Gordon Welters/The New York Times
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Estudo alemão sobre o coronavírus sugere que shows podem ser seguros

Conclusões a partir de evento-teste com 1.200 pessoas sugerem que shows em lugares fechados têm um impacto baixo no número de infecções, desde que haja boa ventilação e protocolos de higiene

Isabella Kwai, The New York Times - Life/Style

07 de dezembro de 2020 | 05h00

Pesquisadores na Alemanha podem ter boas notícias para os frequentadores de shows ao redor do mundo que estão frustrados com as restrições impostas pela disseminação do coronavírus.

A análise de um show simulado por cientistas em um recinto fechado em agosto sugere que o impacto de eventos similares na propagação do coronavírus varia de "baixo a muito baixo", desde que os organizadores assegurem ventilação adequada, rígidos protocolos de higiene e limite de capacidade, segundo os pesquisadores alemães que conduziram o estudo.

"Não há nenhum argumento para que eventos assim não sejam promovidos. O risco de infecção é muito baixo", disse em entrevista o dr. Michael Gekle, da equipe da Universidade Martinho Lutero de Halle-Wittenberg, que conduziu a pesquisa.

O evento de teste, um dos primeiros exames minuciosos de como um vírus pode ser transmitido entre uma multidão em local fechado, foi observado de perto pela indústria de entretenimento global, que tem sido prejudicada pelo bloqueio na maioria dos países desde que a pandemia começou, no início deste ano.

Alguns especialistas se mostraram céticos em relação aos resultados, afirmando que precisavam ser replicados e revisados, e que mais informações sobre o modelo usado pelos pesquisadores eram necessárias.

O dr. Gabriel Scally, presidente de Epidemiologia e Saúde Pública da Sociedade Real de Medicina, declarou que as descobertas eram potencialmente "úteis", mas que talvez seja difícil replicar os controles que os pesquisadores implementaram em outros eventos da vida real.

Para medir os contatos durante o show, que foi realizado em Leipzig, os voluntários fizeram primeiro um teste para saber se estavam com o vírus e tiveram a temperatura checada antes de entrar no recinto. Cada pessoa recebeu um higienizador para as mãos com um corante fluorescente e um rastreador digital de localização. Vários cenários de distanciamento social foram simulados ao longo de dez horas, e intervalos foram estabelecidos para que os participantes fossem ao banheiro e simulassem a compra de comida e de bebida.

Os participantes se mantiveram próximos uns dos outros em um primeiro cenário, parcialmente distantes em formação de tabuleiro de xadrez em um segundo e bastante distantes em um terceiro. Os pesquisadores também usaram uma máquina de fumaça para observar o movimento do ar no recinto e calcular a probabilidade de exposição a gotículas de aerossol.

Em um modelo, jatos localizados acima das fileiras mais altas enviaram ar fresco em direção à pista interna do recinto. Em outro, o ar fresco foi sugado do telhado para o recinto e os jatos foram desligados.

De acordo com os pesquisadores, a modelagem por computador apontou que um número dez vezes maior de pessoas foi exposto ao aerossol de uma pessoa infectada no segundo cenário em comparação ao primeiro, sugerindo que a circulação regular de ar diminuiu a densidade de qualquer vírus no aerossol. Já com o distanciamento social, a exposição ao aerossol diminuiu ainda mais. "Sabíamos que a ventilação era importante, mas não esperávamos que fosse tão importante assim", comentou Gekle.

A simulação também revelou que o contato prolongado - de pelo menos vários minutos - foi maior durante os intervalos da programação e quando o público entrou no recinto.

Mas Paul Linden, professor de Mecânica dos Fluidos da Universidade de Cambridge, observou que a modelagem por computador não levou em consideração fatores como a elevação da temperatura causada pela plateia ou a turbulência do ar interno, e que era difícil determinar se foi o padrão de fluxo de ar ou uma menor ventilação no local que ocasionou o aumento da exposição ao aerossol. E acrescentou que, como regra geral, os recintos precisam absorver o máximo de ar limpo possível para reduzir a taxa de transmissão.

A equipe alemã já fez uma série de recomendações de segurança para a realização de eventos ao vivo, incluindo a instalação de uma nova tecnologia de ventilação que troque o ar de maneira efetiva e regular, a definição de intervalos para que o público possa comer e beber sentado, a obrigatoriedade do uso de máscara e o direcionamento do público através de múltiplas entradas.

Os organizadores de eventos receberam as recomendações com otimismo cauteloso. "É óbvio que, se a máscara funcionar para os shows maiores, será um grande progresso", disse Emily Eavis, coorganizadora do Festival de Glastonbury, evento ao ar livre que atraía multidões de cerca de 135 mil pessoas antes que a pandemia o cancelasse no último verão boreal. Mas ela acrescentou que é muito cedo para dizer. "Esperaremos por mais novidades até o fim do ano."

E pesquisadores em outros países estão trabalhando em estudos similares na esperança de encontrar uma maneira segura e viável de reabrir os estabelecimentos noturnos, mesmo com a pandemia ainda presente.

"Estamos monitorando de perto e com grande interesse todas as iniciativas semelhantes na Europa", escreveu em um e-mail Marta Pallarès, porta-voz do Primavera Sound, festival anual produzido na Espanha.

Os organizadores do Primavera Sound estão ajudando a realizar um estudo para monitorar se o teste rápido de coronavírus pode ser uma medida de triagem eficiente para os eventos de música ao vivo. "Todos esses projetos são extremamente importantes para garantir o novo futuro da música ao vivo", concluiu Pallarès.

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