Emily Berl par The New York Times
Emily Berl par The New York Times

Estudantes celebram cultura mexicana em festival nos Estados Unidos

O festival Danzantes del Valle reúne estudantes de origem latina de diversas escolas para celebrar sua cultura em solo americano

Patricia Leigh Brown, The New York Times

28 Março 2018 | 10h00

FRESNO, CALIFÓRNIA - Nos bastidores do Warnor’s Center for the Performing Arts da cidade, Ariana Ferrer, aluna do primeiro ano do ensino médio de Portersville, Califórnia, aplicava um fixador de cabelo no pregos enfiados nas solas de seus sapatos de dança para não escorregar durante uma série de movimentos extremamente rápidos de seus pés.

No último sábado de fevereiro, Ariana e 200 colegas de escola apresentaram-se no Danzantes del Valle: High School Show Offs, o maior evento do ano para estudantes locais apaixonados pelo Folklórico, a tradição histórica da dança das culturas regionais do México. Em uma espécie de camarim, as garotas aplicavam batom usando a câmera dos celulares como espelho. Os rapazes lutavam para enfiar os pés em suas botas pontudas.

Danzantes del Valle, organizado por um grupo de diretores de escolas de dança e pela ArteAmericas, um centro de artes latino-americanas sem fins lucrativos, é um evento anual. Na edição deste ano, apresentaram-se grupos folclóricos de 11 escolas, todas do Vale de San Joaquin, uma grande região agrícola no centro do estado. Aqui, a taxa de pobreza dos jovens é elevada e muitos trabalhadores que passam dias seguidos cuidando da colheita têm dificuldade para pôr comida na mesa.

Para os jovens bailarinos que se dedicam à dança e encontram aqui uma comunidade de espíritos amantes do folclórico, o atual clima político nos Estados Unidos - com a perseguição da polícia da imigração e a retórica antimexicana - contribui para incentivá-los a trabalhar com maior afinco. “Muitos odeiam nossa cultura neste momento”, disse Jenny Cruz, do último ano da Central High School de Fresno. “Dançar nos faz sentir mais fortes do que o ódio”.

O programa em Porterville, cidade a cerca de 100 quilômetros a sudeste de Fresno, onde aproximadamente 80% dos estudantes é de origem latino-americana, é emblemático desta nova explosão de energia. Com apenas 85 estudantes há mais de dez anos, no começo, atualmente conta com mais de 450 inscritos - e há ainda uma longa lista de espera.

De Guymon, Oklahoma (com uma população de 12 mil habitantes), a grandes cidades como Dallas e Tucson, o folklórico está sendo adotado pelas escolas como parte do currículo de artes do espetáculo ou de educação física. Maria Luisa Colmenarez, presidente da ONG sem fins lucrativos Danzantes Unidos, uma rede transnacional de bailarinos, disse que esta é “uma declaração de que os estudantes constituem o tecido que faz da América, a América”.

No Distrito Escolar Independente de Dallas, o Folklórico “está no mesmo plano do balé e da dança moderna”, afirmou Rachel Harrah, a diretora de dança do distrito.

José Tena, um respeitado bailarino e professor de Las Cruces, Novo México, explicou que “o objetivo não é criar bailarinos profissionais, mas membros da comunidade que valorizem a própria identidade”.

Quando os alunos da Monache High entraram no palco, em Fresno - os meninos de calças compridas de camurça e lenços vermelhos, as garotas com suas saias que se tornavam um turbilhão caleidoscópico de cores em movimento -, iniciaram a dança “El Sapo”, saltando alternadamente ao som de uma marimba. Nesta dança, eles seguem uma tradição em que cada bandana, traje, penteado, lenço, leque e par de botas remete a uma região específica do México.

No Folklórico, os dançarinos criam desenhos em que trocam de posição e mudam a velocidade usando passos tradicionais como a Lazada, que imita as técnicas da arte do laço dos vaqueiros; ou como em Nayarit e em outros estados costeiros, passos agressivos em que os homens exibem sua enorme habilidade dançando com facões. Outros passos imitam pássaros, iguanas e cobras, que se desfazem com o toque de "sombreros". As danças de Jalisco, que o público adora, exibem fantásticos volteios com as saias, em que as moças fazem rodopios com duas camadas de cores turbulentas formando um verdadeiro espetáculo.

Durante o festival, um grupo de Porterville apresentou “La Bruja”, uma dança de Veracruz em que mulheres de vestido de gaze branca equilibram sobre a cabeça um copo que contém uma vela acesa. O brilho etéreo sugeria o poder de transformação do Folklórico. “A gente pisa forte com os pés, mas a sensação é de leveza”, disse Sumith Goyal, de Central High.

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