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Estudo relaciona vírus ao Alzheimer

Infecções podem acelerar a deterioração do cérebro

Pam Belluck, The New York Times

07 Julho 2018 | 11h00

Esta é, há muito tempo, uma controvertida teoria sobre a doença de Alzheimer, frequentemente menosprezada por especialistas como um desvio questionável da pesquisa convencional. Mas um novo estudo, realizado por uma equipe de pesquisadores, entre eles destacados cientistas que se dedicam à doença e que anteriormente eram céticos a essa teoria, pode ter mudado sua perspectiva. A pesquisa apresenta consideráveis evidências da ideia de que os vírus poderiam estar envolvidos no mal de Alzheimer, particularmente dois tipos de herpes que infectam a maioria das pessoas e depois permanecem dormentes anos a fio.

O estudo, publicado na revista “Neuron”, constatou que os vírus interagem com genes ligados à doença de Alzheimer e podem influir em seu desenvolvimento e em sua progressão. Os autores enfatizaram que esses vírus não são os causadores da doença, mas que sua pesquisa, juntamente com outro estudo a ser publicado em breve, sugere que os vírus podem desencadear uma resposta do sistema imunológico aumentando o acúmulo de amiloides, substâncias proteicas do cérebro humano que se acumulam nas placas, denunciando a doença.

“Estes vírus provavelmente são elementos significativos do sistema imunológico nesta doença”, disse Joel Dudley, autor principal do estudo e professor da Icahn School of Medicine, em Nova York. “Acho que são como um gás lançado sobre as chamas de alguma patologia que pode originar-se no sistema imunológico”.

Neste caso, isso poderia mudar a pesquisa e possivelmente levar a tratamentos e a novas técnicas de rastreamento da doença.

“Isao definitivamente traz à tona o papel potencial da infecção ou de partículas infecciosas na patologia de Alzheimer”, explicou John Morris, um especialista nesta doença da Faculdade de Medicina da Universidade de Washington em St. Louis , Missouri.

Morris afirmou que a teoria fornece a evidência mais forte obtida até o presente momento de alguma influência dos vírus. O estudo analisou amostras de cerca de 950 cérebros humanos em quatro diferentes bancos de cérebros e encontrou relações com os sintomas genéticos, moleculares e clínicos do mal de Alzheimer. “Trata-se de uma moléstia muito complexa, e não haveria uma resposta única”, afirmou.

A teoria dos vírus está longe de ser aceita pela maioria dos especialistas em Alzheimer. Alguns levantam a questão do ovo ou da galinha. Poderiam vírus encontrados em quantidades maiores nos cérebros afetados por Alzheimer ser a consequência da doença, ou "espectadores inocentes", como os definiu Lennart Mucke, diretor do Instituto Gladstone de Doenças Neurológicas em San Francisco?

As novas descobertas serão respaldadas por outro estudo, que em breve será publicado na revista “Neuron”, dirigido por Rudolph Tanzi e Robert Moir, neurocientistas do Massachusetts General Hospital e da Universidade Harvard que estudam há anos a ideia do vírus.

Seus novos experimentos, realizados em camundongos e células cerebrais tridimensionais em um prato, constataram que a mesma espécie de herpes desencadeia uma reação protetora na amiloide, uma proteína presente em todos os cérebros humanos. Tanzi descreve este fenômeno como “semear” a amiloide, fazendo-a apanhar o vírus em redes fibrosas que formam placas.

Ele disse que os vírus e outros micróbios são o “prólogo” da teoria predominante segundo a qual o Alzheimer seria causado pelo acúmulo de amiloide que o cérebro não consegue limpar.

Joel Dudley, por sua vez, estava interessado em saber se alguns medicamentos existentes poderiam ser propostos para o tratamento do Alzheimer, que até o momento vem resistindo a todas as drogas experimentadas em centenas de testes clínicos. Para começar, ele e colegas criaram modelos de computador que mapeiam as redes moleculares e genéticas rompidas pelo avanço do mal.

Os genes que estavam ativos na patologia do Alzheimer também se revelaram ativos no combate aos vírus. “Procurei as drogas, e tudo o que encontrei foram esses vírus idiotas”, brincou Dudley. E acrescentou que não pode afirmar se muitos pesquisadores do Alzheimer aceitarão em algum momento a ideia dos vírus. “Ela é muito impopular”, observou. “Tenho certeza de que há muita gente que não está satisfeita com esta explicação, mas não se manifesta”.

No entanto, prosseguiu, os pesquisadores do mal de Alzheimer “me procuram nas conferências e observam em voz baixa: 'Ah, eu também tenho dados que mostram os vírus, mas tenho receio de publicá-los'".

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