Jim Huylebroek para The New York Times
Jim Huylebroek para The New York Times

Estudantes afegãs superam barreiras com alta taxa de aprovação nas universidades

Escola Rustam não tem eletricidade, aquecimento, computadores ou copiadoras em suas instalações

Rod Nordland, The New York Times

06 de julho de 2019 | 06h00

YAKAWLANG, AFEGANISTÃO - As alunas começaram a aparecer por volta de 7 horas da manhã, vindas de várias direções até a pequena escola no fundo do vale. Vestindo uniformes escolares azul claro e lenços brancos na cabeça, muitas delas, entre sete e 18 anos, já haviam caminhado talvez mais de uma hora. Às 7h45, foram reunidas no pátio da Escola Rustam, localizada nesse lugar remoto do distrito de Yakawlang, no Afeganistão. Esta é a única escola de segundo grau da região, e tem 330 garotas e 146 garotos matriculados.

A escola não tem eletricidade, aquecimento, computadores ou copiadoras. O material escolar é escrito à mão pelos professores. As aulas são realizadas em sete cômodos de pedra e mais seis grandes barracas de lona. Uma professora disse que não tem livros suficientes para todos os alunos.

Contudo, 60 dos 65 que se formaram em 2017 em Rustam foram aceitos em universidades públicas do Afeganistão, com uma taxa de aprovação em faculdades de 92%. Dos aprovados, 65% eram meninas. “Homens e mulheres são iguais”, diz Mohammad Sadiq Nasiri, o diretor. “Eles têm o mesmo cérebro e o mesmo corpo”.

“Nós dizemos a estes meninos e meninas que não há nenhuma diferença entre eles, e que quando ingressarem na universidade estudarão juntos, por isso precisam aprender a se respeitarem mutuamente”. Um dia, no final do semestre, Badan Joya, uma das cinco mulheres entre os 12 professores da escola, estava ensinando matemática em uma das barracas superlotadas. Um papelão pintado de preto servia de lousa. Ela perguntou aos alunos, quase todos meninas, que falassem qual era a sua matéria preferida. “Matemática”, elas reponderam.

Isto não surpreende em Rustam; 40% das questões nos exames de ingresso para a faculdade são de matemática. E as meninas são as que mais se destacam. Shahrbano Hakimi, 17 anos, é a líder dos alunos da 11º série. E é também a melhor aluna da aula de computação, onde, recentemente, as meninas estudavam o sistema operacional Windows nos livros. Somente um dos alunos tinha computador em casa. “A coisa que mais desejo no mundo”, disse Shahrbano, “é um laptop”.

Quando o regime Talibã imperava no Afeganistão, a educação das meninas era proibida e as mulheres eram confinadas na maior parte a suas casas, principalmente nas áreas rurais. A paixão local pela educação é uma reação àquela época, afirmaram os professores. Joya, que tem 28 anos, só começou a estudar quando o talibã saiu; ela tinha 11 anos, e não sabia nem ler nem escrever.

“Tive de começar do zero”, contou. “Nós falamos às meninas a respeito do talibã e do que ele fazia com a gente, e explicamos: ‘Agora, vocês têm uma oportunidade, devem aproveitá-la’. Elas prestam atenção. Mas ouvem estas coisas em casa também, das mães e das tias”. As meninas da Rustam estão muito motivadas. “Honestamente, as meninas são melhores do que os meninos, são mais sérias”, disse Nasiri. “Todos estes garotos sabem que não é possível escravizar uma pessoa que estudou”.

Amina, que usa só um nome, é a líder de toda a escola. Ela se considera uma pessoa de sorte, porque seu pai estudou, mas sua mãe é analfabeta. Será a primeira de oito irmãos a concluir o curso secundário. Ela espera ir para a Mawoud Academy de Cabul, uma escola preparatória para a universidade e estudar medicina.

Hakimi também sonha estudar medicina, em parte porque sua mãe sofre de problemas de visão e seu pai é quase surdo aos 65 anos. “Eu não estudei”, disse seu pai, Ghulam Husssein. “Sou apenas um camponês. Não quero que eles tenham a mesma vida”. Dos seus 11 filhos, um filho e duas filhas já estão na faculdade.

“Tenho orgulho deles”, disse Zenat, a mãe de Hakimi. Sua família é um exemplo do motivo pelo qual há menos meninos frequentando a escola. Seu filho Ali, 9, fica em casa para ajudar os pais, e seu irmão Reza, 12, trabalha nos campos. Mas todas as filhas estão na escola.

Um dia, Nasiri, o diretor, observou que uma das alunas se escondia atrás das outras durante a reunião no pátio porque estava sem uniforme. Sua família era pobre demais para comprá-lo. Então ele comprou algodão azul no bazar vizinho, e a professora de matemática, Joya, costurou uma roupa para ela.

Nasiri precisou pedir o dinheiro emprestado para comprar o tecido. Seu salário é menos de US$ 200 por mês. Diretor da Escola Rustam nos últimos seis anos, Nasiri sustenta quatro filhas e dois filhos com sua esposa, Roya, 45. Eles se casaram durante o regime talibã, e ele ensinou a esposa a ler e a escrever.

“Nos conversamos e decidimos que ela iria para a escola”, contou. “Os filhos vão melhor quando a mãe estuda.” Sua filha maior acabou o secundário quatro anos antes da mãe. Este ano, Roya concluiu o secundário, e no ano que vem a prestará os exames de ingresso na faculdade, disse Nasiri com muito orgulho. “Ela cuidou de seis filhos”, afirmou. “Agora precisa cuidar de si mesma”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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