Kayana Szymczak The New York Times
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Estes cientistas estão se aplicando vacinas do coronavírus

Dezenas de cientistas em todo o mundo estão criando vacinas experimentais contra o coronavírus, com métodos amplamente variados

Heather Murphy, The New York Times - Life/Style

11 de setembro de 2020 | 05h00

Em abril, mais de três meses antes de uma vacina começar a ser submetida a ensaios clínicos, o prefeito de uma pitoresca cidade numa ilha a noroeste do Pacífico aceitou convite de um amigo microbiologista para ser vacinado por ele. A conversa ocorreu na página no Facebook do prefeito e deixou horrorizados alguns moradores de Friday Harbor.

“Eu poderia ir até aí e começar a aplicar a vacina?”, propôs Johnny Stine, que dirige a North Coast Biologics, empresa de biotecnologia de Seattle especializada em anticorpos. “Não se preocupe, estou imune – eu me apliquei cinco vezes a minha vacina”. “Boa sugestão”, respondeu o prefeito Farhad Ghatan, depois de fazer algumas perguntas. Vários moradores manifestaram ceticismo.

E ficaram estupefatos quando o prefeito defendeu seu amigo de 25 anos como um “cientista farmacêutico de vanguarda”. Quando os moradores manifestaram seus temores – sobre as credenciais de Stine e a arbitrariedade de incentivá-lo a visitar a ilha de San Juan, apesar das restrições de viagem – Stine retrucou com insultos (espero que suas células epiteliais do pulmão fiquem acima de ACE2, assim vocês morrerão mais rapidamente da covid-19).

Vários moradores se reportaram à polícia e aos órgãos reguladores. Em junho, o procurador-geral de Washington abriu processo contra Stine não só por alegações sem respaldo, mas também por administrar sua vacina não comprovada para cerca de 30 pessoas cobrando US$ 400 por dose. Em maio, a FDA enviou carta alertando Stine a parar de vender de forma enganosa o seu produto. Embora suas táticas promocionais fossem inusitadas, Stine não é o único cientista a criar vacinas experimentais contra o coronavírus, aplicando-as neles, em membros da sua família, amigos e outros interessados.

Dezenas de cientistas em todo o mundo têm feito isto, usando os mais variados métodos, afiliações e afirmações. O trabalho mais bem documentado é o da Rapid Deployment Vaccine Collaborative, ou RaDVaC, que tem entre seus 23 colaboradores um famoso geneticista de Harvard, George Church. (A pesquisa, contudo, não ocorre no campus da universidade: “embora o laboratório do professor Church trabalhe em inúmeros projetos de pesquisa da covid-19, ele deu garantias para a Escola de Medicina de Harvard que o trabalho com a vacina da RaDVaC não se realiza em seu laboratório”, afirmou a porta-voz da faculdade).

Mas aqueles que criticam esses esforços afirmam que, por mais bem intencionados que sejam, esses cientistas provavelmente não obterão resultados úteis porque suas vacinas não são submetidas a testes verdadeiros com estudos randomizados e controlados por placebo. Além disto, as vacinas podem causar danos, seja provocando reações imunes e outros efeitos colaterais, ou oferecendo uma falsa sensação de proteção.

“Se você injeta a vacina em si mesmo, ninguém pode ou deve fazer alguma coisa”, disse Jeffrey Kahn, diretor do Instituto de Bioética John Hopkins. Mas quando uma pessoa começa a encorajar outras a experimentarem uma vacina não comprovada, “você está retornando aos dias do remédio patenteado e do charlatanismo”, afirmou ele, referindo-se à época em que remédios eram amplamente vendidos com belas, mas enganosas, promessas.

“Somos os animais”

A produção da vacina RaDVac reportada pela primeira vez na MIT Technology Review, é diferente daquela do projeto de Stine sob dois aspectos. Nenhum dos envolvidos planeja cobrar pela vacina. E ao contrário dos brados lançados por Stine no Facebook, repletos de impropérios, a RaDVaC tem um documento científico de 59 páginas para explicar como funciona e para orientar outros que pretendam preparar a fórmula da vacina por conta própria.

“O documento impressiona”, disse Avery August, imunologista da Cornell University em Ithaca, Nova York, que não está envolvido no projeto. Mas o ímpeto de ambos os projetos é similar. Em março, quando Preston Estep, cientista da área de genoma, que vive em Boston, começou a ler a respeito de pessoas morrendo em meio a pandemia ele decidiu não se manter complacentemente à margem. Enviou e-mails para cientistas, biólogos, professores e médicos conhecidos para saber se alguém estava interessado em desenvolver sua própria vacina.

