Alexis Weinnig via The New York Times
Alexis Weinnig via The New York Times

Este coral deve morrer

Cientistas estudam o impacto da atividade humana sobre os misteriosos recifes de águas profundas

Joanna Klein, The New York Times

06 Julho 2018 | 15h15

Numa sala fria da Universidade Temple, na Filadélfia, fragmentos de coral do tamanho de dedos estão mergulhados em quatro pequenos tanques de água do mar. Os esqueletos brancos parecem mortos e descoloridos, mas estão vivos. Há animais saudáveis vivendo dentro desses corpos duros. Alguns agitam seus tentáculos a partir de buracos nos caules retorcidos.

Até o dia de hoje, eles foram mantidos em outro tanque que tenta imitar as condições do seu habitat natural, no Golfo do México. Uma sala com refrigeração mantém a água à temperatura de 8ºC, enquanto um sistema de bombas injeta dióxido de carbono, aumentando a acidez da água até níveis que a maioria dos outros corais é incapaz de tolerar. Para evitar o estresse, os corais são monitorados por estudantes que os alimentam individualmente usando pipetas.

A estudante de pós-graduação Alexis Weinnig disse que eles ficam mais felizes no tanque de origem, e em seguida pediu desculpas por fazer com que parecessem tão humanos ao falar a seu respeito. "Acabamos investindo muito tempo neles", disse ela. "E então nós os matamos".

Os humanos sabem matar corais. Nos últimos 30 anos, a pesca excessiva, a poluição e a mudança climática acabaram com metade dos recifes de águas rasas do planeta.

Mas sabe-se muito menos a respeito de como os humanos estão influenciando os recifes de águas profundas, onde corais de crescimento lento, que vivem na água fria, representam até um terço das espécies de coral. Levando em consideração as ameaças da perfuração oceânica em busca de petróleo e a pesca em larga escala com redes de arrastão, é possível que o coral de águas profundas esteja tão ameaçado quando os corais de águas rasas.

As criaturas cheias de tentáculos que são estudadas nessa sala são chamadas de Lophelia pertusa. Esses "supercorais" muito abundantes constroem recifes imensos em águas frias de todo o mundo, a uma profundidade de até mil metros abaixo da superfície. Sustentam uma biodiversidade comparável à dos recifes tropicais, abrigando estrelas do mar, polvos, tubarões, caranguejos e peixes.

Erik Cordes, ecologista das profundezas marítimas e diretor do laboratório da Temple, descobriu que o Lophelia suporta os fatores de estresse industrial e climático melhor do que outros corais de águas profundas. As populações no Golfo do México sobrevivem em meio a algumas das condições mais difíceis, perto de fontes naturais de metano e em águas um pouco mais quentes, de concentração de oxigênio menor e temperaturas um pouco mais altas, bem como níveis mais altos de acidez. É possível que também se adaptem a mudanças. Mas Alexis e Cordes querem descobrir até que ponto o Lophelia pode resistir.

É possível que os sobreviventes de hoje ajudem a restaurar habitats das profundezas oceânicas afetados pelo vazamento de petróleo da plataforma Deepwater Horizon em 2010.

"O Lophelia é nosso camundongo de laboratório", explicou Cordes. É carismático, sobrevive em condições extremas, mas pode morrer em decorrência de alterações mínimas.

"Agora que compreendemos algo de sua resposta à mudança climática, queremos saber como responde a vazamentos de petróleo, e como responderá no futuro a vazamentos de petróleo em meio à mudança climática".

Em um dos experimentos, seis tipos de Lophelia serão submetidos ao petróleo, ao dispersante e a uma combinação dos dois.

Os corais parecem translúcidos até o momento em que Alexis os adiciona a uma série de tanques de exposição. O tanque que recebe o petróleo adquire uma névoa e um cheiro típico de estrada. O tanque com o dispersante fica nublado.

Em 24 horas, ela vai analisar os efeitos de cada exposição. Então, colocará os corais remanescentes em tanques de recuperação, com água limpa.

Ao extrair ácido ribonucleico, ou RNA, das amostras, ela poderá comparar suas diferenças genéticas. Isso dará a ela instantâneos moleculares das variedades mais e menos resistentes de Lophelia.

"Estamos tentando descobrir o que confere ao coral seus superpoderes", disse Cordes. 

Mas bastam poucas horas para identificar as amostras que não são superpoderosas: no tanque de exposição ao dispersante, alguns fragmentos já estão agonizando, agitando os filamentos. Outros produzem muco em excesso, como os humanos quando estão doentes.

Nada de especial parece ocorrer nos demais tanques. Alexis descobriu que, independentemente da temperatura ou acidez da água, o dispersante é muito agressivo para o Lophelia. Esses corais conseguem se recuperar da exposição após 24 horas em temperaturas normais, mas o processo é mais difícil se as temperaturas estiverem elevadas.

Apenas dois fragmentos morreram, e isso ocorreu num tanque com dispersante e temperaturas elevadas. Para o Golfo, o próximo passo é a restauração.

O laboratório e seus colaboradores pensam em separar a variedade de Lophelia mais resistente a essas condições a partir de populações selvagens. Estas poderiam ser multiplicadas em laboratório e transplantadas para a construção de novos recifes. O uso da edição genética para produzir corais mais resistentes também é uma possibilidade.

Mas a restauração não é tão simples, explicou a ecologista marinha do Hawaii Institute for Marine Biology, Ruth Gates. "Na verdade, não sabemos se isso vai funcionar, tanto na superfície quando em profundidade", disse.

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