Lee Snow/Orquestra Sinfônica de Cincinnati
Lee Snow/Orquestra Sinfônica de Cincinnati

Debatendo etiqueta em casas de espetáculos na era dos smartphones

“Isso virou uma guerra para definir quem pertence ao ambiente e quem faz as regras”, afirmou Kirsty Sedgman, autora de livro sobre o tema

Michael Paulson e Michael Cooper, The New York Times

17 de outubro de 2019 | 06h00

Joshua Henry, que estrela o novo musical The Wrong Man, fora do circuito da Broadway, tentava repetidamente expressar sua reprovação a um homem em um dos assentos no palco que usava o smartphone para registrar a apresentação, mas não estava conseguindo se fazer entender.

Na terceira canção, Henry estava farto. Então ele se aproximou dos assentos, arrancou com destreza o telefone das mãos do homem, abanou o aparelho em sinal de desaprovação e o jogou para baixo de uma plataforma — tudo no meio da música, sem perder o ritmo. “Eu sabia que tinha de fazer algo”, ele explicou depois.

Apenas algumas noites antes, em Ohio, a renomada violinista Anne-Sophie Mutter parou de tocar no meio de uma obra de Beethoven para pedir que uma mulher sentada na primeira fileira parasse de gravar um vídeo dela. A mulher se levantou para responder e, depois, foi escoltada para fora da sala de concerto pelo presidente da Orquestra Sinfônica de Cincinnati, e a música foi retomada.

Ambos os artistas foram aplaudidos — diretamente e, depois, nas redes sociais — por tomar uma atitude contra as crescentes fileiras de viciados em smartphones que não conseguem resistir à tentação de tirar fotos e fazer gravações, prática frequentemente proibida por regras ou leis, que distrai artistas e espectadores — e que podem constituir uma forma de roubo de propriedade intelectual.

Mas confrontos desse tipo estão alimentando um novo debate a respeito da etiqueta na era digital. Ninguém gosta que o toque de um celular interrompa um momento catártico. Mas tanto o teatro quanto a música clássica têm uma base de fãs que envelhece, e desejam atrair plateias mais jovens e diversificadas — e alguns sugerem que a ênfase nas restrições comportamentais seria uma forma repugnante de elitismo.

“Isso virou uma guerra para definir quem pertence ao ambiente e quem faz as regras”, afirmou Kirsty Sedgman, uma palestrante da Universidade de Bristol e autora de The Reasonable Audience, um livro que trata de debates contemporâneos envolvendo a etiqueta em casas de espetáculo.

“Todo mundo entra no teatro pensando que sua visão pessoal de como um teatro deveria ser é claramente a visão correta”, afirmou Sedgman, ressaltando que a expectativa de que as plateias sejam respeitosas data apenas do século 19: nos tempos de Shakespeare, os espectadores eram rudes.

Na noite do mês passado em que Rihanna foi à Broadway assistir à tensa Slave Play, ela mandou uma mensagem de texto para o autor da peça, Jeremy O. Harris, durante o espetáculo, que não tem intervalo. Em vez de repreendê-la, ele celebrou no Twitter a troca de mensagem, afirmando: “Quando meu ídolo me manda uma mensagem durante uma peça que eu escrevi, eu respondo”.

Previsivelmente, a tolerância dele em relação à troca de mensagens provocou críticas. Mas ele não se desculpou. “Não estou interessado em policiar as relações de ninguém enquanto assiste a uma peça ESPECIALMENTE alguém que não é parte do público regular de teatro”, afirmou ele no Twitter. O ultimato de Anne-Sophie, uma das melhores violinistas do mundo, provocou críticas — e não apenas da cinegrafista amadora.

Um insatisfeito argumentou no Twitter que “pessoas que se submetem inteiramente e reforçam rituais antiquados/arcaicos em concertos que exigem quantidades insanas de capital cultural em primeiro lugar serão completamente irrelevantes em cerca de 15 anos”. Frequentemente, o confronto entre artista e máquina tem virado tema de anedotas.

Patti LuPone tomou o telefone de um espectador durante um espetáculo fora do circuito da Broadway. Lin-Manuel Miranda recusou-se a receber Madonna no camarim porque ela mandou mensagens de texto durante o musical Hamilton e, anteriormente neste ano, ele improvisou mudando um verso da canção My Shot para repreender uma mulher que gravava um vídeo (“Tenho muita inteligência mas nenhuma educação” virou: “Moça filmando na quarta fileira, tenha mais noção”.) As apresentações tentam se ajustar e estabelecer novas regras.

Neste trimestre, o Lincoln Center, em Nova York realizará quatro concertos livre de celulares usando o Yondr, um serviço pelo qual os espectadores podem guardar seus aparelhos em bolsas lacradas durante as apresentações. A empresa afirmou que será a primeira vez que o serviço será usado em espetáculos de música clássica (tanto Madonna quanto Rihanna já usaram o Yondr para criar ambientes livres de celulares em seus próprios shows).

Mas outros tentam acolher os viciados em tecnologia: algumas orquestras, incluindo a Orquestra da Filadélfia, experimentaram deixar as pessoas ficarem com os telefones ligados durante os concertos e ofereceram um aplicativo para guiar os espectadores durante a música. A Orquestra Sinfônica de Boston também faz isso em certos concertos das Casual Fridays, em determinados assentos.

E há também as concessões mútuas: quando Bruce Springsteen esteve em cartaz na Broadway, em 2017 e no ano passado, sua produção publicou um anúncio na revista Playbill pedindo aos fãs acostumados a concertos de rock que não usassem seus telefones durante os shows, mas prometendo que Springsteen permaneceria no palco durante os agradecimentos por tempo suficiente para que as pessoas o fotografassem. A Metropolitan Opera, em Nova York, dá conselhos parecidos em seu website: “Dica: tire fotos do elenco quando todos subirem ao palco para agradecer!” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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