Bethany Mollenkof para The New York Times
Bethany Mollenkof para The New York Times

A extrema direita prevê a catástrofe sem Trump na presidência dos EUA

Festival Trumpstock reúne pessoas que compartilham as ideias do presidente americano sobre imigração e patriotismo

Astead W. Herndon, The New York Times

09 de janeiro de 2020 | 06h00

GOLDEN VALLEY, Arizona - A Great American Pizza & Subs, à margem de uma rodovia, a cerca de 160 quilômetros a sudeste de Las Vegas, estava mais lotada e mais cheia de partidários de Trump do que de costume. Em qualquer dia da semana, ela serve “M.A.G.A. Subs” e “Liberty Bell Lasagna”. O restaurante está repleto de objetos que elogiam o presidente Donald Trump. Mas naquela manhã de outubro, realizava-se o Trumpstock, um pequeno festival que ocorre para celebrar o presidente. Entre os oradores havia um parlamentar republicano local, Paul Gosar, e personalidades conservadoras menos conhecidas. Havia também um rapper cujas letras incluem uma ofensa racista endereçada a Barack Obama; e um ativista da Carolina do Norte, que em certa ocasião afirmou, falando dos muçulmanos: “Vou matar cada um deles antes que eles cheguem perto de mim”.

Todos eram bem recebidos, com exceção dos liberais.

“Eles nos rotularam como nacionalistas brancos, ou supremacistas brancos”, disse Guy Taiho Decker, que dirigiu da Califórnia para participar do evento. “Não existe este negócio de supremacista branco, assim como não existem unicórnios. Nós somos patriotas”.

Se há um grupo que continua particularmente leal a Trump, é o pequeno, mas inflamado número de eleitores brancos de extrema direita, frequentemente em comunidades rurais como Golden Valley, que o exaltam como um campeão cultural que decidiu resgatar o país de gente de fora sem nenhum mérito.

Estes eleitores não toleram passivamente a mensagem de Trump sobre “construir um muro” ou a proibição das viagens de pessoas vindas predominantemente de países muçulmanos - são eles que as motivam. Eles se reconhecem na política do presidente de defesa da identidade baseada no medo, reforçada por conspirações que falam de caravanas de imigrantes e de “golpes” dos democratas.

O festival foi relativamente pequeno, atraiu cerca de 100 pessoas. Mas eventos como este tornaram-se parte do panorama político dos EUA branco ameaçado, enquanto as minorias raciais caracterizadas por Obama, o primeiro presidente negro do país, vão ganhando poder político. Eles descrevem Trump como uma figura inspiradora que está revidando a ameaça, suposta, de imigrantes muçulmanos e latinos, que são denunciados em termos preconceituosos.

“Não tenho nenhum problema com os muçulmanos,” afirmou Angus Smith, morador de Arizona, “mas será que eles não podem arrancar aquele trapo de suas cabeças em sinal de respeito pelo nosso país?”

Os democratas são retratados não apenas como adversários políticos, mas como personificações da catástrofe para a base eleitoral predominantemente branca de Trump e para o país.

O organizador do Trumpstock, Laurie Bezick, contratou oradores de todo o país pela mídia social.

Candidatos ao Congresso de longa data que anunciam o programa “Os americanos em primeiro lugar” vieram de Iowa e Maryland. Líderes de grupos políticos que estão crescendo, com nomes como "JEXIT: Judeus Saiam do Partido Democrata", "Latinos para Trump" e "Orgulho Deplorável", uma ala da organização LGBT, afirmaram ao público predominantemente branco que não eram antissemitas, anti-imigrantes, homofóbicos ou racistas. Na realidade, insistiram os oradores, os que usam estes termos são mais intolerantes do que as pessoas que eles acusam.

Os participantes do Trumpstock afirmam que estão acostumados a serem denunciados, outra qualidade que eles julgam compartilhar com o presidente. Isto faz parte do motivo pelo qual procuram protegê-lo, a ponto de recusarem reconhecer a possibilidade de uma derrota de Trump em 2020.

Mark Villalta contou que está montando um estoque de armas de fogo, no caso de Trump não se reeleger.

“O que vai acontecer será nada mais nada menos do que uma guerra civil”, afirmou, enquanto sua mão direita buscava uma arma no coldre. “Não acredito em violência, mas vou fazer o que tiver de ser feito”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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