Logo depois, o grupo criou uma vacina utilizando peptídeos que podia ser administrada por via nasal. “É muito simples”, disse Estep. “A vacina consiste de cinco ingredientes que você reúne no consultório médico”. Os ingredientes chave, minúsculas moléculas de proteínas virais, ou peptídeos, os cientistas encomendaram online. Se tudo corresse bem, os peptídeos treinariam o sistema imunológico a se defender contra o coronavírus, mesmo sem nenhum vírus realmente presente.

No final de abril, Estep se juntou com vários colaboradores num laboratório quando então prepararam a mistura e aplicaram com um atomizador em suas narinas. Church, mentor de Estep, disse ter injetado o líquido no nariz em seu banheiro para manter as precauções de distanciamento social. Estep em seguida aplicou a vacina em seu filho de 23 anos, e os outros colaboradores também distribuíram para membros da sua família. Até agora ninguém reportou algo pior do que um congestionamento nasal e uma fraca dor de cabeça, disse.

Ele também aperfeiçoou a receita, removendo e adicionando peptídeos à medida que surgiram novas pesquisas sobre o coronavírus. Até agora ele utilizou em si mesmo oito versões da vacina. Um processo de desenvolvimento tradicional da vacina foi iniciado com cobaias e outros estudos têm sido feitos com animais. Mas segundo Estep, no caso da RaDVaC “nós somos os animais”.

Vacina via Facebook

Existe uma longa história de cientistas testando abertamente vacinas em si mesmos e em seus filhos, mas nas últimas décadas isso se tornou menos comum, segundo Susan E. Lederer, historiadora médica na universidade de Wisconsin-Madison. O que é ética e legalmente aceitável em testar e distribuir seu próprio produto médico vária de acordo com instituições e país. Em agosto o Scientific Research Institute for Biological Safety Problems, órgão de governo do Cazaquistão, anunciou que sete funcionários haviam sido as primeiras pessoas a usarem uma vacina da covid-19 que estavam desenvolvendo.

Cientistas russos e chineses de instituições acadêmicas e governamentais também fizeram pronunciamentos similares no meio da pandemia. O problema no caso do produto de Stine, segundo o procurador-geral Bob Ferguson, de Washington, não é o fato de ele ter aplicado em si mesmo, mas de ele “vender a chamada vacina para pessoas em Washington que estão muito assustadas e propensas a buscar uma cura milagrosa no meio de uma pandemia que atinge o mundo inteiro”, afirmou o procurador.

O processo também cita a falta de respaldo da eficácia e segurança do produto alegadas por Stine. Em março, alguns meses depois de se vacinar e os seus dois filhos adolescentes, Stine postou um anúncio na página no Facebook de North Coast Biologics. Depois de décadas trabalhando com anticorpos, disse ele em uma entrevista, sabia que produzir uma vacina seria “incrivelmente fácil”. Descreveu um trabalho um pouco parecido a escrever um roteiro de Hollywood que nunca se transforma em filme.

Ele produziu anticorpos que podiam ser usados contra vários patógenos e vendê-los para empresas que os usariam para desenvolver medicamentos, mas provavelmente não o fariam. Segundo o gabinete do procurador geral de Washington, a empresa de Stine foi administrativamente dissolvida em 2012.

Para fabricar a vacina, ele usou uma sequência genética de espículas proteicas da superfície do coronavírus, criando uma versão sintética, que colocou numa solução salina que injetou em si mesmo abaixo da superfície da pele do seu braço; depois realizou um teste para verificar os anticorpos em sua corrente sanguínea.

“Foram necessários 12 dias fazendo download da sequência para estar imune.” Em seu Facebook, ele afirmou que ficou imune ao vírus e ofereceu a vacina a interessados pelo preço de US$ 400 por pessoa”. Como parte de algum acordo que Stine eventualmente venha a firmar com os promotores do processo judicial, ele deverá reembolsar as trinta pessoas que adquiriram sua vacina. Stine diz que sua vacina é similar a uma desenvolvida na universidade de Pittsburgh, na Pensilvânia.

E que uma dose não só protege as pessoas contra o vírus, mas também trata aquelas que o contraíram. Louis Falo, pesquisador da universidade disse não acreditar que a vacina desenvolvida por Stine é segura ou eficaz da maneira como foi manipulada. E que é improvável que ela ajude pessoas com o coronavírus. O prefeito de Friday Harbor disse ter lamentado responder à mensagem de Stine em sua página no Facebook e não em privado.

Mas não vê razão para se desculpar por ter aceito a fórmula do amigo gratuitamente. “Gostaria de ter a chance de ter alguma proteção, melhor do que nenhuma e ficar esperando”, disse Ghatan. Mas a controvérsia prejudicou seus planos de se encontrarem, disse o prefeito. Entretanto, se surgir outra oportunidade para ser vacinado, “Eu o faria”, disse ele. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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