Laetitia Vancon para The New York Times
Laetitia Vancon para The New York Times

EUA deixam a África em meio ao crescimento de ameaças terroristas

A retirada de centenas de tropas americanas da África Ocidental aumenta a preocupação entre líderes do continente

Eric Schmitt, The New York Times

07 de março de 2019 | 06h00

LOUMBILA, BURKINA FASO - O presidente Donald J. Trump ordenou a saída da maior parte das tropas americanas da Síria. Além disso, quer repatriar milhares de soldados do Afeganistão. E centenas de comandos e de outras forças dos Estados Unidos estão deixando a África Ocidental - apesar do aumento dos ataques de grupos de combatentes islâmicos cada vez mais violentos.

A decisão enfureceu os comandantes africanos em Burkina Faso e nações vizinhas do Sahel, um vasto território subsaariano semidesértico cada vez mais devastado por bombardeios, massacres, sequestros e ataques a hotéis frequentados por ocidentais. Esta é uma região na qual o envolvimento militar dos Estados Unidos era desconhecido pela maioria dos americanos, até quatro soldados do exército serem mortos, em 2017, em uma emboscada no Níger por combatentes do Estado Islâmico.

O que vem à luz agora, afirmam os críticos, é um vislumbre do que ocorre quando as tropas americanas, particularmente as forças das Operações Especiais, recuam antes que os rebeldes sejam efetivamente dominados. A medida deixa as forças locais e aliadas se defenderem por conta própria contra o EI, a Al-Qaeda e suas ramificações.

"É um problema concreto", afirmou o coronel Moussa Salaou Barmou, comandante das forças de operações especiais do Níger, referindo-se a desativação e fechamento de oito unidades de elite de contraterrorismo americanas que operavam na África.

As tropas americanas estão reduzindo em cerca de 25% seu efetivo na África, principalmente no lado ocidental do continente. Ao mesmo tempo, os rebeldes estão atacando o norte de Burkina Faso e pressionando ao sul, ao longo da fronteira com o Níger, rumo a áreas anteriormente intocadas pela violência extremista, como Costa do Marfim, Benin, Togo e Gana, onde o Departamento da Defesa americano mantém um centro de logística.

Indicando o medo crescente, por exemplo, uma escola na aldeia de Bargo, em Burkina Faso, construiu uma parede de concreto ao redor de suas instalações para aumentar sua proteção. No mês passado, dois meninos foram sequestrados por extremistas enquanto oravam na mesquita vizinha, segundo Bonane Honore, diretor da escola.

"Estamos apavorados", disse Christine Kabore Ouedraogo, líder política de uma aldeia localizada no entorno de um campo de treinamento em Loumbila.

"A ameaça está ganhando terreno", afirmou o ministro do Exterior de Burkina Faso, Alpha Barry, em fevereiro, durante uma conferência sobre segurança em Munique. "Agora, não é apenas Sahel, mas toda a  costa da África Ocidental, e existe o risco de espalhar-se por toda a região".

A França, antiga potência colonial da África Ocidental, mantém 4.500 soldados na região para ajudar a combater os rebeldes no Níger, Chade e Mali, onde se instalou a filial da Al-Qaeda vinda do norte, em 2013.

As tropas americanas confiam aos aliados europeus e africanos a realização da maioria das missões de contraterrorismo do Sahel à Somália, enquanto os EUA fornecem principalmente apoio aéreo. Apenas neste ano, os americanos já realizaram 24 ataques aéreos contra alvos do Shabab na Somália, em comparação com 47 em todo o ano de 2018. Cerca de 6 mil soldados e mil civis do Departamento da Defesa ou empreiteiras dos Estados Unidos trabalham em toda a África.

Entretanto, a retirada ocorre em meio a uma série de ataques terroristas. Somente em Burkina Faso, o Estado Islâmico e as afiliadas da Al-Qaeda realizaram 137 ataques no ano passado, em comparação a 12 em 2016, segundo o Centro de Estudos Estratégicos para a África.

Grupos armados atacaram edifícios e escolas do governo, realizaram assaltos brutais a cafés e outros locais de encontro da população e executaram suspeitos de colaborar com as autoridades.

Analistas das forças armadas e grupos de defesa dos direitos humanos apontaram três das principais razões da espiral de violência em Burkina Faso e seus vizinhos: em primeiro lugar, as operações de contraterrorismo conduzidas pela França no Mali levaram o problema mais ao sul, em Burkina Faso. Em segundo, militantes islâmicos armados exploraram eficazmente as queixas das populações locais. E, por fim, os abusos da polícia alimentaram o recrutamento de jihadistas.

"A reformulação da política americana, que retira recursos da África, é míope e se contrapõe ao longo jogo que estava sendo utilizado por grupos islâmicos agressores", explicou Corine Dufka, funcionária do Observatório de Direitos Humanos em Washington.

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