”

“Até aquele momento, não tínhamos ideia de que esta comunidade estivesse bem ali”, explicou Sara Bon-Harper, diretora executiva de Highland.

Em março de 2018, um pequeno grupo de descendentes de Monroe se reuniu em Highland para dar início à primeira de várias discussões sobre  a melhor maneira de incorporar sua história familiar. As reuniões tornaram-se também um espaço para falar sobre o legado da escravidão, das desigualdades raciais e das reparações.

“É difícil traduzir em palavras o que é crescer tão perto da plantação onde estão as nossas raízes”, disse Ada Saylor. “Quando soube que nós éramos originários deste lugar, muitas vezes fiquei pensando qual teria sido o destino do nosso povo”.

Em 1828, Monroe vendeu uns vinte escravos por US$ 5 mil a Joseph Mills White, proprietário da Casa Branca, uma plantação de cana de açúcar e algodão nos arredores de Monticello, Flórida, para pagar dívidas no fim de sua presidência. Depois de visitar a igreja Middle Oak Baptist, Violette e Miranda Burnett se perguntaram: Acaso eles não seriam parentes de sangue dos descendentes de Monroetown?

Mais tarde, elas visitaram uma pequena igreja na Flórida que tinha sido fundada, em parte, por crianças escravizadas. Pesquisadores reuniram cerca de dez pessoas, inclusive uma mulher cujo avô era descendente de um casal escravizado, e perceberam o primeiro laço direto entre as duas comunidades de descendentes.

Quando Miranda e Violette contaram o que haviam descoberto, Waltine Eubanks, descendente de Monroe na Virgínia, sugeriu que se convidassem os descendentes da Flórida para as comemorações anuais da ‘volta para casa’ (para a casa do Senhor, cerimônia fúnebre afro-americana) de Monroe na Virgínia, este mês. “Quero que a caça ao tesouro prossiga até encontrarmos novos laços entre estas duas comunidades”, afirmou Eubanks. “Temos as mesmas raízes, e podemos até ser parentes de sangue. Talvez sejamos primos”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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