Notícias promissoras sobre a estatina animam os mais velhos

Notícias promissoras sobre a estatina animam os mais velhos

Há evidências de que os benefícios das estatinas superam em muito os possíveis riscos

Jane E. Brody, The New York Times - Life/Style

30 de setembro de 2020 | 05h00

As estatinas, remédios que reduzem o colesterol e já estão entre os mais populares do mundo, podem se tornar ainda mais amplamente utilizados conforme crescem os indícios de sua segurança e valor para os mais velhos, com benefícios que podem ir além do coração e dos glóbulos sanguíneos.

Entre as mais recentes estão relatos da capacidade de muita das principais estatinas de reduzir as mortes decorrentes de alguns tipos comuns de câncer e diminuir a perda da memória com a idade. Talvez esses relatórios convençam um amigo relutante e diabético de 65 anos a tomar a estatina recomendada pelo médico, por exemplo.

Além das crescentes evidências dos benefícios das estatinas, que ultrapassariam em muito os possíveis riscos para a imensa maioria das pessoas a quem o medicamento é recomendado, quase todas as estatinas do mercado se encontram agora disponíveis como genéricos de baixo custo.

Questão de transparência: tenho um substancial histórico de doença cardíaca na família e tomo estatina (atorvaestatina, comercializada originalmente como Lipitor) há muitos anos depois que mudanças na dieta se revelaram incapazes de controlar uma alta constante nos níveis do colesterol LDL no sangue, situação que pode danificar as artérias. Minha medicação é agora coberta integralmente pelo seguro Medicare Part D, sem necessidade de participação financeira minha.

Mas o custo de um medicamento não é o único critério a ser levado em consideração no caso de um remédio que pode salvar muitas pessoas. A estatina é receitada primariamente para reduzir o risco de ataque cardíaco ou derrame, baixando o colesterol LDL no soro e, em alguns casos, também os triglicerídeos, substâncias que, em níveis acima do normal, podem danificar as artérias coronárias. As estatinas oferecem mais proteção cardiovascular ao estabilizar os depósitos de gordura nas artérias chamados de placa aterosclerótica que podem se soltar e obstruir alguma artéria importante, provocando um ataque cardíaco ou derrame.

Os parâmetros atuais costumam recomendar a estatina como tratamento para:

— Pessoas com histórico de doença cardíaca, derrame ou doença arterial periférica, ou fatores de risco que lhes conferem 10% mais chance de sofrerem um ataque cardíaco em 10 anos.

— Pessoas acima dos 40 anos e diabéticas com colesterol LDL acima de 70 miligramas por decilitro.

— Pessoas acima de 21 anos com nível de colesterol LDL igual ou superior a 190 (apesar de mudanças na alimentação para minimizar as gorduras saturadas e alcançar peso corporal normal).

Atualmente, mais de 60% dos americanos mais velhos que têm colesterol alto tomam estatina para evitar um ataque cardíaco ou derrame. Ainda assim, faz tempo que se debate acaloradamente se as estatinas são recomendáveis para pessoas acima dos 75 anos, ainda que o risco de uma doença vascular potencialmente fatal aumente vertiginosamente com a idade.

Surgiram preocupações com os efeitos colaterais associados às estatinas, possíveis efeitos adversos dos remédios ou outros males comuns nos mais velhos e possíveis interações danosas com os muitos outros medicamentos tomados por esse segmento da população.

Em texto publicado no Harvard Health Blog em outubro do ano passado, Dara K. Lee Lewis destacou que “o paradoxo que enfrentamos é que, conforme nossos pacientes envelhecem, eles correm risco cada vez maior de ataque cardíaco e derrame, mas também se tornam mais sensíveis aos efeitos colaterais dos medicamentos, de modo que o equilíbrio é delicado". As estatinas podem às vezes causar anomalias no nível de açúcar do sangue, resultando em um diagnóstico de pré-diabetes ou diabetes, e possíveis efeitos tóxicos para o fígado que exigem exames de sangue periódicos para detectar enzimas.

Um pequeno percentual de pessoas tratadas com estatina desenvolvem uma debilitante dor muscular. Um amigo mais velho começou a ter pesadelos induzidos pela estatina. Houve também relatos de problemas de memória e declínio cognitivo associados às estatinas, um problema já comum entre as pessoas conforme envelhecem.

Mas o principal fator de dissuasão provavelmente era o pequeno conjunto de evidências do papel desempenhado pelas estatinas para pessoa mais velhas correndo risco de doença cardiovascular. Como ocorre na maioria dos testes de novos medicamentos, foram incluídas relativamente poucas pessoas com mais de 75 anos nos estudos iniciais avaliando benefícios e riscos das estatinas. Mas os relatórios mais recentes são muito positivos.

Um desses estudos acompanhou mais de 120 mil franceses de ambos os sexos e idades entre 75 e 79 que tomam estatinas há até quatro anos. Entre os 10% que interromperam a medicação, o risco de ser hospitalizado por causa de problemas cardiovasculares foi de 25% a 30% maior do que para aqueles que mantiveram o tratamento com estatina. Outro estudo, realizado em Israel e publicado no ano passado na Journal of the American Geriatrics Society, envolveu quase 20 mil adultos mais velhos, acompanhados por um período de 10 anos.

Entre aqueles que mantiveram o tratamento com estatina, a chance de morrer (independentemente da causa) foi 34% menor do que entre os que não seguiram o tratamento. Os benefícios não foram reduzidos para aqueles com mais de 75 anos, e foram observados igualmente em homens e mulheres.

Este ano, um estudo publicado no JAMA por uma equipe chefiada por Ariela R. Orkaby, do VA Boston Healthcare System, revelou que, dos 326.981 veteranos americanos com média etária de 81 anos, o uso da estatina foi associado a uma queda de 25% nas mortes e de 20% nas mortes por doença cardiovascular durante um período de acompanhamento de sete anos. Entretanto, nenhum desses estudos consiste em uma pesquisa “padrão ouro”.

Ainda não foram publicados os resultados de dois estudos desse tipo, o teste da Staree e o teste do Preventable, estudos clínicos controlados do tratamento com estatina na prevenção de eventos cardiovasculares nos mais velhos. Ambos avaliarão também seus efeitos para a cognição.

Enquanto isso, um relatório australiano do ano passado publicado na Journal of the American College of Cardiology não encontrou diferenças no ritmo de perda da memória ou deterioração cognitiva ao longo de um período de seis anos entre pacientes que usaram estatina e aqueles que nunca tomaram o medicamento. Na verdade, entre aqueles que começaram a tomar estatina durante o estudo, o ritmo de perda da memória foi contido.

Outro estudo de observação publicado por uma equipe sueca na Nature identificou efeitos benéficos no tempo de reação e fluidez da inteligência entre pessoas com mais de 65 anos que tomam estatina. Finalmente, há numerosos estudos apontando que uma importante classe de estatinas chamadas lipofílicas (incluindo atorvaestatina, simvaestatina, lovaestatina e fluvaestatina) podem ter efeitos que combatem o câncer.

Um estudo envolvendo quase dois mil sobreviventes de câncer de mama em estágio inicial identificou uma queda na proporção de recorrências em um período de cinco anos em mulheres que começaram a tomar estatina em até três anos após o diagnóstico. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

The New York Times Licensing Group - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.