Thomas Peter/Reuters
Thomas Peter/Reuters

Estudo liga poluição a declínio cognitivo em seres humanos

Ar poluído é péssimo para os pulmões e, muito provavelmente, para o cérebro

Mike Ives, The New York Times

25 Setembro 2018 | 10h15

HONG KONG - Um amplo estudo realizado na China sugere que existe uma relação entre a poluição do ar e consequências negativas registradas na linguagem e na habilidade matemática das pessoas.

A relação entre a poluição e as doenças respiratórias já é bastante conhecida, mas a maioria dos especialistas agora acredita que partículas ínfimas também podem elevar o risco de infartos e derrames. Ainda não se sabe ao certo se esta forma de poluição atmosférica prejudica a cognição, mas vários estudos sugerem a existência de uma relação.

O estudo mais recente, realizado por pesquisadores na China e nos Estados Unidos, analisou as consequências da exposição à poluição atmosférica no desempenho em testes de matemática e de reconhecimento da fala em mais de 25 mil pessoas de 162 condados chineses.

Os autores concluíram que os efeitos em termos cognitivos da exposição cumulativa entre os que se submeteram aos testes foram particularmente acentuados entre homens mais velhos. Os resultados são preocupantes, em parte porque o declínio cognitivo e os danos decorrentes são fatores de risco para a doença de Alzheimer e outras formas de demência.

O estudo “amplia ainda mais a necessidade de combater a poluição atmosférica desde já a fim de proteger particularmente a saúde dos jovens e das populações mais velhas”, afirmou em um e-mail Heather Adair-Rohani, da World Health Organization de Genebra.

Uma equipe de pesquisadores da França e da Grã-Bretanha afirma em um estudo de 2014 que a poluição causada pelo trânsito em Londres esteve associada ao declínio das funções cognitivas ao longo do tempo entre os participantes do estudo, cuja idade média era de 66 anos.

Na China, que já tem a maior população mundial com demência, o número deverá subir de cerca de 44,4 milhões em 2013, para 75,6 milhões até 2030.

As constatações do novo estudo “implicam que os efeitos indiretos para o bem-estar social serão muito maiores do que se pensava anteriormente”, escreveu o autor. “Uma atenção inadequada aos efeitos negativos para a saúde poderá subestimar o custo total da poluição atmosférica”.

O estudo constatou que “a exposição cumulativa” exerceu um efeito significativo sobre os resultados de testes verbais, principalmente para os homens mais velhos com menor escolaridade.

Como a indignação da população cresceu na China por causa do smog e das doenças respiratórias a ela relacionadas, nos últimos anos, as autoridades fecharam centenas de usinas elétricas movidas a carvão, impuseram limites à circulação de veículos e à utilização de carvão nas habitações, e enviaram equipes de policiais para inspecionar as fábricas.

Um recente estudo mostrou que cerca de 142 milhões de pessoas, ou pouco mais da metade da população entrevistada em 155 cidades chinesas, ficaram expostas em 2014 a “concentrações anuais de multicontaminantes” que estavam acima dos limites fixados pela Organização Mundial da Saúde.

Rajasekhar Balasubramanian, um especialista em qualidade do ar na Universidade Nacional de Cingapura que não participou do estudo, disse que agora pesquisas semelhantes serão necessárias em outros países.

“O resultado de tais estudos fornecerá uma base científica confiável para que seja possível estabelecer padrões de qualidade do ar a fim de reduzir a poluição atmosférica”, afirmou o dr. Balasubramanian, “e proteger a saúde pública tanto nos países desenvolvidos quanto nos em desenvolvimento”.

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