Daniel Dorsa para The New York Times
Daniel Dorsa para The New York Times

Ethan Hawke encontra a fama, mas à sua maneira

O ator nega a alcunha de 'astro do cinema', porque vê na arte algo muito mais profundo

Taffy Brodesser-Akner, The New York Times

05 Setembro 2018 | 10h00

Ethan Hawke tem, hoje, 47 anos. Quando era mais jovem, leu Cassavetes on Cassavetes, a bíblia do realizador cinematográfico independente, e depois foi conversar com a viúva do autor, Gena Rowlands. Ela contou que John Cassavetes se decepcionava continuamente porque ninguém financiava seus filmes e que ele sempre se sentira menosprezado, desrespeitado. "E agora vocês querem valorizá-lo", afirmou Gena.

Ela achou que isso era muito bom, mas que o importante era não esquecer o fundamental. "Vocês é que devem se valorizar. Se vocês acham que o mundo os trata com indiferença, Cassavetes sentia o mesmo. Vocês são como ele. Façam o que acharem que precisam fazer".

Hawke encontrou nisso uma motivação, ou seja, ignorar o que o mundo fala de você e pautar-se somente de acordo com os princípios que cada um estabelece para sua vida e seu trabalho. Então, propôs a si mesmo que faria tudo o que estivesse ao seu alcance para fazer uma boa arte, à sua própria maneira, independentemente do que os outros dissessem. Ele levaria a sério a si mesmo, mesmo que ninguém o fizesse.

Foi quando conseguiu seu primeiro papel como ator principal em Os Exploradores, aos 14 anos. Aos 20, interpretou Caninos Brancos e Sociedade dos Poetas Mortos. Mas ele não queria apenas ser um astro do cinema. Em 1991, fundou uma companhia teatral, entretanto, o mundo não entendeu como reagir a suas grandes ambições.

Estreou na Broadway em 1992 em The Seagull. O jornal The New York Times disse que ele interpretou Konstantin mexendo os braços com uma energia nervosa pouco determinada”. A revista Variety declarou que a sua interpretação foi “realmente pouco eficiente” em Henrique IV, em 2003: "O ator Ethan Hawke não atinge sua profundidade". O Chicago Tribune afirmou que seu Macbeth, em 2013, foi "um herói trágico sem ímpeto".

Todas as vezes que ele mostrava ambições fora do padrão do ídolo das sessões de cinema, era a mesma coisa. Em 1998, a respeito do filme Grandes Esperanças, The Times afirmou que "Hawke raramente registra algo mais interessante do que espanto diante da boa sorte de Finn". De seu Hamlet, em 2000, o jornal disse que “a amargura de Hawke retarda demais o fluir das coisas”. Segundo a Variety, “este príncipe preguiçoso cria um sumidouro no centro da adaptação moderna do diretor Michael Almereyda que, do contrário, seria interessante".

Hawke escreveu um romance, The Hottest State, que a revista Kirkus considerou "escrito de maneira desastrada". A adaptação cinematográfica que ele dirigiu recebeu uma crítica semelhante. The Times a descreveu como algo "de quase duas horas de duração, e com uma continuidade narrativa um tanto tênue".

Mas ele nunca esqueceu Cassavetes. Nunca esqueceu que é perfeitamente possível que as pessoas não apreciem o trabalho que você está realizando. E que talvez venham a apreciá-lo somente muito depois de sua morte. Ou mesmo nunca. Mas isso não significa que você não deva fazê-lo.

Os críticos – os que o chamaram de pretensioso, demasiadamente consciencioso e extremamente sério para um ator de cinema – tornaram-se uma força que ele aprendeu a desafiar, ou mesmo a ignorar. 

Hawke escreveu mais dois romances, e outro em quadrinhos intitulado Indeh, sobre as nações apache. Continuou encenando peças. Dirigiu um vídeo musical, e outros filmes. Foi coautor das continuações de Antes do Amanhecer - Antes do Pôr-do-Sol em 2004, enquanto seu casamento com Uma Thurman estava desmoronando. "E eu peguei aquilo tudo e o coloquei no filme"; e Antes da Meia-Noite, em 2013. Foi indicado ao Oscar na categoria de melhor adaptação cinematográfica de ambos os filmes.

Mas isso quase não teve importância na época. No verão do ano passado, quando uma adaptação cinematográfica de Camino Real de Tennessee Williams, que iria dirigir, atrasou, ficou nove meses livre de compromissos.

Há algum tempo, queria escrever e dirigir um filme sobre Blaze Foley, um cantor country pouco conhecido, que morreu em 1989. Foley dedicou a vida à música, mas achava que a comercialização poderia corrompê-la. Hawke adorava isso. Sua esposa, Ryan Hawke, tinha uma amiga de infância casada com Ben Dickey, um músico folk que se assemelhava a Foley.

No Réveillon de 2016, Dickey pegou um violão e começou a cantar a música de Foley, “Clay Pigeons”. Ele a cantou de uma maneira extremamente sofrida, e foi como se Foley estivesse lá. Dickey concordou em interpretar o papel do próprio Foley no filme, embora nunca tivesse atuado antes.

Blaze entrou nos cinemas precedido por críticas sem qualquer qualificativo que mencionassem sua admiração pelo filme e pelo diretor. E Hawke é um forte concorrente ao Oscar por sua interpretação do pastor que sofre de depressão em First Reformed.

Richard Linklater, que dirigiu Boyhood: da Infância à Juventude e a trilogia Antes de..., afirmou que Hawke tem este instinto desde o início de sua carreira.

Quando Linklater estava escolhendo o casting de Antes do Amanhecer, lembra que naquele momento Hawke estava recebendo diversas ofertas em Hollywood. "Entretanto estava em conversações com um sujeito sobre o projeto de um filme independente. Havia a possibilidade de ele ir a Viena e fazer um trabalho não pelo dinheiro, pois o orçamento era superbaixo, e ele achava que provavelmente não fosse funcionar, e exigiria o maior esforço para fazer com que funcione como filme. Ethan recusou muitas vezes a fama, a fama à maneira de Hollywood".

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