Um estudo sobre pesticidas deve afetar o uso que fazemos deles?

Um estudo sobre pesticidas deve afetar o uso que fazemos deles?

Uma pesquisa recente, que encontrou uma ligação entre piretroides e mortes por doenças cardíacas, destaca as limitações da pesquisa epidemiológica

Jane E. Brody, The New York Times - Life/Style

05 de setembro de 2020 | 05h00

Com mais pessoas optando por escapar da prisão provocada pelo novo coronavírus para os jardins, os parques, os bosques e as ruas, um estudo recente sugere outro risco potencial à saúde, embora muito menos preocupante do que o vírus: a exposição a piretroides, um grupo importante de inseticidas amplamente usado para proteger contra tudo, desde os parasitas da malária e os vírus do Nilo Ocidental até percevejos e a carrapatos, bem como uma série de pragas agrícolas e de jardim.

O estudo, que descobriu uma relação entre piretroides e mortes por doenças cardíacas, é em si um conto de advertência, que pode ajudá-lo a entender melhor as implicações e as limitações da pesquisa epidemiológica.

Os piretroides, principais componentes dos inseticidas usados em recintos fechados e ao ar livre, são o segundo tipo de pesticida mais usado no mundo, depois do clorpirifós. Normalmente, são considerados inofensivos para pessoas e animais nas concentrações necessárias para proteção contra criaturas de seis ou oito patas que transmitem doenças. São derivados de compostos denominados piretrinas, encontrados naturalmente nas flores de crisântemos.

Mas, só porque a origem dos piretroides é natural, isso não quer dizer necessariamente que são seguros, especialmente se as pessoas são crônica ou repetidamente expostas a eles. Quase toda substância pode ser um perigo potencial.

Em estudos de laboratório, doses de piretroide muito maiores do que as encontradas normalmente nas pessoas causaram inflamação, danos ao DNA e estresse oxidativo. Esses efeitos podem ou não se desenvolver nas pessoas, mas as novas descobertas sugerem que eles podem ser biologicamente plausíveis. Além disso, estudos limitados a indivíduos encontraram relações de comprometimento do desenvolvimento neurológico, da saúde reprodutiva e de doenças importantes como diabetesdoença de Parkinson e doenças cardiovasculares.

Com a possibilidade de tais riscos em mente, uma equipe de epidemiologistas da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de Iowa examinou os efeitos em longo prazo da mortalidade causada pela exposição a piretroides em uma amostra nacionalmente representativa de 2.116 adultos americanos, que participaram da National Health e Nutrition Examination Survey (Pesquisa Nacional de Saúde e Nutrição), conhecida como NHANES, realizada de 1999 a 2002.

O estudo em andamento reúne os dados de um questionário abrangente dos participantes, todos eles entrevistados pessoalmente, e inclui exames de saúde e coleta de amostras de sangue e urina para exames laboratoriais. As amostras são congeladas e podem ser usadas para fornecer dados para estudos que serão realizados no futuro.

Até o fim de 2015, haviam morrido 246 participantes da pesquisa de Iowa. A equipe do estudo relatou na revista médica "JAMA Internal Medicine" que os participantes que apresentaram os níveis mais altos de exposição inseticidas com piretroides tinham três vezes mais chances de morrer de doenças cardíacas do que aqueles que foram menos expostos. E eles tinham uma chance e meia a mais de morrer por qualquer causa durante o período de acompanhamento.

A exposição foi avaliada por meio da medição dos níveis urinários de um metabolito de piretroides chamado 3-PBA, encontrado em dois terços das pessoas analisadas. Essas substâncias químicas são normalmente excretadas com rapidez; portanto, encontrá-las em tantos indivíduos significa que a maioria das pessoas está sendo crônica ou repetidamente exposta a piretroides.

Mas, antes de você jogar fora seu estoque ou parar de estocar produtos que contenham piretroides, considere todas as implicações e as limitações das novas descobertas e as vantagens e as desvantagens de evitar esses inseticidas valiosos.

Em um comentário na revista, dois especialistas da Escola de Saúde Pública Mailman da Universidade Columbia alertaram contra a interpretação exagerada dos resultados do novo estudo e contra a pressa em obter conclusões potencialmente injustificadas sobre a segurança em longo prazo do uso de piretroides. 

Steven D. Stellman, epidemiologista, e sua esposa, Jeanne Mager Stellman, especialista em políticas de saúde pública, destacaram que os participantes eram relativamente jovens – entre os 20 e os 59 anos – quando começaram a participar do estudo e forneceram as amostras de sangue e de urina. Quando o estudo terminou, eles tinham, em média, 57 anos, uma idade bastante jovem para medição de óbitos por doenças cardiovasculares, observaram os especialistas.

"Além do tabagismo, poucas exposições a substâncias químicas – se é que existe alguma – são conhecidas por desencadear um aumento de três vezes do risco de morte por doença cardíaca, especialmente em pessoas com menos de 60 anos", escreveram os médicos, acrescentando que outros fatores, ainda desconhecidos, poderiam ser responsáveis pelo aumento dos riscos.

Em outras palavras, um estudo não determina um padrão, nem antes, nem agora, nem no futuro. A própria equipe do estudo de Iowa concluiu: "Mais estudos são necessários para replicar as descobertas e determinar os mecanismos subjacentes. É possível que a exposição a piretroides ocorra simultaneamente à exposição a outros pesticidas comuns ou que fatores não mensurados ou não reconhecidos contribuam para os resultados."

O estudo observacional deles, por si só, não pode provar causa e efeito. Tais estudos podem gerar pistas ou levantar novas perguntas que justifiquem um olhar mais atento. Mas eles não provam que os piretroides, como são usados atualmente, são um risco à saúde da população.

De acordo com Stellman, por mais minuciosos que os pesquisadores de Iowa tenham tentado ser, "são necessários muitos estudos para estabelecer que uma exposição pode provocar realmente um problema de saúde humana. Há milhares de variáveis que não foram medidas, incluindo fatores psicológicos, que podem influenciar o risco de doença coronariana. A pesquisa é limitada às perguntas que foram feitas na NHANES há 20 anos."

"Além disso, mesmo que algum risco à saúde cardiovascular possa resultar da exposição a piretroides, isso não significa que os produtos químicos devem ser abandonados sem levar em consideração outros benefícios à saúde, como o enorme potencial de salvar vidas da malária e da Febre do Nilo Ocidental. Em uma visão geral das coisas, não há conhecimento suficiente para fazer um pronunciamento definitivo sobre o risco."

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