Natalia Mantini para The New York Times
Natalia Mantini para The New York Times

Estrela de 'Roma' lança luz sobre desigualdade no México

Mulheres indígenas assistem ao sucesso da companheira Yalitza Aparicio, que fez o teste para o papel principal do filme após se formar professora

Laura Tillman, The New York Times

30 de janeiro de 2019 | 06h00

CIDADE DO MÉXICO - Yalitza Aparicio, a estrela de “Roma”, de Alfonso Cuarón, me aguardava sentada ao sol no Parque Mexico, a poucos quarteirões do bairro da Cidade do México que deu o título ao filme. Ela escolheu o parque para uma conversa, entre meses de compromissos no tapete vermelho, sessões de foto e entrevistas à imprensa, porque disse que o local a fazia lembrar mais de sua cidade, Tlaxiaco, Oaxaca.

Yalitza, hoje com 25 anos, acabava de concluir o curso de professora quando, quase por brincadeira, fez um teste para o papel principal em “Roma”, o de uma doméstica e babá chamada Cleo, inspirada na babá da infância de Cuarón, Liboria Rodríguez. Agora, depois de ter sido indicada ao Oscar de melhor atriz por sua interpretação, está sendo apontada como um exemplo para as mulheres e o povo indígena do México. 

“Roma”, aclamado pela crítica e indicado para dez Oscar, é mais do que um projeto pessoal do famoso diretor mexicano. A ideia surgiu de uma conversa sobre a desigualdade, sobre o tratamento dado aos trabalhadores domésticos e sobre quem pode desfilar no tapete vermelho em um país onde as mulheres indígenas raramente aparecem em uma revista.

Em dezembro, Yalitza apareceu na capa da “Vogue Mexico”, um acontecimento histórico para uma mulher de origem indígena nos vinte anos da publicação. A editora da “Vogue Mexico”, Karla Martínez de Salas, disse que a capa e outras fotos de Yalitza forma comemoradas com a maior resposta obtida pela revista na mídia social.

Yalitza quer usar a celebridade recém-adquirida para criar um futuro mais democrático para o seu país. "Não deveria ser importante o que a pessoa faz ou como ela é fisicamente - nós podemos realizar tudo aquilo a que aspiramos", afirmou. "Não sou o rosto do México", acrescentou, porque o país tem muitos rostos.

Antes mesmo que o filme começasse a ser exibido na Netflix em dezembro, estavam surgindo sinais de mudança: naquele mês, a Suprema Corte do país determinou que os mais de dois milhões de empregadas domésticas devem ter acesso ao sistema de seguro social. O presidente, Andrés Manuel López Obrador, prometeu uma atenção especial à opressão e à pobreza às quais está submetido o povo indígena.

A mesmo tempo que Yalitza está sendo celebrada, não deixou de se tornar alvo de ataques racistas online. Ela disse que no começo isto a perturbou, mas agora está preocupada com as centenas de mulheres que a chamam de exemplo.

Na realidade, a sua jornada começou há dois anos. O diretor de um centro cultural de Tlaxiaco convidara a irmã mais velha de Yalitza, Edith, para uma misteriosa reunião na qual seria escolhida a intérprete de Cleo para o retrato da Cidade do México de Cuarón, nos anos 70. No teste, Edith Aparicio, que estava grávida, hesitou e pediu a Yalitza que fosse em seu lugar.

Cuarón falou com ela pela primeira vez por telefone. "Eu estava um pouco nervoso até que de repente Yalitza entrou no escritório, e foi aquela presença - um pouco tímida, mas muito aberta", ele disse. O diretor estava procurando uma mulher com a mesma sensibilidade de Liboria, sua maneira enfática de se relacionar com os outros.

"É como ela se aproxima das pessoas, como se comporta em um lugar e quer ter a certeza de que as pessoas, particularmente pessoas vulneráveis, estão bem", contou. Mas quando disse a Yalitza que queria que ela fosse a intérprete do filme, ela hesitou. Acabava de se formar e teria de conversar antes com a família.

Logo depois, ela ligou para dar a sua resposta. Havia um período de espera antes das inscrições  para obter uma cadeira de ensino. "Ela disse: ‘Bom, acho que posso fazer isto’" lembra Cuarón. "‘Por enquanto, não tenho nada melhor para fazer’." Na pré-produção, Cuarón pediu a Yalitza e a Nancy García García, que é Adela, a cozinheira, que improvisassem algumas cenas.

Ele ficou pasmo com a rapidez com que as duas começaram imediatamente a atuar dentro dos respectivos papéis. "O que você vê no filme não é Yalitza, é Cleo", falou Cuarón. "Ela criou o personagem, entendeu? E o fez de uma maneira muito detalhada."

Os atores não receberam um roteiro, nem mesmo uma sinopse. Yalitza compreendeu perfeitamente o mundo complexo do set, recriado a partir das memórias de infância de Cuarón, e montou o papel baseada na própria visão do personagem, e nas experiências da mãe, também doméstica.

Agora, espera criar uma nova realidade no México e mostrar que as mulheres indígenas podem alcançar o patamar mais alto em qualquer campo. Sua aspiração irá esbarrar em muitos obstáculos: mais de 70% da população indígena do México vive na pobreza, e a discriminação é alarmante.

Yalitza não tem certeza de que continuará a atuar. Moldar crianças é muito mais fácil do que modificar as convicções dos adultos, afirmou. Entretanto, ficou surpresa ao descobrir que “Roma” faz exatamente isto. "No final, não é muito diferente do que eu queria fazer", disse. "Eu percebi que o filme pode educar pessoas de todas as idades, de uma maneira muito abrangente."

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