Jeff Sisemoore/Museu Bernice Pauahi Bishop
Jeff Sisemoore/Museu Bernice Pauahi Bishop

Estátua milionária gera dúvida sobre autenticidade e real valor

Para um crítico, obra de US$ 7,5 milhões é digna de um bar de praia

Scott Reyburn, The New York Times

17 de março de 2019 | 06h00

Em 2018, o bilionário da indústria da tecnologia Marc Benioff doou uma estátua de madeira comprada por ele num leilão por cerca de US$ 7,5 milhões ao museu Bernice Pauahi Bishop, em Honolulu. A divindade musculosa e de boca arreganhada conhecida como “Devorador de Ilhas” é a peça central de uma exposição ali, explorando o papel da escultura tradicional na cultura e na sociedade havaianas. Este gesto particular de restituição ocorreu em meio a um crescente clamor para que os acervos dos museus ocidentais devolvam artefatos etnográficos a seus lugares de origem.

Benioff, diretor executivo da empresa de software Salesforce, disse em comunicado anunciando a doação em julho que, para ele, a escultura “pertence ao Havaí, e é parte da história e do patrimônio do seu povo". Durante a venda, em Paris, a Christie’s disse que o deus guerreiro de madeira tinha cerca de 200 anos. Mas, agora, há dúvidas quanto à época de sua produção. Alguns especialistas internacionais dizem que a peça pode ser do século 20 e valer menos de US$ 5 mil.

“É o tipo de coisa que vemos num bar de praia", disse Daniel Blau, especialista em arte das ilhas do Pacífico que mora em Munique. Tamanha discrepância na avaliação do seu valor pode ser uma preocupação se Benioff decidir incluir a doação no imposto de renda, e também para os frequentadores do museu, que pagam ingressos de até US$ 24,95 para ver a escultura.

Benioff, que não respondeu aos pedidos de contato para essa reportagem, é dono de uma fortuna avaliada em aproximadamente US$ 6,8 bilhões, de acordo com a Forbes. Em setembro, ele comprou a revista Time por US$ 190 milhões. Declara identificar-se muito com os valores espirituais do Havaí, onde possui uma casa de seis quartos de frente para a praia. A venda na Christie’s em Paris foi o último de uma série de leilões do acervo particular de Pierre Vérité e seu filho, Claude, ambos renomados negociantes de arte tribal. Vérité (pai) vendeu artefatos a Pablo Picasso, Henri Matisse e André Breton, entre outros.

O lote 153 da venda da Christie’s foi catalogado como “figura havaiana, estilo kona, circa 1780-1820, representando o deus da guerra, ku ka ’ili moku". Sem nenhuma história documentada de posse, acreditava-se que a estátua de 50 centímetros, feita a partir de madeira da árvore havaiana metrosideros, tivesse sido comprada por Pierre Vérité da negociante e colecionadora Marie-Ange Ciolkowska nos anos 1940, disse a Christie’s. O valor esperado para a venda era de € 2 milhões a € 3 milhões (US$ 2,3 milhões a US$ 3,4 milhões).

Julian Harding, especialista em artefatos das ilhas do Pacífico, disse recentemente que continua convencido de que o deus da guerra feito de madeira é “uma obra prima da arte oceânica". Ele disse ter informado à Christie’s antes da venda que a escultura seria “par" de uma figura parecida feita do mesmo tipo de madeira em exposição no British Museum.

Marques Marzan, que coordena as pesquisas no museu Bernice Pauahi Bishop, disse que a data de produção da escultura doada “não pode ser determinada no momento". “Proveniência e data de criação ajudam a compreender o contexto cultural e global dos objetos", disse Marzan. “Mas, se uma peça não provoca debate nem inspira apreciação, qual é então o seu valor?”

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