Jared Soares para The New York Times
Jared Soares para The New York Times

Estudantes dos EUA travam embate com ativistas pró-armas

Ativistas favoráveis e contra o controle de armas nos Estados Unidos avaliam os próximos passos após as marchas que tomaram o país em março, apostando que, em algum momento, o outro lado vai se cansar

Matt Flegenheimer e Jess Bidgood, The New York Times

10 Abril 2018 | 10h15

BERRYVILLE, VIRGÍNIA - Há mais de um mês, as perguntas ricochetearam a pitoresca Main Street, passando pelas barbearias, pela venda de vassouras ao ar livre e pelo mural com o cavalo - calmas no início, quando o massacre do tiroteio na escola da Flórida ainda era recente, e então não tão silenciosas. 

Por que dessa vez seria diferente? Por que deveria ser?

"Toda vez que algo acontece, todo mundo começa a vociferar", disse Garland Ashby, 77 anos, morador desta cidade de 4.200 habitantes e dono de 75 armas, sobre os recentes protestos pelo controle de armas. Segundo ele, o assunto "fica alguns meses no noticiário e depois desaparece".

Aqui, como em outros lugares dos Estados Unidos, um consenso se formou: os dois lados pensam que estão sendo subestimados. Ambos insistem que seus adversários se cansarão em algum momento.

"Isso vai passar", previu Ashby. "Como todas as outras vezes."

“Eles estão esperando que a gente se canse”, disse Rosie Banks, 17 anos, estudante do ensino médio em Sterling, na Virgínia, que tem em seu quarto um cartaz com a frase “Serei a próxima?”, que carregou pela capital no último mês, e um peixe chamado Malcom X. “Não vamos nos cansar”..

Tanto antes como depois dos protestos, os estudantes do Ensino Médio mostraram-se ansiosos para fazer planos a longo prazo.

Neste trecho da Virgínia do Norte, os estudantes estão tentando organizar um encontro com a deputada Barbara Comstock, uma apoiadora da Associação Nacional de Rifles (NRA) e uma das republicanas mais vulneráveis do Congresso.

Novos eventos para registrar eleitores, liderados por adolescentes, estão em curso. Os estudantes estão consultando grupos como o Everytown for Gun Safety, fundado e financiado por Michael R. Bloomberg, e o Brady Campaign to Prevent Gun Violence - para discutir como organizar seus próprios eventos ou iniciar clubes em suas escolas.

De olho na história, os ativistas iniciantes estão pesquisando protestos estudantis da era do Vietnã por contexto e inspiração. Eles estão citando letras do musical da Broadway “Hamilton”: “Este não é um momento, é o movimento”.

Esse movimento, no entanto, dependerá de reverter a baixa média de comparecimento de jovens eleitores americanos nos últimos anos. Nas eleições de 2014, menos de 20% dos eleitores com idades entre 18 e 29 anos foram às urnas, em comparação com mais de 40% dos eleitores entre 45 e 59 anos, de acordo com uma análise dos dados da pesquisa. Enquetes recentes sugerem que a lacuna pode diminuir um pouco neste outono. Uma pesquisa da Universidade Quinni-piac divulgada no fim de fevereiro revelou que 54% daqueles entre 18 e 34 anos disseram estar mais motivados do que o normal para votar, superando todas as outras faixas etárias.

Os donos de armas, conscientes de que as ondas de ativismo em massa se dissiparam por conta própria após os recentes tiroteios, ainda não se arriscam. Alguns esforços têm sido desagradáveis: sobreviventes do massacre em Parkland, na Flórida, em fevereiro, onde 17 adolescentes foram mortos e 17 feridos, foram tema de teorias de conspiração na internet e de ficções bizarras. E mais defensores cívicos dos direitos das armas estão discutindo manifestações para demonstrar seu poder coletivo.

"Todos esses apelos pelo controle de armas estão apenas levando os donos de armas a prestar atenção", disse Philip Van Cleave, líder da Liga de Defesa dos Cidadãos da Virgínia, um grupo de defesa da posse de armas. "Este não é um movimento unidirecional por qualquer meio".

Depois, há a NRA, cujo histórico inclui poucas perdas políticas nos últimos tempos.

No entanto, os defensores das restrições sentem uma abertura. No 2º Distrito Congressional do Maine, uma região que inclui cidades pequenas e terras tão rurais que é oficialmente chamada de “território não organizado”, passeatas escolares e protestos como a “Marcha por nossas vidas” marcaram o mapa.

Os donos de armas revelam pouca preocupação imediata. “Se eles (os estudantes) ficarem por aqui, nós ainda estaremos aqui, e se não o fizerem, também continuaremos”, disse Todd Tolhurst, presidente da associação de donos de armas de Maine.

Mas os estudantes parecem confortáveis com suas chances. "Vamos sobreviver a eles", disse Sean Monteith, 17 anos, em Lewiston, Maine, acrescentando que espera que seus colegas também possam superá-los. Seu celular tem uma lista de itens de ação e lembretes: "conectar-se com o conselho da cidade", "elaborar legislação", "não seguir suposições".

"Temos muita força neste momento", disse Ian Gaskins, 17 anos, um estudante do Ensino Médio que está ajudando a planejar um fórum de controle de armas no 6º distrito do Colorado, onde o deputado Mike Coffman é considerado um dos republicanos mais ameaçados. "Eu não quero que as pessoas parem de se preocupar com isso até o próximo tiroteio em massa".

"Estudantes de ensino médio são assustadores", comentou Jay Falk, 18 anos, um estudante da Virgínia que ajudou a fundar o "Demand Action DMV", um grupo de controle de armas com mais de 100 membros. "Nós ainda não somos cínicos".

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