Universidade da Virgínia Ocidental, via The New York Times
Universidade da Virgínia Ocidental, via The New York Times

'Estrada de gelo' ligava a Namíbia ao Brasil, aponta estudo

Cientistas descobriram que rochas encontradas no País teriam sido arrastadas por rios de gelo vindos do sul da África

Robin George Andrews, The New York Times

08 de março de 2019 | 06h00

A Namíbia é conhecida por seus desertos, entre eles o mais antigo do mundo, uma vastidão de dunas e areia escaldante. Mas, há cerca de 300 milhões de anos, a Namíbia vivia congelada, localizada perto do Polo Sul, apertada contra a região que é hoje a América do Sul na época da formação do supercontinente Pangeia.

Aquela área era uma pista de deslocamento em alta velocidade para o gelo, com fragmentos glaciais desprendendo-se de uma colossal calota de gelo no sul da África e deixando marcas na rocha subjacente conforme aceleravam em direção ao que é hoje o Brasil. Hoje, os dois países são separados por cerca de 5.600 quilômetros de Oceano Atlântico. Mas uma equipe de pesquisadores revelou em janeiro que reuniu peças compondo o quadro desse antigo fluxo de gelo entre as duas massas de terra firme.

A evidência definitiva foi encontrada em colinas laceradas na Namíbia, formadas há muitos anos pela migração de geleiras e rios congelados. O estudo descreve algumas das mais antigas dentre essas esculturas formadas pelo gelo, identificadas agora pela primeira vez no sul da África.

Os cientistas já tinham previsto que as rochas encontradas no Brasil transportadas por geleiras teriam sido arrastadas até lá por rios de gelo vindos de alguma parte do sul da África, disse Graham Andrews, professor assistente de geologia da Universidade da Virgínia Ocidental e um dos autores do estudo.

Durante pesquisa de campo nos desertos do norte da Namíbia, Andrews e sua mulher estavam analisando rochas vulcânicas. No último dia, algumas colinas particularmente curvas chamara a atenção do pesquisador.

Para ele, pareciam drumlins, castelos sedimentares encontrados em partes da Irlanda do Norte, onde ele nasceu. Tipicamente, são construídos quando o sedimento arrastado pelas geleiras cai e se acumula numa pilha alongada.

Os guias de campo de Graham Andrews não imaginaram a possibilidade de as colinas terem origem glacial. De volta, ele apresentou sua ideia "completamente descabida" a um par de estudantes em seu laboratório.

Um dos dois estudantes, Andrew McGrady, usou imagens de satélite para ajudar a classificar quase 100 dessas estranhas formações sedimentares. Algumas das formas mais alongadas são chamadas de whalebacks (dorso de baleia), e as maiores são denominadas megawhalebacks. Em geral, seus contornos coincidiam com outras características das superfícies criadas pelas geleiras em todo o mundo.

Os drumlins, whalebacks e megawhalebacks da Namíbia também são marcados com riscos gigantescos, que só poderiam ter se formado se o gelo passasse por eles à velocidade de algumas centenas de metros por ano.

Shannon Maynard, outra estudante trabalhando com Graham Andrews, traduziu muitos estudos em português a respeito dos depósitos de gelo na América do Sul. Eles informavam que partes do Brasil pareciam ser um repositório de um grande volume de material transportado por geleiras. Isso indicava que o material encontrado no Brasil deve ter vindo da Namíbia antiga.

A geomorfóloga glacial Lauren Knight, da Universidade de Portsmouth, na Inglaterra, explicou que esse antigo rio de gelo pode ser comparado a outros encontrados atualmente em lugares como Antártida e Groenlândia. Passados 300 milhões de anos, essas formações podem esclarecer como o gelo pode responder no mundo moderno, cada vez mais quente.

As duas narrativas, do passado e do presente, descrevem uma perda. "Essas vias expressas de gelo são, na verdade, características de calotas polares moribundas", disse Andrews.

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