JOSH HANER/The New York Times
JOSH HANER/The New York Times

Estudando as razões do declínio dos papagaios do mar

Pesquisadores buscam indicações que os levem à causa da morte destes pássaros

John Schwartz, The New York Times

17 Setembro 2018 | 10h15

GRIMSEY ISLAND, Islândia - Os papagaios do mar correm perigo. Estas aves têm apresentado um declínio acelerado, principalmente desde o início da década de 2000, tanto na Islândia quanto em muitos dos seus habitats no Atlântico. Os possíveis culpados são vários: uma caça inconstante, pesca descontrolada, poluição. 

Segundo os cientistas, a mudança climática é outro fator subjacente que contribui para a redução da oferta de alimentos, e provavelmente se tornará mais acentuada com o tempo. Além disso, os papagaios de mar têm uma carne saborosa, por isso, as aves serem caçadas como animais silvestres, fato que absolutamente não ajuda.

Annette Fayet tenta desvendar o mistério da redução do número de papagaios do mar do Atlântico; por isso, recentemente, estava enfiada até os ombros em uma toca. Por fim, com a ajuda um ferro grosso que curvou como um cajado de pastor retirou um papagaio por uma das pernas. Enquanto trazia o pássaro à luz, ele defecou copiosamente em suas calças.

“Uau, a ciência!” ela exclamou.

Teoricamente, este pássaro, com sua plumagem preta e branca semelhante a um fraque e seu curioso 

bico laranja, deveria ter esvaziado os intestinos em uma tigela de aço inoxidável que ela chama de “a toalete dos papagaios do mar”. Mas ela limpou a sujeira e a colocou em uma ampola para analisá-la, para saber o que estes pássaros estão comendo.

Embora algumas colônias estejam crescendo, na Islândia, onde se encontra a maior população destes papagaios do Atlântico, seu número caiu de aproximadamente sete milhões para cerca de 5,4 milhões. 

Em  2015, as aves foram classificadas como “vulneráveis” pela União Internacional para a Conservação da Natureza, o que significa que estão sujeitas a um elevado risco de extinção na natureza.

As aves são prezadas pelos islandeses porque fazem parte de sua história, de sua cultura e do turismo - e, para alguns, de sua culinária. “O papagaio do mar é a ave mais comum da Islândia”, afirmou Erpur Snaer Hansen, diretor interino do South Iceland Nature Research Center. “É também a ave mais caçada”.

O dr. Hansen trabalha com a dra. Fayet, uma pesquisadora junior da Universidade de Oxford que é francesa, em seu projeto de monitoramento das atividades de quatro colônias de papagaios do mar, duas na Islândia e outras no País de Gales e na Noruega. Desde 2010, ele vem realizando também um censo, uma “contagem  dos papagaios do mar” semestral para a qual ele viaja mais de 5 mil quilômetros ao redor da Islândia, visitando cerca de 700 tocas marcadas em 12 colônias, para contar os ovos e os filhotes.

Durante uma recente escala na Ilha de Lundey, na Islândia, o dr. Hansen encontrou caçadores que haviam apanhado centenas destas aves e as levavam para os seus barcos a fim de vendê-las a restaurantes que as servem principalmente a turistas curiosos.

O dr. Hansen tem um bom relacionamento com os caçadores e em sua pesquisa usa dados dos registros de até 138 anos atrás dos clubes de caça. Ele convenceu estes caçadores a deixar que o seu assistente fotografasse a cabeça de cada papagaio; as faixas laterais dos seus bicos podem ser contadas para determinar a idade da ave.

Em Grimsey, uma ilha no norte que beira o Círculo Ártico, os dois pesquisadores trabalharam à luz da noite ártica, apanhando e examinando dez aves que soltam em seguida, em sua estada de dois dias.

O dr. Hansen foi de toca em toca. Ele instalou uma câmera na ponta de um bastão flexível que introduz no interior de cada toca para olhar o que há ao redor.

Depois de retirar uma ave, o dr. Hansen prendeu uma pequena chapa de aço à perna da ave com a sua identificação. E ele e a dra. Fayet instalaram um GPS nas suas costas. Na semana que leva até os dispositivos muito delicados caírem, eles marcam a que distância os pássaros voam em busca de alimento e a que profundidade mergulham para apanhá-lo.

Ao redor da Islândia, os papagaios do mar sofreram por causa da escassez do seu alimento favorito, as enguias de areia cor de prata. O seu colapso é uma decorrência da elevação das temperaturas na superfície do mar. 

A temperatura é regida por ciclos de longo prazo do que conhecemos como Oscilação Multidecadal do Atlântico Norte. Entre o ciclo frio de 1965-1995 e o ciclo quente atual, afirmou o dr. Hansen, os registros mostram o aumento adicional de um grau Celsius.

Sua teoria, explicou, é a seguinte: “Se aumentarmos as temperaturas de um grau, mudaremos as taxas de crescimento destes animais e sua capacidade de sobreviver ao inverno”.

Sem a quantidade necessária de enguias de areia na água, as aves terão de voar mais longe para encontrar alimento para si e para os filhotes.

O declínio das colônias sugere que estes pássaros estão trabalhando excessivamente para encontrar comida. “Para os papagaios do mar, voar é um esforço enorme”, disse a dra. Fayet. “É um dispêndio de energia muito grande para eles”;

As contagens dos papagaios do mar do dr. Hansen mostram que 40% da população de filhotes da Islândia está perdendo massa corporal ao longo do tempo.  Quando os adultos não conseguem apanhar alimento suficiente, fazem instintivamente uma escolha malthusiana; os filhotes morrem de fome.

Embora existam ainda milhões de papagaios do mar, suas numerosas colônias são enganadoras.

“Estes pássaros têm uma vida longa, por isso não percebemos uma queda brusca da sua população”, afirmou o dr. Hansen. Mas a longo prazo, alertou: “Isto deixará de ser sustentável”.

Os cientistas acreditam que a poluição e o aquecimento dos mares estão causando a morte dos papagaios do mar. 

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