Vincent Tullo para The New York Times
Vincent Tullo para The New York Times

Estudantes reconstroem rostos de imigrantes mortos pelo calor do Arizona

Esforço tem o objetivo de identificar oito homens que morreram ao tentar entrar ilegalmente nos EUA e acabar com o drama das famílias

Patricia Leigh Brown, The New York Times

16 Março 2018 | 15h00

Os momentos finais da vida de oito imigrantes que tentavam cruzar a fronteira e cujos restos foram encontrados no deserto do Arizona em meados dos dois anos mais recentes sempre serão um mistério. O escritório do legista do condado de Pima definiu a causa da morte como "insolação, exposição ao ambiente de altas temperaturas". "Hipertermia decorrente da exposição aos elementos". "Desidratação, hipotensão e hipertermia decorrente da exposição ao calor do deserto". A lista prossegue.

As identidades desses oito homens permaneciam desconhecidas. As ferramentas tradicionais para identificar restos mortais, incluindo o DNA e a comparação de registros dentários, ainda não tinham rendido qualquer pista (desde 2001, os restos mortais de cerca de 2.800 imigrantes foram encontrados somente no condado de Pima, e cerca de mil dessas pessoas ainda não foram identificadas).

Agora, um esforço final para identificar esses oito homens e encerrar esse triste capítulo para suas famílias foi transferido do instituto médico legal de Tucson para uma ambientação mais refinada: a oficina de reconstrução facial da Academia de Arte de Nova York.

O curso, lecionado pelo artista forense Joe Mullins, que trabalha para o Centro Nacional para Crianças Exploradas ou Desaparecidas, tem como foco a reconstrução de rostos de imigrantes que perderam suas vidas no deserto. A oficina reflete a crescente sofisticação do campo da reconstrução facial forense, uma fusão entre ciência, arte e antropologia em que o crânio é usado como base para a construção de um rosto, ajudando os investigadores a identificar a cabeça. A técnica é bastante útil nos casos de crimes e desastres em massa.

Os estudantes de pós-graduação, cujo rigoroso treinamento clássico inclui anatomia, estão trabalhando com réplicas dos crânios dos homens feitas com impressoras 3D com base numa digitalização dos originais, considerados evidência forense. As reconstruções dos estudantes são feita com grande riqueza de detalhes sobre a argila aplicada à réplica dos crânios, usando bolas de gude nos olhos e uma caneta preta para marcar a íris.

Para o olho treinado, a estrutura do crânio humano oferece um modelo das características faciais do morto. "O crânio é a base sobre a qual o rosto de um indivíduo se constrói", disse Mullins, 47 anos. "É como o alicerce de uma casa".

O curso teve início com a análise de pistas. A espessura dos lábios, o formato e posição dos olhos, nariz e queixo e até a curvatura das sobrancelhas podem ser revelados no crânio.

Especialistas em reconstrução como Mullins, cuja especialidade é a progressão do envelhecimento (imaginar como pode ser a aparência atual de uma criança desaparecida há anos, por exemplo), buscam traços de distinção, como cicatrizes ou um nariz quebrado. Ele alerta aos estudantes que deixem a licença poética do lado de fora.

A reconstrução de um rosto com precisão científica envolve reconstruir os músculos e tecidos camada por camada, usando peças de argila. Em seguida os estudantes cortam canudos de plástico e os inserem na argila para marcar a profundidade dos tecidos, calculada a partir das médias para cada idade, gênero e contexto cultural. 

O crânio no qual Antonia Barolini, 23 anos, estava trabalhando tinha as maçãs do rosto pronunciadas, um maxilar assimétrico e uma mordida prognata. O homem tinha entre 18 e 22 anos quando morreu, de acordo com o legista do condado de Pima. "Era mais jovem do que eu", observou Antonia. "Essa parte foi difícil".

Esses estudantes são colegas de uma série de artistas que usam a reconstrução facial, investigando máscaras funerárias egípcias, máscaras mortuárias usadas para cobrir o rosto de múmias, e o trabalho de anatomistas como Gaetano Giulio Zumbo (1656-1701), que recriava os músculos do rosto com cera sobre crânios reais. O currículo da academia inclui a arte do écorché, a criação de figuras "esfoladas", com os músculos expostos.

Na academia, conforme os rostos criados pelos estudantes ganhavam forma, a sala começou a adquirir a atmosfera de um espaço sagrado. "É um pouco estranho", disse Michael Fusco, 30 anos, estudante especializado em pintura. "Eles se tornam pessoas".

Dois dos oito imigrantes foram identificados independentemente dos esforços da turma. Mas o deserto ainda contém um número desconhecido de desaparecidos. Para Mullins, a turma representa o potencial de ajudar os entes queridos dos mortos a superar a ausência daqueles que partiram talvez em busca de uma vida melhor.

"Foi uma aposta que lhes custou a vida", disse ele. "Mas não deveria custar também sua identidade".

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