Ilustração de Derek Brahney/New Studio; Foto de Pete Saloutos/Getty Images
Ilustração de Derek Brahney/New Studio; Foto de Pete Saloutos/Getty Images

EUA deveria combater bloqueio chinês à indústria tecnológica

Governo de Trump tem que exigir significativo acesso ao mercado de internet chinês

Tim Wu, The New York Times

16 de fevereiro de 2019 | 06h00

Enquanto China e Estados Unidos realizam negociações de alto nível sobre um possível acordo comercial, é intrigante ver o que ficou no mercado da internet chinesa. A China bloqueia ou proíbe praticamente todos os importantes concorrentes estrangeiros online, Google, Facebook, Wikipedia em chinês, Pinterest, Line (uma importante companhia japonesa de mensagens), Reddit e “The New York Times”. Até o personagem do desenho britânico Peppa Pig, e sensação da internet em vídeo, foi censurado; um editorial do jornal oficial “Diário do Povo”, do Partido Comunista, já advertiu que Peppa Pig poderia “destruir a infância”.

Há muito tempo, a China defende a censura como uma questão política, uma tentativa legítima de proteger os cidadãos do que o governo considera “informações danosas”, inclusive material que “espalha estilos de vida doentios”. Mas não é preciso ser um teórico do comércio para perceber que a censura é também uma barreira extremamente eficaz ao comércio internacional. 

A economia global da internet é avaliada em pelo menos 8 trilhões de dólares e continua crescendo, entretanto o governo Trump se concentra principalmente na indústria, na transferência de tecnologia e na agricultura, e aparentemente não exerce pressões para obter concessões neste assunto.

Protegidas contra a concorrência americana, japonesa e europeia, as empresas de internet chinesas cresceram enormemente nos últimos dez anos. Nove entre as 20 maiores companhias em valor de mercado são atualmente chinesas. Parte deste crescimento reflete a capacidade e a inovação dos engenheiros chineses, uma vibrante cultura de start-ups e o sucesso das empresas chinesas em satisfazer os gostos locais. Mas é difícil acreditar que tudo isto não tenha se beneficiado com a censura.

Além disso, as barreiras à concorrência estrangeira têm outras consequências além das econômicas. Sem melhores opções, os usuários chineses devem se contentar com empresas como a Tencent, proprietária do aplicativo privado de mensagens WeChat, e com a companhia de pagamentos online Ant Financial, cujas violações à privacidade são incrivelmente mais impressionantes do que as do Facebook e da Cambrige Analytica. Tolerando a censura chinesa, os Estados Unidos encorajam outros países a fazer o mesmo.

Quando ingressou na Organização Mundial do Comércio em 2001, a China concordou com uma ampla liberalização do intercâmbio de serviços, inclusive processamento de dados e telecomunicações. A política de internet da China deve ser entendida como uma violação dos compromissos assumidos. 

A China poderá alegar que sua política de internet é “necessária para proteger a moral pública ou manter a ordem”, invocando a relevante exceção das normas da OMC. Mas embora esta exceção possa justificar a proibição dos sites de jogo ou mesmo a Peppa Pig, no caso da maioria das barreiras da internet da China, o objetivo real parece ser a proteção dos interesses das empresas chinesas.

Por que os Estados Unidos não cobram uma mudança? Não que não tenhamos influência para tanto. As empresas chinesas como a Tencent e a varejista online JD.com implantaram agressivamente suas operações nos EUA, buscando aproveitar do nosso mercado aberto e da internet aberta. Em 2016, o Gabinete do Representante Comercial dos Estados Unidos referiu-se ao bloqueio à internet chinesa como uma barreira comercial. 

Por que permitir que um país faça negócios aqui se não permite que façamos negócios lá? O princípio fundamental da política comercial é a reciprocidade: reduzam as suas barreiras e nós reduziremos as nossas. No caso da economia da internet, os EUA depuseram as armas unilateralmente, e estão sendo feitos de bobos.

Particularmente estranha é a atitude das grandes empresas de internet americanas, vítimas da política de internet da China, cuja estratégia era em grande parte de conciliação. O Google se retirou do mercado chinês em 2010 pelo temor da censura e da espionagem industrial, e se queixou por um tempo da obstrução chinesa.

Entretanto, no ano passado, nós soubemos que o Google efetivamente desistiu de lutar, construiu um motor de busca censurado para o mercado chinês e pediu o acesso. Igualmente decepcionante foi a estratégia do Facebook. Embora o Facebook tenha sido banido da China há anos, Mark Zuckerberg, seu diretor executivo, empreendeu embaraçosos esforços a fim de agradar ao presidente da China, Xi Jinping.

A conciliação não é uma política externa ou uma política comercial eficaz. Os Estados Unidos, com a maior economia do mundo e o mais importante setor de internet, deveriam estar negociando de uma posição de força. Se o governo Trump quer mostrar-se duro com a China na questão do comércio, deveria exigir um significativo acesso ao mercado de internet chinês, sob pena de negar às empresas chinesas o acesso aos mercados americanos. Foi assim que as negociações comerciais sempre funcionaram, e a internet não deveria ser a exceção. Caso contrário, correremos o risco de ganhar a batalha pelo passado abandonando a batalha pelo futuro.

Tim Wu é professor de Direito na Columbia University em Nova York, e autor do livro “The Curse of Bigness: Antitrust in the New Gilded Age”.

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