David Payr para The New York Times
David Payr para The New York Times

Maior estrela pop da Áustria é símbolo do populismo de direita

Na capa do álbum 'Volks-Rock’n'roller', cantor Andreas Gabalier imitaria o formato de uma suástica com o corpo, segundo críticos

Thomas Rogers, The New York Times

03 de outubro de 2019 | 06h00

VIENA - Em um sábado recente, o cantor austríaco Andreas Gabalier interrompeu o show que fazia em um estádio de Viena para discursar a respeito da importância da tradição. Gabalier, 34 anos, que mistura em seu estilo a música folclórica alpina com o rock e o country, é atualmente o mais popular cantor nascido e criado na Áustria. Suas músicas, ele explicou, são uma celebração dos costumes do país.

A maioria dos espectadores estava vestida com trajes tradicionais austríacos. Para as mulheres, isso resultava em um dirndl: um vestido curto, frequentemente acompanhado de um avental preso por um laço e um corpete. Para os homens, calças curtas de couro (lederhosen) com suspensórios e camisas xadrez.

“Fico feliz que haja ainda tantas pessoas de pensamento normal que apreciem esse tipo de tradição”, afirmou Gabalier. Juntas, ele explicou, essas pessoas formam "um movimento”. Katja Breg, uma fã de 35 anos, afirmou que Gabalier representa uma mudança no atual estado de espírito austríaco. “Antes, não podíamos dizer que tínhamos orgulho por sermos austríacos”, disse ela, por causa do passado nazista do país.

Ao longo da última década, Gabalier conquistou uma nova audiência de massa para a música inspirada no folclore alpino e ajudou a lançar um ressurgimento na moda dos trajes tradicionais alpinos. Ele também tem sido criticado por pessoas que enxergam sua música como um veículo para mensagens nacionalistas e populistas.

Enquanto figurões dos partidos de direita têm expressado admiração por Gabalier, líderes locais social-democratas, de centro esquerda, baniram sua música de um evento de campanha na cidade de Graz. Alguns críticos apontam a canção Mein Bergkamerad (Meu Camarada da Montanha, em tradução livre) - na qual ele compara a amizade entre os homens a uma “cruz de ferro cravada no mais alto pico”- como um sinal de suas simpatias à extrema direita (a Cruz de Ferro foi uma celebrada condecoração militar durante o Terceiro Reich).

Outros têm argumentado que na capa do álbum Volks-Rock’n'roller (Roqueiro do povo, em tradução livre) o cantor imita o formato de uma suástica com o corpo. Gabalier afirmou que a estrofe de sua canção meramente descreve o tipo de cruz de sua terra natal e que a capa do álbum o exibe imitando o símbolo dos avisos de rotas de fuga em emergências nos edifícios.

Em outros casos, o cantor pareceu deliberadamente fazer provocações aos seus detratores, que o acusam também de misoginia e homofobia. Ao cantar o hino nacional austríaco, em 2014, Gabalier omitiu propositalmente uma estrofe acrescentada em 2012, que menciona as “grandes filhas” do país. Na cerimônia de um prêmio, em 2015, ele disse que “no mundo de hoje, não é fácil ser um sujeito que ainda se interessa por mulheres”.

Inspirado por melodias folclóricas austríacas e bandas de rock americanas, Gabalier tenta conferir um ar de modernidade à música alpina tradicional. Segundo ele, isso ajudou, porque, após a crise econômica de 2008, “havia uma atmosfera negativa no país e uma nostalgia pela tradição”. No fim de seu show, aqui em Viena, Gabalier deixou-se cair ao chão do palco, serpentinas com as cores da bandeira austríaca foram atiradas ao público, e os milhares de espectadores em seus dirndls e lederhosen foram ao delírio. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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