Philippe Desmazes/Agence France-Presse - Getty Images
Philippe Desmazes/Agence France-Presse - Getty Images

Ato de autoimolação encontra eco entre os estudantes franceses

O episódio inspirou protestos em outras cidades contra a falta de segurança financeira dos estudantes

Mélissa Godin, The New York Times

28 de novembro de 2019 | 06h00

PARIS - No dia 8 de novembro, Anas K., 22 anos, sentou-se diante do centro estudantil de uma universidade de Lyon e publicou aquela que pensou ser sua última mensagem de status no Facebook. “Acuso Macron, Hollande, Sarkozy e a União Europeia de terem me matado ao criar incertezas para o futuro de todos", escreveu ele.

Pouco depois de publicar a mensagem, ele ateou fogo em si. O jovem, cujo sobrenome foi ocultado a pedido da família, teve queimaduras em 90% do corpo. Em 18 de novembro, a situação de Anas K. era estável, mas ele ainda era mantido em um coma artificial.

O protesto encontrou eco entre os estudantes da França. Logo se tornou outro indício da precariedade que muitos franceses enxergam como nova definição de suas vidas, como nos protestos dos coletes amarelos. O episódio inspirou protestos em outras cidades contra a falta de segurança financeira dos estudantes. Organizações estudantis exigiram uma reavaliação das taxas de ensino universitário, além de desejarem mais alojamentos e serviços de saúde melhores.

Milhares de estudantes bloquearam a entrada das universidades nas semanas mais recentes. No Twitter, alguns publicaram usando a hashtag #LaPrécaritéTue, ou “a precariedade mata". Tamanha manifestação de fúria diante da incerteza econômica entre os estudantes pode parecer fora de lugar na França. 

Um curso de bacharelado em uma universidade pública custa cerca de US$ 187 ao ano na França, uma fração do valor cobrado nos Estados Unidos. As universidades de elite da França cobram dos estudantes valores com base na renda dos pais. Os estudantes podem receber ajuda do governo com as despesas diárias. Mas muitos estudantes franceses têm dificuldade para sobreviver. Um em cada cinco estudantes franceses vivia abaixo da linha da pobreza em 2017. Quase metade trabalhava durante o curso para financiar os estudos.

Nos 10 anos mais recentes, o custo de vida para os estudantes na França aumentou. E, para alguns estudantes, essa falta de segurança continua após a formatura. Em sua publicação no Facebook, Anas K. manifestou sua ansiedade em relação ao futuro, indagando a respeito de suas chances de encontrar trabalho em uma era de “desemprego em massa".

As manifestações de estudantes se tornaram outro obstáculo para o governo do presidente Emmanuel Macron, que tenta encontrar o rumo em meio a um relevo acidentado. Frédérique Vidal, ministro francês da educação, reuniu-se com associações de estudantes prometendo criar uma central de ajuda para os estudantes até o fim do ano.

O próprio Macron opinou no caso. “Episódios como esse são sempre insondáveis e difíceis de explicar”, disse ele a respeito da imolação de Anas K. “O sofrimento dele nos lembra das dificuldades da vida estudantil, que já conhecemos.” Macron acrescentou, “No momento, o país é muito negativo a respeito de si próprio". Mas os estudantes estão insatisfeitos com a resposta do governo. “Estamos constantemente aprovando reformas que tornam mais precário o trabalho e a aposentadoria", disse Sophie Lapoix, 25 anos, amiga de Anas K. 

“Não sabemos se as dificuldades que suportamos e o trabalho duro que investimos nos estudos serão recompensados, porque conhecemos um número cada vez maior de pessoas cheias de diplomas de pós-graduação que não encontram emprego.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Tudo o que sabemos sobre:
França [Europa]

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.